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Arquivo mensal: março 2010

A palavra não diz tudo
A fotografia não representa
O olhar não vê o mundo
É a antena que alimenta
O silêncio ainda arrisca declarar
Crescente rumor virtual de uma metáfora
Temporada de um simulacro de sentidos
Engrenagens, patrocínio, fibra ótica, óleo diesel
Código de barra, emotion, profile, disco rígido
Sobra pouco para tudo que se sente vivo
Só a arte parece ser capaz de apresentar
Mas o que é arte no meio de tudo isso?
Eu espero que o futuro venha me contar…

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A tempestade veio como um açoite de aço
Caiu como uma tormenta sobre minha alma perdida
O uivo e o trovão agitaram os mares do meu coração
A onda tenebrosa e colossal que tragava toda esperança
Era a revolta de um deus poderoso e vingativo
Navegava astronauta solitário em um mar de estrelas
Mar a dentro e além, na procura por uma praia de águas mornas

Mas o abismo da vastidão rompeu as âncoras e me levou para as profundezas
No ministério das almas perdidas despertei sobre o lado escuro da lua
E descortinei um véu mais denso e profundo que toda falta de luz
Algo turvo. Luto. Preto. Negro. Noturno. Onde o absurdo era lúcido
Caminhei para além dos horizontes verticais que outrora contemplava
Adeus amada criança que nasce sem a pureza de um novo dia
Porque lambuzamos os dedos e lambemos os lábios da boca que amargava

Encontrei o set de controle do sol e arranhei a face do meu criador
Fui banido para os confins do além onde as estrelas são estranhas
Encontrei a redenção de uma boca que proferiu a beleza e o horror
Jurei pela luz dos teus olhos que não te abandonaria jamais
Estende agora a tua mão para o além e proclama a verdade que você esconde
Além da vida e do impossível que se converte em palavras que só eu sei ler
Há uma razão na loucura e na loucura a razão do que não se pode ver

Deserto de pedras por onde meus antepassados caminharam
Vago agora distante como eremita para me perder e te encontrar
Contemplo a torre que risca o céu como Babel não pode imaginar
Escalei as escadas para alcançar a porta do infinito onde o oráculo aguardava
Fazer frente aos mais profundos medos para aprender a cair e recomeçar
Quando pensei que não… descobri que sim
Quando me julguei sábio… comecei a errar

No trigésimo terceiro ano percebi das alturas um mundo pequenino
O palácio das estrelas resplandecia o céu da boca que cantava para o vácuo
Lentamente a última sonda da aventura humana atravessou o espaço
Como um pequeno príncipe lacei o cometa para alcançar a porta do juízo
Eis que o senhor tratou de me ensinar que a estrada existe para ser trilhada
Caí por dias incontáveis até ser recebido pela terra com o conforto do aço
Vi tua beleza ser levada pelos anos enquanto sonhava e esperava ser amada

Das alturas veio a risada de um oráculo louco que sempre me aguardava
Você realmente pensa que preciso de você para dormir em paz?
Calcei o primeiro de muitos degraus pelos anos de uma lúcida loucura
E a ternura foi a chave de toda porta fechada pelas correntes da arrogância
A paciência foi o relógio que lutou lentamente contra o teu orgulho
O silêncio foi a palavra usada contra teu discurso venenoso e insensato
O amor foi escudo para todas as coisas que não fiz questão de defender

Ao fim de uma eternidade alcancei o último degrau e a casa do oráculo
O fim de um caminho e de uma vida que esgotei por me demorar em escolhas
Recebi a chave para a última porta que me atravessava o coração
No ministério me encontrei e aprendi o que não posso contar
Espero que você entenda… não sou o mesmo pois sou único a cada dia
Ontem fui outro por não ser o mesmo que hoje se levanta
Acontece que me visto com a mesma pele… e com uma nova esperança

Mudam os olhares dos meus olhos
Movem-se as nuvens do pensamento
Caem as correntes do eterno
Desperta no horizonte estrela poente

Atravessa a janela do décimo andar
Tudo que lancei pela vidraça
Agora há tanto de mim em um segundo
Já não existe o mesmo que sobrou nada

Tudo se apagou no nascer de um novo sol
Eu não me escondo… eu paro, olho, assumo, fico
Não cabe a verdade dentro do arcabouço que havia
Eu me refiz por não acreditar no que foi dito

Inexpressível felicidade que brota aqui
Razão de um mar que não para de sussurrar
Caminho que não foi traçado em minhas mãos
Entendo agora como tudo isso teve que terminar

O vento soprou e levou o que havia aqui
Eu quero mais de mim por bem sorrir e acreditar
Abraço verdadeiro, beijo sem fim, sorriso sem medo
Já não há navio… agora posso simplesmente voar