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Arquivo mensal: novembro 2013

Olhava no espelho. Esperava algo diferente acontecer. Do outro lado. Sem se mexer. Estava preso no olhar. Viajante. Laçando ponteiros. Até começar. No alto da montanha esperando a noite. Um momento certo. No horizonte uma chuva de fagulhas. O vento frio e o doce perfume do fogo. Us, and them. And after all we’re only ordinary men. Como cheguei até aqui? Foram só as minhas escolhas? Estendi a rede para laçar um novo cometa. E mais uma volta. É que lá do alto o meu voo solitário é um sonho antigo. Metade disso é verdade. Eu que ainda não sei dessa outra parte. Em cada volta uma nova outra mesma singularidade: de  não ser o mesmo em todas as frases. Me, and you. God only knows it’s not what we would choose to do. Em cada uma dessas coisas. Em cada papel esquecido dentro de um livro. Em cada filme que vi. Repetido. Em cada música cantada. Sussurrada ao ouvido. Black and blue. And who knows which is which and who is who. Em cada noite que esperei amanhecer. Em cada mergulho. Respirava para não esquecer. Em cada dia. Naquela tarde. Naquela fila. Em cada oração. Por um segundo mais feliz. Em cada letra escrita. Nos cadernos da infância. Em cada uma das minhas lembranças. Do que passou e do que resolveu ficar. Dos amigos, dos irmãos, do meu pai, da minha mãe… do meu lar. Eu soube sair. Eu soube voltar. Eu soube chegar. Neste círculo sem curvas. Nas solas dos pés que pisaram o meu mundo. Nas mãos que receberam, seguraram, abriram e doaram. Aquilo que deixei. Aquilo que me tiraram. Nos olhos que se abriram. Que te viram. Que fecharam. Era um sorriso. Em cada canto. Em cada laço. Nas ondas que me banharam. Em cada pegada deixada… um pedaço. E completo mais uma volta. Quem fica? Quem vai? The great gig in the sky. O tempo passou. Claro que passaria. Amarelou tudo que não se movia. E nesse caminho incerto podemos pensar que existem outros. É que a gente não vive a tristeza das escolhas que não fez. Só existe uma oportunidade e talvez seja a de viver com aquela verdade no coração. Eu que me desfragmentei. Enxerguei cada parte. Em cada passo de um tango. Nas noites frias em que olhava pela janela. Congelava. Eu que não sabia. Como era? Imaginava! O que seria? O que esperava? Nessa centramilenaridade. Ali parado. Ali na esquina. Ou na fila do supermercado. Experimentando outro vinho. Esquecendo as chaves. O controle remoto na geladeira. Em silêncio um café. E os óculos embaçados. Em cada uma das minhas palavras. A cada noite escrevendo. Em cada acorde. Em cada futuro que sonhei e que ficou preso no passado. Sentimento de gratidão. Em cada parte de mim. Obrigado! Em cada átomo ainda não catalogado. E fica tudo ali, naquele cara meio distante. Calado! Que nem alegre, nem triste, nem poeta. Sobre toda estrada, sobre toda sala. Em cada uma das sete cantigas que cantei pra voar. Sobre os livros, sobre os papéis, sobre os projetos, sobre a tela, sobre as notícias. Pela janela do avião, pela vivência, pelo que me espera. Na bagagem, no bloco de notas, na mente, na chuva, no trabalho, na poltrona do cinema, na ópera. No meio da noite, no meio da festa, ao meio dia, no banco da praça, no meio da corrida. No abrigo de um lar. Na confiança de quem sabe o que tem para falar. Enquanto eu cantava e entendia o coração. Enquanto eu sorria e conversava. Enquanto eu estudava, falava, ouvia… escrevia estas palavras. Coloco muito de mim. Nas coisas que toco. Em cada mergulho. Barco embriagado. Saída de emergência. Perigo, inflamável! Quantas opções existem neste calendário? Quando novembro chegar. Siga aquele carro. As pegadas que eu deixei. Up and down. And in the end it’s only round and round. Eu quero o futuro que me espera. Eu reconheço o passado por tudo que ele me fez. Completo uma parte. Eu sou o presente que sei. Começa e termina. E volto a ser novo. Mais uma volta. Mais uma. Outra vez.

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