30 Voltas ao Redor do Sol

Abri o livro dos escritos nesta noite. E lentamente fechei os olhos antes de respirar. Ao olhar pela janela da torre alcancei os primeiros raios sobre o oceano que nos separa. A tormenta que rege o perfume da noite. E nesta mesa a vela contra a brisa. A sombra da labareda bailarina que dança em paredes frias. O chão nu cortando meus pés. Estes que me levaram para longe da cama. Então veio o sussurro da maré embalar meus pensamentos. Aqui nesta torre de pedras. Ao longe brilha pela janela a pálida luz de um escritor. Farol de marinheiros que se estilhaçam contra rochas escarpas. A força dos ventos e a tempestade. Mais forte que os fundamentos da terra. O trovão que abala os confins do mundo e do abismo. Como quem tem sede. Como quem nos caça e nos alcança. Como quem tem pressa. O ar que nos afoga e nos mata. Batem as janelas. Rasgam as cortinas. Voam as palavras. Amargam as mentiras. E toda vontade que preciso viver para deixar esquecer. E o tempo não veio. Neste cronógrafo de horas banidas. O tempo não veio. E ninguém teve coragem de contar ao demônio o quão perigoso é ser humano para testemunhar o peso das ações regidas pela mortalidade. Ninguém teve a bondade de explicar o quão inútil é nos tentar. Mentimos em silêncio as verdades que deveríamos pensar. Sentimos o coração bater mais perigoso pouco depois de nos deitar. Olhos abertos vitrificados. A chuva revela que ninguém vai chegar. Apago as luzes e me deito sem sono. Lembro de tudo que não quero lembrar. Ó demônio, tu não tens coração para amar. Ó demônio, não tenhas medo! Tu nunca saberás. E a rubra quimera dos teus desejos. Alça tua âncora e não procure as praias dos meus pensamentos. As rugas do retrato que amarela dentro da moldura que abraça. As costuras que fiz para deixar este coração bater. E a licença poética que não me permite dizer. O sorriso é maior quando alcança tuas mãos. E quando acordar nesta torre sem escadas o oráculo baterá na porta dos meus olhos. Pouco antes de alcançar sob as pálpebras a luz do sonhar. Pouco antes de dormir vou acordar. E o tempo não veio. Não ouço badalar. Nem as notas que cantei. E todas as preces que fizeste. Onde as estrelas são estranhas. No ministério das almas perdidas. O caleidoscópio do senhor do ar. A ponte onde deitamos. Entre o céu e o mar. O sorriso de Sophia. E a vida que começa a apontar. Por um futuro-mais-que-perfeito. Longe da hipocrisia de um sorriso que alguém te dá. Desfaço muitos laços. Existem outros acasos feitos de verdades sem desculpas. Mas da torre alta pude ver um navio. O único que parece chegar. Dizem estes mapas nas minhas mãos. Linhas que se cruzam por alguma razão. E são muitas as páginas em branco. Depois do que segue são muitas as que esperam um novo início. E vejo o vermelho do horizonte. Da torre alta um dia que começa. O que vem depois? A rosa dos ventos. O tapete mágico vermelho. Interrompido por fogos de artifício. Sete cantigas para voar. Eu precisava por um momento encontrar as palavras certas. Ser o meu reflexo novamente. E me reconhecer em cada contorno. Completo mais uma volta. E volto a ser novo de novo.

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1 comentário
  1. Bosco disse:

    Muito foda o texto, Felipe. Abraço!

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