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Arquivo mensal: dezembro 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

The new Boeing 787 Dreamliner can carry about 250 passengers. This blog was viewed about 1.500 times in 2012. If it were a Dreamliner, it would take about 6 trips to carry that many people.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Deixei as chaves sob o azulejo
O cronógrafo parou de funcionar
Lembre de alimentar os dragões
Com o vapor da máquina de chá
Alfazema e alquimia de bruxaria
Abra cada brasa calando as palavras
Prepare a mesa e a lenha de vidro
No grimório a receita e a navalha
No pote com flores azuis
A varinha de pedra e sal
Quando anoitecer liberte a coruja
Tempere e corte a raiz de todo este mal
Minha xícara de café preto
Na lareira deixe namorar
Abra a porta para o lobo
Não deixe a ovelha entrar
Há muito tempo não somos iguais
Escolha bem do que vai lembrar
Faça um pedido, seu maior desejo
Na próxima estrela cadente… eu posso voltar…

O domingo no parque. Sorvete e balões. Durante toda semana pedi aos meus pais com aqueles olhos melindrosos: ‘me leva para andar no Trem da Disney’. Sonhava com as histórias que meus colegas da escola contavam. ‘Nossa, tão legal! O Pateta falou comigo! Sentei ao lado do Mickey e ele ria o tempo todo, assim, com a mão na boca, balançando a cabeça!’ Ao longo da semana, vendo desenhos animados, comecei a criar dentro de mim uma expectativa de como seria. Finalmente encontrar todos eles. Ali, fora do mundo mágico que as sessões-finais-de-tarde me proporcionavam. ‘Nossa, amanhã vou conhecer de perto o Pluto, o Pateta, o Mickey!’ Imaginava deitado em minha pequena cama decorada com todos eles. Estava perdido em pensamentos que não me deixavam dormir tamanha a ansiedade! Então amanheceu. O tão esperado dia entrava pela minha janela enquanto minha mãe me vestia e calçava meus sapatos. Levei um dos meus livros para ser autografado. Claro, eu não perderia essa oportunidade!

O parque ficava a alguns quilômetros de nossa casa. Mas desta vez o caminho foi bem mais longo. Quando chegamos meu coração disparou: olhei pela janela colando meu rosto no vidro. Estavam todos ali, toda a turma! Desci do carro e logo meus pais me conduziram até o local. Debaixo daquele sol escaldante lembro de não conseguir conter minha alegria. Junto a esse turbilhão de sentimentos veio um certo receio de me aproximar. Então fiquei ali, na fila, agarrado à perna do meu pai, observando enquanto eles se movimentavam e brincavam com outras crianças. Era inacreditável! Mas logo toda turma se retirou enquanto as pessoas compravam os ingressos. ‘Acho que foram dar a comida do Pluto’, pensei.

Num descuido dos meus pais, eu os segui. Fiquei atrás de uma banca de revista observando enquanto… ei, espera um pouco! Mas o que… ouvi uma voz estranha vinda do Pateta pouco antes de ele retirar a própria cabeça e… levar um cigarro à boca! O Mickey estava bebendo algo sentado no chão enquanto coçava a perna. Era o mesmo rótulo do refrigerante que meu pai comprava e guardava na geladeira, na parte de cima. Havia outra pele sob a ‘pele’ do ratinho. Era como a perna do meu tio, cheia de cabelos. Percebi que a meia não era branquinha como no meu livro: estava suja, rasgada. Eles conversavam e faziam gestos com as mãos. O Pluto estava se abanando com a ‘pele’ removida até a cintura. No ombro uma tatuagem com os dizeres ‘cearamor, a maior da capital’. Vi toda minha inocência se apagar com o cigarro que o Pateta pisou pouco antes de o Mickey gritar para os outros: ‘bora, bora, bora!’ Eram pessoas normais, vestidas com fantasias. Abri o meu livro e os vi ali, brincando. Mas não conseguia mais olhar da mesma forma. Algo estava diferente. Algo em mim se encerrava. Me senti enganado! Como se houvesse uma grande conspiração entre eles: minha professora, meus pais, os vizinhos e a apresentadora do programa da tv. Parecia que todos os adultos estavam envolvidos em algo muito maior. E de fato estavam! Foi o puxão de minha mãe pelo braço que me trouxe ao mundo novamente. O livro caiu e por um segundo ela ficou me observando. Logo percebera o que se passava quando viu o Pluto fechando o último botão da roupa. Então, naquele momento, pouco antes de minha imaginação abandonar os contos de fada, ela colocou as mãos em meus ombros e falou algo que trouxe de volta toda minha infância: ‘são como seus carrinhos, existem os que são de verdade e existem os que são feitos de plástico’.