Como outro antes pela primeira vez encontro as notas de um piano sem mãos enquanto o dia mostra os primeiros raios e laços e casos de uma vida cheia de curvas e esquinas muito embora seja essa a certeza que nos interroga a perguntar aonde tudo aquilo foi parar?

É que a vida é um círculo sem curvas e a gente teima em correr na hora que vai ler e pensar que faz escolhas quando cada um tem apenas o amor que merece e percebe que nada é mais urgente que a felicidade que bate a porta sem querer esperar o cego que não escuta e deixa passar!

Como antes agora pela primeira vez encontro a mesma brisa que embriaga esses pensamentos doces de uma tarde de mar quando tudo era um caminho sem saudades armadas de conseqüências e desculpas capazes de colocar um ponto final.

Eu ligo a tevê. Coloco no mudo pra mudar. Eu mudo de canal. Coloco em pausa pra pensar. Eu abro a geladeira. Na minha cabeça. Espero algo esfriar. Eu vejo a tevê. E escolho o que vai passar. Onde está? O controle remoto que não escolhe o que vai passar. É que a gente não tem um botão. Que mude o modo pro modo mudar. Tem vezes que a gente fica mudo. Fora do ar. E não tem antena ou para-raio. A gente simplesmente mergulha pra respirar. Ar. Ar que inspiro. Respiro ar. Ar comprimido. A gente é meio máquina. A vapor. E fumaça. Quando só entende o calor, o frio e o despertador. Quando toca a hora. Quando vira de lado. E resolve desligar. E logo tudo muda. Mas não muda a gente. A gente procura um botão pra funcionar. E liga o dia. Liga a tevê. Liga o carro. Agora aperto no elevador pra descer. Coloco no mudo pra pensar. Aperto em pausa. Encontro um botão. Aquele! Que finalmente vai funcionar. Aquele modo que liga o modo mudar.

Eu escrevia. Sem saber esqueci. Eu perdi as palavras. Absorvido pelo silêncio. Uma cegueira branca. Saramago não explicou. Faltava algo. Vai ver era um ponto. É que começa luto. Depois vem o absurdo. Até cair no incômodo. Esse ensaio é uma tentativa. Dizer algo ainda que nada. Como nada pode ser dito? Se existe essa palavra para dizer: nada! Pronto. Nada foi dito. Morre o silêncio. É como o momento que só por um segundo foi antes. Esse jogo de palavras tontas. Fico no rascunho de idéias que nunca termino. Uma pensadeira de letras coladas. Eu desejei dizer. E escrever. Sem saber esqueci. Eu perdi as palavras. Absorvido pelo silêncio. Que tempo perdido esse nosso. Desculpe, caro leitor! Eu vim aqui dizer algo. Alguma coisa que não fosse nada disso. Nem tudo isso. Era apenas aquilo. Aquilo que você desejou disso. Isso! Quanta decepção por dizer nada. Eu não escrevi nada! Melhor ainda: escrevi nada! E nada se escreve? Sim. Nada é uma lacuna para tudo que vem. Filosofia barata. Melhor seria não ter dito. Mas o que eu disse? Será que eu disse nada? Então nenhum tempo foi perdido. Nenhum letra foi gasta. Nenhum sentimento ferido. Era apenas o criado mudo contando os absurdos. E a poeira negociando com o espanador. Desculpe, criado-mudo-leitor.

Quando eu encontrar respostas, lançarei perguntas. Cabe a ti dar então certezas reais. Não aquelas trapaças do coração. Quando souber do que falo. Quando esta será a mesma língua? Quando encontrarmos o perfeito ajuste de tempo. E o que será então o amanhecer de dois corpos sob o sol. Sob as ondas que outrora poderiam ter a graça dos teus olhos. E das pegadas que um dia eu fiz questão de deixar na areia da praia.

Eu não quero ser. Seja lá o que isso quer. O-que-quer-dizer-? Eu não quero ser. Nem ateu. Nem sei se deus. Deus me livre! Eu não quero. O que eu quero é (não) ser. Nada disso. Nada que vá dizer. Sem bandeiras. Sem ofensas. Eu quero ser. Eu. Duas letras. Ponto final. Etc e tal… Livre de cada um. Que seja um. Que seja eu. Não sou vermelho, opaco ou azul. Eu não tenho pele. Só uma alma. Não tenho armas para me defender. Não sou o sexo. Nem o signo. Nenhuma marca. Nenhum partido. Não sou profile. Nem o anexo. Ou disco rígido. Eu sou só eu!  Consegue ver? Sem nada que faça. Que caiba. Que diga. Olhe nos olhos. Talvez eu até minta. O que define? É que eu-sou-tudo-isso. Eu sou a beleza de não ser você. Eu sou o mesmo que ainda pode mudar. Mudo? Você é surdo? Outro mesmo eu. Em cada amanhecer. Abusado que seja. Esse sou eu. O que quer que aconteça. O que vai dizer. Quem vai falar? Por um futuro-mais-que-perfeito. Eu. Primeira pessoa do singular.

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