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Arquivo mensal: abril 2015

Senhores dessa rubra quimera negra. Âncoras partidas e velas acesas. O naufrágio de Miranda em mares turbulentos. Eis que o guardião da luz tomou o caminho para o Farol de Pedra Azul. Olhando para o horizonte desesperado de terrores. Soube em seu coração que o dia era um sonho antigo. E naquele momento a grande onda o alcançou. Incontáveis lembranças de um cronógrafo e o sabor do perfume do mar. Este que navegava em seu coração. É que a chuva acendia aquela lareira de pedras frias. Saberiam agora que naquela casa reinavam estes reis. A tempestade era teu elemento. “Enquanto você mantinha o seu orgulho eu morria deitada ao seu lado. Acorda-me depressa! Seguirei nesta vida no balanço de um barco? Eu quero aquele sonho. Aquele acordado! De quando fechava os olhos. De quando o mundo era um abraço”. E veio aquela tormenta do céu. O fim de todas as coisas. Uma fortaleza despedaçada sem forças para respirar. E no peito o farol fora atingido. Seus fundamentos balançaram e um grito ecoou. Um milhão de faíscas e sedimentos, tijolos, janelas, lembranças e lamentos. A ruína do presente. Por três vezes uma lança azul caiu do céu. Certa como uma seta zen. Furiosa como os dentes da mandíbula. E veio um clarão de memórias. “Somos uma corda com três nós”. Desatinos de desafetos desatados. Era mistério de palavras escondidas. Sussurro do coração. Vontade inebriante. Pecado sem perdão. E mais uma vez o mundo balançou. E o horizonte vociferou um final. Miranda viu uma sombra dentro da luz. Num gesto rápido a última esperança de Benjamim. Eis que ele ergue a lanterna sobre a cabeça. E por um instante tudo parou. Pintados em um momento, iluminados pelo clarão repentino, seus olhares se cruzaram. E ela o viu uma última vez. Buscou ouvir o que dizia, mas tão pouco conseguiu. E quando finalmente seus olhos se tocaram uma grande explosão aconteceu. Era como o dia. Um corpo em chamas banhado pelo óleo. O fogo vivo que riscava o céu fez de todas as luzes uma faísca. E um caminho seguro se mostrou para Miranda. Seguiu pelas pedras escarpas até alcançar terra firme. E quando se viu a salvo de todos os perigos uma última lança caiu do céu. Olhou repentinamente para ver a imensa coluna de fogo ser pulverizada. Colossal testamento da força que acendera um céu sobre a terra num milhão de faíscas. Interrompido por fogos de artifício para iluminar o oceano que se acalmara. E Benjamim não estava mais ali. Eram estas as cinzas levadas pelo vento. Como o mundo pode ser esta terra de milagres? Outra vez vem o sol mostrar sua coroa, sua verdade. Proclamará que muito se fez e se fará por uma vida feita de passos livres. E se esta escolha for certa… valerá toda vontade que brota dos teus olhos sinceros. E naquelas pedras de uma madrugada ela esperou… e esperou… até um novo dia chegar…

“Nas horas seguintes o terror tomou conta de mim. No frio da madrugada encontrei o teu cronógrafo jogado no chão. Na contra face que se abre descobri que ainda guardava a minha foto. O que passava pela tua cabeça nas noites em que contemplava? Vejo o vermelho tingir o horizonte. Então descubro que o senhor da luz não era um sonho. Ele veio novamente amanhecer os nossos olhos. Aos poucos aquecendo as ondas, tocando a minha face, alimentando todas as matizes da primavera. É que agora não existe moinho. Só a lembrança do que um dia guardamos em segredo, no despertar daquelas horas… brindávamos naquela casa… naquela cozinha. E o vento assombrava as cortinhas de uma janela… nos nossos sonhos ainda estamos juntos… naquele domingo… oh, admirável mundo novo!” Ass: Miranda

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