arquivo

Arquivo mensal: janeiro 2010

Agora você tem um diploma. Agora você tem que conseguir um emprego. Agora você precisa sair da casa dos seus pais. E compre um carro se for possível. Agora você precisa fazer uma especialização. Agora você precisa virar os fins de semana trabalhando. Agora você precisa do Mestrado.

Agora você precisa casar. Agora você precisa viajar. Agora você precisa de outro emprego porque que as contas estão aumentando. Então você precisa de mais especialização: Doutorado. Agora você tem filhos. Agora você tem cabelos brancos e mais contas. Agora você começa a se preocupar menos (ou mais). Resta ainda pouco mais de 40 anos para se viver.

Agora você precisa aproveitar o que resta e trabalhar. Seria bom ter uma casa de praia ou um sítio para relaxar nos feriados. Então faça novos planos para novas metas. Agora você quer tempo para si. Agora você não tem. Agora você percebe que deveria ter aproveitado mais e se estressado menos. Então agora você começa a se preocupar mais-ou-menos. Agora você começa a pensar no fim. Agora você olha para trás para ver se fez tudo certinho. Agora você olha para os filhos bem criados. Agora você leva sua filha para o altar. Agora todos os seus cabelos estão brancos. Se você ainda tiver cabelos! Agora chegam os netos para quebrar o vaso da sala de estar. Agora você não consegue ficar muito tempo em pé.

Agora você consegue relaxar mais sem muita pressa. Mesmo sabendo que não tem muito mais tempo. Agora você precisa se aposentar. Agora você quer continuar trabalhando por que ama o que faz. Agora você se dá conta que a vida é fascinante e fugaz. Agora você chegou ao fim do texto. Agora é a sua vez. Agora!

Anúncios

O revolver ainda expirava o vapor quente da última bala. A mão ainda estremecia com firmeza enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. O sangue escorria pelo chão. A loucura e o desespero alimentavam a bile do assassino que lentamente baixou sua mão. Ele contemplou o corpo sobre a cama despido. Os pés desalinhados sobrepostos. As mãos que outrora ele pôs uma aliança. O corpo que outrora ele abraçou. Como chegamos a isto? Como um sonho torna-se um pesadelo? Nunca foi amor aquilo que a paixão camuflou. A cobiça e a materialidade. O silêncio que revelava a omissão e alimentava inverdades. Ele então caminhou e sentou-se à beira da cama. Deixou a arma sobre o carpete. Olhou para ela com ternura e se debruçou, abraçando o corpo ensanguentado. Beijou os seus cabelos ainda perfumados. Ali, naquele momento, ele respirou certa paz. Sabia agora que ela não seria de mais ninguém… e assim ele dormiu e sonhou como nunca fizera.

Eu escolhi não ter ninguém para abraçar
Como um fantasma que anda pela casa
Consegui passar pela noite sem sonhar
Descobri que o eterno também acaba
Tudo tem o tempo certo para acontecer
Tudo é um momento sem compromisso
Acaba e começa em um novo segundo
Eu descubro que sou o meu melhor amigo
Fantasmas que não vão embora
A chuva revela que ninguém vai chegar
Apago as luzes e me deito sem sono
Lembro de tudo que não quero lembrar

Na janela do trem ele apoiou as mãos trêmulas. O chapéu de palha surrado pelos anos.  As roupas simples de pano sem marca. Ao seu lado, filhos fortes bem criados. Aquele senhor não tem e-mail ou celular. E para ele poucas coisas são realmente necessárias para se viver. Então, em um instante, sentou-se sobre as sacas cheias de sementes. Feito criança olhou ao seu redor e sorriu! Um sorriso cheio de doçura. Eu sorri também. Lembrei algo antigo sobre minha infância.

Cantiga de campo
De concentração
A gente bem sente
Com precisão
Mas recordo a tua imagem
Naquela viagem
Que eu fiz pro sertão
Eu que nasci na floresta
Canto e faço festa
No seu coração
Voa, voa, azulão…

Sua casa deve ser toda simples. No alpendre o balanço da cadeira. Os móveis bem gastos e o fogão de lenha. A manhã não chega com o despertador. Vem devagar com o sussurro da natureza. O canto dos pássaros. O aviso do galo. O chuvisco e o balançar das árvores. O barulho do rio cheio que corre livre. O cheirinho do café e do pão de milho.

Cantiga de roça
De um cego apaixonado
Cantiga de moça
Lá do cercado
Que canta a fauna e a flora
E ninguém ignora
Se ela quer brotar
Bota uma flor no cabelo
Com alegria e zelo
Para não secar
Voa, voa no ar…

As portas se abrem na estação. Braços fortes levam suas sacas. Ele apenas caminha em seu ritmo. Calmo, mas ainda vigoroso. Fui até a janela e observei ele seguir pela estrada enquanto o trem apressado partia. Espero que ele chegue bem ao seu destino. Espero chegar também! Com paciência alcançar tudo aquilo que anseio de mim hoje. Até lá… vou na velocidade que dá. Buscando sempre as coisas simples que me fazem tão bem. Deve sempre haver tempo para não correr… tempo para viver, respirar, sorrir e caminhar.

*Uma forma singela de agradecer a Vital Farias e Geraldo Azevedo por tantas tardes de domingo onde eu, criança, ouvi meu pai por longas horas cantar junto a radiola antiga. Obrigado pai por me ensinar tantas coisas.

Corre como uma ventania. Feroz como o mar. Doce como o teu semblante. Ao te ver de olhos fechados eu me revelei. Na sutileza das mãos que se tocaram eu vi o fogo. Eu me atirei contra as rochas da minha compreensão. Estrelas prateadas riscaram o céu de uma tempestade. Amarrado ao navio para ouvir o teu canto e não ser levado para as profundezas deste oceano. Algo se libertou na fúria e na serenidade. E sobre a planície correram cavalos selvagens. O fogo alastrou o desejo que ardia por dentro. Renasceu um sol de lembranças. A crista de uma labareda iluminou as praias dos meus lábios. Num mergulho em busca de ar. Na vastidão do que não foi dito. Na procura por um segundo a mais. Respiro o doce perfume do fogo.