arquivo

Arquivo mensal: fevereiro 2012

É a segunda vez que me esbarro
No alguém que você se mostrou
É a terceira vez que te olho
Na primeira pensei não saber o que sou
Será a quarta de muitas feiras até segunda
Na fila do supermercado esperando minha vez
Mais uma semana que começa e termina
É a quinta-feira da última do mês
Levado pelos dias, na esquina uma flor
Brotando no meio de tudo, aqui onde estou
Foi a última vez que te disse
A primeira que o fim chegou

Anúncios

Algo se desfragmentou. O último bloco de peso atômico calculado fora colocado no feixe. As variantes do seu pensamento sentiam o abandono de causas que ele friamente avaliou. Era o silêncio do inverno crescendo por dentro. Fora de alcance, das possibilidades óbvias. Certezas e probabilidades. Chuvas torrenciais. Equações não lineares. Longe dos olhos que só conseguem olhar para dentro. Dos ouvidos que não podem ouvir nada além da própria voz. Ela sentia reverberar todas as possibilidades de encontrá-lo uma última vez. As escamas sobre a pele branca, o desejo de lhe dizer a verdade. Dici che il fiume. Trova la via al maré. E come il fiume. Giungerai a me. Oltre i confini. Do outro lado da cidade, ele desceu as escadas. Cruzou olhares com o vazio da noite. Caminhou pelo jardim, sobre o cascalho que rangia. O frio imperioso sobre seu corpo. Tirou o telefone do bolso do casaco e ouviu a mensagem de voz. Não sei quando vai receber isto. Saiba que desisti de tudo depois daquela noite. Precisamos conversar. Estarei lhe esperando para terminar o que começamos. Sei que faz muito tempo. Mas não troquei as fechaduras. Espero que ainda tenha as chaves. Ela fizera seu último voto ao ministério e seguiu por um caminho diferente. Nunca foi capaz de perceber quem ele realmente era por muitos anos. Acreditou em escolhas egoístas baseada nas ilusões do seu julgamento. Por este motivo, levaria um tempo para perceber. E, neste mesmo tempo, algo aconteceu. Mas ela não estava lá. Não testemunhara e não saberia dizer quando e como tudo se deu. Ele deixara de existir. Perdera algo por acreditar em outro momento. E non so più pregare. E nell’amore non so più sperare. E quell’amore non so più aspettare. Era impossível reconhecer as palavras do seu olhar. Algo havia se perdido. Como um pedaço preso a um navio tragado pelas profundezas do oceano, levado pelos anos, esquecido, imerso, sem vestígios. Ela congelou quando o viu chegar à porta da torre. Percebeu que caminhara todos esses anos para este momento. Sentiu que, por muito tempo, assumira uma mentira como verdade para confortar a cabeça antes de dormir. Eu sei o que sinto, mas não quero admitir. Fechou o olhos e vislumbrou os detalhes: as armadilhas embainhadas, o isqueiro sobre a mesa, o vinho, o batom e a tempestade. Acreditava nas suas certezas agora. Não perderia a oportunidade de lhe entregar a chave e a senha para todas as possibilidades. Mate essa vontade de viver! Algo se aproximava. Por meio de uma noite sem fim. Algo se despedaçava. A troca de pele, o rito de passagem, a equação balanceada, a combustão espontânea, as paralelas cruzadas. E no final ele era como uma rocha no meio do oceano. Seu olhar ainda é sincero. Ele cruzou a porta. Emergindo das sombras em passos calmos e firmes. Pronunciando sussurros. Não acredite que vim até aqui desconhecendo suas intenções. Pois esta é a minha certeza sobre todos os motivos que te levaram a quebrar antigos votos. Abandonaste teus caminhos e voltou para encontrar uma casa vazia. Pois não estou aqui. Convidaste a pessoa errada. Pois não sou o mesmo. Ela caminhou em sua direção e o abraçou. Finalmente o tocara depois de tanto tempo. Sentia seu corpo contra o dela. Estava terrificada com as palavras a pouco ditas. Sob estas circunstâncias o dragão se preparou. Então lembrou da última noite. Anos antes. E agora esses sussurros ecoando em sua mente. Até que o desespero das certezas lhe afogaram. There’s no chance for us. It’s all decided for us. This world has only one sweet moment set aside for us. There’s so much left unspoken. Então tudo mudou. Num gesto rápido cravou a lâmina em suas costas dilacerando a latissimus dorsi de cima para baixo. Ele pressionou as unhas contra sua pele. Rasgou as escamas do dragão, sufocando-a, retirando todo ar dos seus pulmões. Abraçava seu corpo com veemência, revelando sua dor. O sangue tingiu o piso. Um borrão branco cobriu seus pensamentos. Uma rocha no meio do oceano. Incorruptível, desfragmentando-se em penitência. What would you say. If I walked away. Would you appreciate, but then it’d be too late. Because I can only take so much of your ungrateful ways. Everything is never enough. Seu corpo então desabou. Feito aço que naufraga. Imóvel. Desacordado. E nesta hora fez-se um longo silêncio. Ela então deu alguns passos para trás. Ficou ali por alguns segundos. Parada. Perdida. Seguiu até a mesa, tomou o isqueiro, tic, contemplou a chama antes de atear fogo às cortinas. Caminhou com paciência observando a noite enquanto as labaredas lambiam o teto, mais uma vez, lembrava. E lentamente se pôs de joelhos. Deitou-se junto a ele, esperando o sono chegar. Lá, onde os sonhos nascem. Onde talvez despertasse em sua banheira. Naquela mesma noite. Quando percebeu que estariam para sempre ligados um ao outro, por mais que tudo dissesse não! Agora tudo era o inferno do fogo e a certeza do fim. Abraçou seu corpo, sentiu o seu perfume, fechou os olhos e pensou pouco antes de tudo terminar: até a próxima vida, quando reencarnar…