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Arquivo mensal: janeiro 2015

Do horizonte o farol resplandecia seu fosco azul escuro, borrado, ondulado. Tremulava como pedra negra. Forte como os fundamentos da terra.E uma pálida vela viva morta pelo vento. Levaria muito tempo para se entender os motivos do acaso e os planos do destino. Que linhas eles traçam? Que sorte eles lançam? É que muitos caminhos foram cruzados. E no instante seguinte tudo mudou. Acontecia que, lá do alto, Benjamim esbravejava, como flâmula em seu mastro de mezena. Pela luneta a certeza do que estava por vir. Naquele horizonte oeste a tormenta arrebentava a linha do mundo. Eis que caravela apontava no horizonte sem imaginar que sua velas seriam açoitadas e sua âncora partida. Estava ali! E, no entanto, descendo as escadas tropeçadas, o porteiro da luz ouviu o mundo rugir. E tudo balançou. E ele caiu. E sem a pólvora e sem fogo e sem a luz. Escarpas rochas salivavam à sua porta esperando o último suspiro de um naufrágio. E a loucura tomou conta das ondas que o primeiro raio partiu. E veio uma brisa fria, uma gota, uma ventania. E veio o fim do dia, da noite, da matiz. “Volte, volte, volte” gritou Benjamim. “O dragão não é moinho. Volte, volte, volte!” Vociferou. “Não tenho como acender uma luz para o teu caminho. O mar te chama de volta, mas tu não vai aportar.” Naquela altura o navio jazia preso a órbita de seu destino. Da janela baixa o porteiro saltou para península que avançava sobre as agulhas. E veio a torrente do céu. Lavando o mundo como se o oceano estivesse sendo despejado lá do alto. E com a morte em seu rosto, Benjamim gritou contra o mar…

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Eu era pronome
Era um nome
Eu será palavra
Erra conjugada
Eu seria futuro
Mais-que-perfeito
Se fosse no peito
O mesmo desejo
De ser conjugado
Conjuraria
Sem ser julgado
Julgaria
O meu pecado
Por imperfeito

Quando o barco estava em alto mar. Foi onde mergulhamos. Aquele recife da cor do céu. Acordamos. Viveríamos uma vida cheia de sabedoria. Ouvindo a chuva lavar as nossas almas abraçadas. Cansadas. Doce e leve espírito. Cheia de ternura. Você sempre foi essa criança. Que sorriso eu perdi? Que palavras eu não soube dizer? Sobre as minhas mãos o peso de escolhas desenhadas. Rabiscadas. Quase apagadas. Aquela brisa não pode voltar? Quando as estrelas eram capazes de beijar os meus olhos. Naqueles quadros sem foto que você colocou na parede. Uma vontade de pintar os momentos que sonhei. Que ternura pode ser mais linda que o teu coração? Que vestido pode ser mais branco que o teu? Feito de algodão. No seu sorriso eu guardei uma verdade. Que a vida é cheia de mistérios. Mas as tuas certezas sempre foram maiores. Dia leve de braços dados pelas horas do sol. Nas páginas de um livro que saboreamos. Desejava uma máquina capaz de atrasar as horas do mundo. Antes que fosse interrompido por fogos de artifício. No sussurro dos nossos destinos guardados. É que sonhamos. Mas acordamos humanos. Talvez fosse por um futuro-mais-que-perfeito. Eu queria um pouco daquela sabedoria. Mas só sei sentir e pensar. O que me resta? Vou pintar então as paredes do meu quarto… da cor do teu céu… da cor do meu mar…