Quando eu encontrar respostas, lançarei perguntas. Cabe a ti dar então certezas reais. Não aquelas trapaças do coração. Quando souber do que falo. Quando esta será a mesma língua? Quando encontrarmos o perfeito ajuste de tempo. E o que será então o amanhecer de dois corpos sob o sol. Sob as ondas que outrora poderiam ter a graça dos teus olhos. E das pegadas que um dia eu fiz questão de deixar na areia da praia.

Eu não quero ser. Seja lá o que isso quer. O-que-quer-dizer-? Eu não quero ser. Nem ateu. Nem sei se deus. Deus me livre! Eu não quero. O que eu quero é (não) ser. Nada disso. Nada que vá dizer. Sem bandeiras. Sem ofensas. Eu quero ser. Eu. Duas letras. Ponto final. Etc e tal… Livre de cada um. Que seja um. Que seja eu. Não sou vermelho, opaco ou azul. Eu não tenho pele. Só uma alma. Não tenho armas para me defender. Não sou o sexo. Nem o signo. Nenhuma marca. Nenhum partido. Não sou profile. Nem o anexo. Ou disco rígido. Eu sou só eu!  Consegue ver? Sem nada que faça. Que caiba. Que diga. Olhe nos olhos. Talvez eu até minta. O que define? É que eu-sou-tudo-isso. Eu sou a beleza de não ser você. Eu sou o mesmo que ainda pode mudar. Mudo? Você é surdo? Outro mesmo eu. Em cada amanhecer. Abusado que seja. Esse sou eu. O que quer que aconteça. O que vai dizer. Quem vai falar? Por um futuro-mais-que-perfeito. Eu. Primeira pessoa do singular.

[Publicado na coluna 'Olhar Sobre a Cidade' da Revista Siará Nº110]

Eu não vejo minha cidade! Começar assim pode parecer estranho. Principalmente em um artigo que reflete nosso olhar sobre o que nos cerca. Talvez seja mais fácil entender isso se eu posicionar o leitor geograficamente: eu não “vejo” minha cidade natal, Caucaia, localizada a cerca de 10 minutos ou 10 km de Fortaleza. Sobre a distância, vou deixar que o leitor escolha entre tempo e espaço. Curioso: pensar sobre isso me faz perceber que passo mais tempo em um espaço que não é a “minha” cidade. Então, me pergunto: a quem pertenço e o que define isso? Caucaia se tornou um lugar para chegar e sair. Lugar sem muitas (con) vivências,  onde não pratico atividades corriqueiras como pagar contas ou ir ao supermercado. Uma vez trabalhando na capital, procuro realizá-las por aqui. É triste constatar isso e perceber que um dos grandes motivos que levam ao subdesenvolvimento das regiões metropolitanas seja esse “êxodo-diário”  e, com isso, a descapitalização dos municípios.  Mas isso os economistas podem explicar melhor do que eu. O que realmente constato é ainda, felizmente, existir um certo sentimento de pertencimento àquilo que está em nossas raízes. Paralelo a isso, há uma sensação de ausência e de desconhecimento sobre as mudanças que acontecem em nossa pequena Caucaia. Como se não bastasse o dia a dia agitado, a falta de agenda e opções para fins de semana e feriados nos leva a sair e nos distanciar (mais uma vez) da terra natal. Ficar em casa é uma opção. E talvez esse seja o momento para lançar esse olhar sobre o bairro e o silêncio que se estabelece nas ruas de um domingo. Um deserto completo! Acredito que seria bom reencontrar essa vivência. Como outrora, na infância. Ainda que seja sentar no banco da praça da matriz. Cortar o cabelo no mercado central e comprar o pão na mercearia. Quando possível, tento. E me dou conta de mais uma novidade: de que sou como um turista. Mesmo dentro de minha cidade natal! Sou como alguém que passa e que, muitas vezes, não reconhece as pessoas. E consequentemente não é reconhecido. Então, volto a perguntar-me: a que lugar pertenço? O que é esse sentimento sem encontrar contextos cotidianos sobre o que lhe cerca? O mais incrível é que eu não sei muito sobre o que se passa na minha rua. Outro dia me surpreendi ao perceber que os vizinhos eram outros. E já fazia algum tempo. Restam as lembranças sobre as ruas onde cresci. Reconhecer lugares que frequentei. Visitar aquela jangada ancorada em algum lugar nas praias da Tabuba, do Cumbuco. Perceber que, mesmo lentamente, a mudança acontece e nos alcança. Mudam as cores da escola, crescem as filhas do padeiro, inauguram uma farmácia nova enquanto o pipoqueiro cochila sentado à porta da igreja. São as varandas e calçadas que hoje aparecem pela janela do carro, fugazes, borradas… Então, vejo minha cidade e me situo no tempo e no espaço. E, em algum lugar, a gente sente que pertence àquilo que guardamos dentro do coração.

Redondo
Tinha quatro lados
Feito triângulo
Opaco
Apaga
Tinha brilho de prata
Era escuro e branco
Dourava
Estranho
Feito palavra
Que no silêncio
S-i-g-n-i-f-i-c-a-v-a
Sussurro
Tinha boca e língua
Abria e fechava
Num instante era surdo
Pesada como chumbo
C-a-l-a-v-a
Engraçado
Tinha lona e platéia
Palhaço e palhaçada
Faltava o riso
Aquela graça
Estranho
Era redondo
Dentro e fora
Mas não rodava
Claro
Era escuro
Turvo, luto, absurdo
E mesmo assim
Veio cego
Dizer que sabia
Dizer que brilhava

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