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Arquivo mensal: abril 2012

Eu vejo um deserto vermelho se pôr. Um mar azul até o horizonte silencioso. Aqui, onde as estrelas são estranhas. Aqui, sobre as montanhas dos ermos do oeste. E sobre os pastos vão manadas quase atoladas em brejos ainda rasos. E laço e brisa e relva. O dia findado na ilharga das coisas que deixamos acontecer, até deitarmos nosso olhar sob a escuridão das pálpebras. Acordados ainda no outono da primavera. Do outro lado deste, ali no sonhar. Aqui onde o arco de pedra nos cobriu como a couraça de um dragão. Descendo a colina, cavalos domados. Teus cabelos voando, abraçada ao meu lado. Quero uma pintura para descrever tantas cores em um céu desconhecido por tantas vidas. Ainda são essas risadas que se misturam. E foi o firmamento que se calou para sussurrar as estrelas que te mostrei. Nas terras de um senhor que se pôs. Onde vivemos esta juventude até o cair das horas. Ouvindo o ronco do mar e o sibilar da brisa viva em melodia. E as estrelas nos invejaram quando nos amamos sob o véu da neblina em uma praia… a muito… a muito esquecida…

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Sobre a areia branca das praias caminhamos até o amanhecer. Isso fala dos contos perdidos, das coisas que acreditamos saber sobre o mar. Imagem de algum escrito esquecido entre páginas que não li nas linhas desta vida. Da vida deste, que encarna parte do que se viveu nas palavras. O vento soprou em algum momento do outono. Levou as folhas soltas em voo livre sobre o penhasco que empurra o mar. Eis que esquecemos como tudo era. E depois veio uma doce luz amanhecer nossos olhos. E a vida não era aquilo que imaginávamos antes de ouvir esta melodia. Despertamos para ver o sonho chegar aos portões da noite. E foi o frio balançando nossos corpos nesta manhã pálida. E veio límpida, branca como as praias, doce como este aroma do mediterrâneo… alva como a tua pele. E foi a loucura de ver o teu pescoço sob gestos tão sutis. A louça que invejava teus ombros. O que me diz este riso… e a tua voz… são coisas que só sei sentir. E se sei não ei de pronunciar para não diminuir. Pois seriam letras tão pequeninas sobre vontades tão inebriantes. Acho que esqueci que a vida é feita de algum certo talvez. Como barco embriagado que não se sabe muito aonde vai, ou de onde veio… Acontece então algo no meio. São as coisas que não planejei. E me enganei muito. Tão fácil. Tanto, tanto… E foi por muito tempo… mas a vida só acontece! E no meio de tudo o frescor da chuva que nos afoga. Soube agora, finalmente, pular para o outro lado e deixar isso tudo me alcançar. Soltar as rédeas, quebrar as réguas, deixar a trégua. E esse perfume… a beleza de dias não vividos dentro de minhas vontades. Elas não imperam sobre as linhas da praia, ou sobre os ventos dos mares. Ele insiste em soprar sobre a vontade que lhe rege. Então são acasos e paralelas que se cruzam. Pois correm livres os cavalos selvagens e o fogo não possui senhor. Ele se alastra e se arrasta até lamber o teto que desejas consumir, sedento de sede. E a água não dobra o ferro mas, o abraça e o afoga na esperança que este adormeça. As linhas estão sumindo. Desisto de me orientar. Quero as estrelas apenas para a minha íris, para contemplar. Deixo agora todos os mapas. Quero somente uma bússola em meu coração. Deixo todas as certezas sobre algo que não é o imediato segundo… existe um curso natural que não é a minha vontade. Mas a soma de todo o acaso que está no passado ancorado, no futuro impensado e no presente atado… é aqui, no agora que amarramos todas as pontas soltas. Pontas que muitas vezes pensaste em cortar. Deixo esta encruzilhada me soprar. Encontrar uma ilha depois de naufragar. E a vida não era aquilo que imaginava antes de sentir esse perfume. E o caminho soma suas partes. Podem ser muitos, podem ser todos, podem ser dois ou três… talvez, talvez, talvez…

Canto, vivo, falo, digo, penso, mordo, calo, medito, creio, teclo, corro, sigo, paro, parto, caio, ligo, expresso, durmo, sonho, realizo, leio, escrevo, rasgo, mastigo, bebo, levanto, cambaleio, equilibro, ergo, amasso, preparo, atiro, desabafo, apago, curto, compartilho, desenho, calculo, adoeço, medico, invento, desfaço, ouço, silencio, tento, tento, tento, tento, tento…

Uma brisa nesta tarde de domingo
Trouxe o perfume das flores do teu jardim
Vejo um mar de estrelas em teus ombros
E fico perdido em coisas que nem sei
Caminho por ruas vazias em estranhas horas
Na esquina ela silencia a tarde fria
Quem de ofertará uma rosa?
No meio de tantas te vejo sozinha…