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Arquivo mensal: junho 2015

Trate-me por homem-do-mar. Alma de sal. Olhos de brisa. Coração franco que respira no alto do traquete como o grande bufão. Esta que é a vida que nos leva pelo oceano. Soprai a bujarrona para o infinito que se perde para encontrar tua alma. Quer estar presa para se livrar. Olha no alto o albatroz. Não buscai sob os pés firmes da terra certezas de delícias, mas no balanço do barco embriagado. Verdades de quebra-mar para dobrar a respiração no descanso final. Este que nos aguarda igualmente como oráculo no ministério das almas. Inevitável. Como a baleia de Jonas. Do pó ao pó. Do sal ao sal. Escamas escarpas afogadas. Na fronte do teu mundo embriagado laçando os raios da tua tempestade. Oh, Senhor! Oh, Senhor! Sou eu quem clama ao lançar as redes nas minhas profundezas. O que pesco? O que laço? Que tesouros naufragaram e que segredos guardam as profundezas mais absurdas do meu silêncio? São apenas os sussurros que ecoam nos teus olhos e em cada sorriso que gentilmente dá ao mundo. No alto da escada, no teu castelo de proa. Colhe as estrelas no céu da tua boca. Olha para o grande azul que mergulha até a barra do mundo. E sente o perfume da vida? E sente o calor do dia que vai nascer? Faça jus a tua alma que vibra e ferve. Bravo, livre, brisa, breve. Mata essa vontade de viver! Longe de casa, onde o mar desemboca no fim de todas as coisas. Quem são estes que amarram suas loucuras ao amantilho e se jogam no mar? Pois não desejo descobrir que era raso. É um desejo mais profundo que o absurdo. Louco, surdo, mudo, turvo. Joguei-me para afogar. E na imensidão do que desce, sobes em louvor ao Senhor. Pois o que é digno de cantos na tua vida? Se apenas pela escotilha escolhe respirar. Sobe ao convés, homem! Se só pela luneta encontra o olhar. Abre os olhos! Abraça o mundo com o fulgor de mil braças. Na frente de tudo que balança o teu julgo. No gurupés para fechar os olhos e saldar a vida que bate no teu peito. Tu. Não és segunda pessoa do singular. Deves ser a primeira a buscar um futuro-mais-que-perfeito. Conjuga teu verbo. Um ponto final no teu pretérito. Como este que encerra esta frase. Como este que se abre. E se abate no costado a sotavento das tuas ondas. De alguém que tocou as tuas mãos. Eram as águas do teu mundo te enchendo. Mergulha para respirar. Desata para amarrar. As nervuras do teu cenho. Os teus olhos castanhos que recebem o reflexo do mar. Iça todas as velas e sobe o grande mezena. Amanheça os caminhos para o frescor do sal que queima as tuas narinas. Não era o bote da serpente. Era este o bote salva-vidas. És contramestre e capitão deste barco. Ó, alma do mar. Ó, horizonte vermelho. Enrubesce o meu sangue branco. Esquenta o meu frio coração. Pois agora olho que não sou mais o que agora só serei por um segundo. E que este se fez antes por pouco tempo para ser depois. O que eu tenho? Nem o agora! Só a vontade de passar por ele. E a sabedoria que ficou presa à minha rede. Não estás pronto! Não estás pronto! Em eterna e finita tecelagem tu desabrota pelas mãos das parcas. Desenrola, desenrola. Da bitácula que arde e fumaça. E vive para morrer de viver. Sobre as rochas que lutam contra o mar. Lá, ao longe. Fica de pé sobre o mundo que não para de girar. De pé, bravo coração. Branda tuas alegrias sem medo das tristezas. Faz dela tua vela. Tua âncora. Mapas do acaso que não se sabe desenhar. Sente a dádiva do amanhecer. Respira tua vida. Nas tuas mãos um leme. Este que é só teu. Esta que é só tua, alma branca. Olha lá! Quem vem? Quem vem? Que histórias tecem suas barbas? Quem são eles? Eles? Eles são homens dos sete mares… homens de almas de sal…

“E só eu escapei para te contar.”

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