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Arquivo mensal: fevereiro 2014

Bateram à porta.
– Quem é? Quem bate a esta hora?
Respondeu o silêncio. E quando se voltou encontrou o próprio corpo, deitado sobre a cama.

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[Publicado na coluna ‘Olhar Sobre a Cidade’ da Revista Siará Nº110]

Eu não vejo minha cidade! Começar assim pode parecer estranho. Principalmente em um artigo que reflete nosso olhar sobre o que nos cerca. Talvez seja mais fácil entender isso se eu posicionar o leitor geograficamente: eu não “vejo” minha cidade natal, Caucaia, localizada a cerca de 10 minutos ou 10 km de Fortaleza. Sobre a distância, vou deixar que o leitor escolha entre tempo e espaço. Curioso: pensar sobre isso me faz perceber que passo mais tempo em um espaço que não é a “minha” cidade. Então, me pergunto: a quem pertenço e o que define isso? Caucaia se tornou um lugar para chegar e sair. Lugar sem muitas (con) vivências,  onde não pratico atividades corriqueiras como pagar contas ou ir ao supermercado. Uma vez trabalhando na capital, procuro realizá-las por aqui. É triste constatar isso e perceber que um dos grandes motivos que levam ao subdesenvolvimento das regiões metropolitanas seja esse “êxodo-diário”  e, com isso, a descapitalização dos municípios.  Mas isso os economistas podem explicar melhor do que eu. O que realmente constato é ainda, felizmente, existir um certo sentimento de pertencimento àquilo que está em nossas raízes. Paralelo a isso, há uma sensação de ausência e de desconhecimento sobre as mudanças que acontecem em nossa pequena Caucaia. Como se não bastasse o dia a dia agitado, a falta de agenda e opções para fins de semana e feriados nos leva a sair e nos distanciar (mais uma vez) da terra natal. Ficar em casa é uma opção. E talvez esse seja o momento para lançar esse olhar sobre o bairro e o silêncio que se estabelece nas ruas de um domingo. Um deserto completo! Acredito que seria bom reencontrar essa vivência. Como outrora, na infância. Ainda que seja sentar no banco da praça da matriz. Cortar o cabelo no mercado central e comprar o pão na mercearia. Quando possível, tento. E me dou conta de mais uma novidade: de que sou como um turista. Mesmo dentro de minha cidade natal! Sou como alguém que passa e que, muitas vezes, não reconhece as pessoas. E consequentemente não é reconhecido. Então, volto a perguntar-me: a que lugar pertenço? O que é esse sentimento sem encontrar contextos cotidianos sobre o que lhe cerca? O mais incrível é que eu não sei muito sobre o que se passa na minha rua. Outro dia me surpreendi ao perceber que os vizinhos eram outros. E já fazia algum tempo. Restam as lembranças sobre as ruas onde cresci. Reconhecer lugares que frequentei. Visitar aquela jangada ancorada em algum lugar nas praias da Tabuba, do Cumbuco. Perceber que, mesmo lentamente, a mudança acontece e nos alcança. Mudam as cores da escola, crescem as filhas do padeiro, inauguram uma farmácia nova enquanto o pipoqueiro cochila sentado à porta da igreja. São as varandas e calçadas que hoje aparecem pela janela do carro, fugazes, borradas… Então, vejo minha cidade e me situo no tempo e no espaço. E, em algum lugar, a gente sente que pertence àquilo que guardamos dentro do coração.