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Arquivo mensal: dezembro 2015

Naquela manhã de natal o Sr. Coelho decidiu acordar primeiro. Sem que Sophia fosse capaz de perceber, deixara sua cama e o seu carinhoso abraço, colocando em seu lugar uma pequena almofada. Driblou a porta do quarto da mãe e as cadeiras da sala. “Ufa, o gato não está aqui”, pensou. Foi na ponta dos pés, digo, das patas de pelúcia, até a cozinha. Restava muito pouco agora para o tão esperado momento. É que o Sr. Coelho só desperta nas manhãs de natal e, naqueles curtos minutos, tentava de tudo para saciar o seu desejo por comida. Leite, mais precisamente! Sim, aquela barriguinha fofa era muito bem recheada. Abriu então a geladeira depois de um grande esforço. Ele já havia visto e entendido como aquela caixa enorme e branca funcionava. O Sr. Coelho sabia dos tesouros ali guardados. No entanto, quando finalmente abriu a porta, foi tomado por um frio repentino. Aquilo o assustou um pouco, uma vez que estava acostumando a temperaturas mais confortáveis. Disposto a continuar com sua investida, escalou com dificuldade as prateleiras e, quando finalmente alcançou o que tanto desejava, escorregou e caiu. Mas não antes de acertar o leite com a cauda de pelúcia, derrubando-o no chão e despejando o precioso líquido pela cozinha. Tomado pelo susto e por toda confusão, correu de volta para a cama, para os braços de sua dona. Triste, de fato, por não conseguir tomar o precioso leite. A mãe, ouvindo todo aquele barulho, pulou da cama e foi até a cozinha. Nesse instante, o coelho ficou imóvel. Percebeu então, naquele último minuto mágico dado pela graça do natal, que fora visto o tempo todo: Arthos, de dentro do seu berço do outro lado do quarto, o olhava em silêncio. E na cumplicidade de seus corações trocaram sorrisos, um sinal de que aquele segredo estaria para sempre guardado entre eles. Restava agora ao Sr. Coelho esperar pelo próximo natal. Quem sabe, com um pouco mais de sorte e astúcia, possa então alcançar o que o seu coração, digo, sua barriga deseja. Então fechou os olhos e nos braços de Sophia adormeceu mais uma vez.

Para Sophia e Arthos

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Ferva a água enquanto sussurra. Respire o vapor da máquina de chá. Colha pensamentos do seu dia. Pondere e esqueça até sibilar. Apague o fogo da pedra. Cuidado com a coruja que quer despertar. Sirva com mãos limpas. Escolha a xícara de ágata do mar. Espere os olhos fecharem. Não descubra nunca. Entenda a hora de servir. Vá até a estante e escolha um livro. Na hora da efusão tu até podes rir. Sentado sobre os ponteiros do relógio. Algumas voltas para terminar. Sirva em silêncio. É este o momento. Para a primeira pessoa do singular.

Eu o ouvia subir as escadas. Em seu passo, cada passo. Paciente Monsieur. Ele buscou as chaves e abriu a porta com dificuldade. A casa vazia lhe dizia o que muito pouco mudou. Retirou o casaco e colocou o livro sobre a mesa. Puxou uma cadeira e procurou aquela flor que lhe marcava as páginas, que lhe marcava o coração. Badalavam as horas do mundo quando um perfume antigo invadiu seus pensamentos. E o vento murmurou. E percebeu que uma janela fora esquecida aberta. Fez-se ouvir a chuva antes de procurar a cama. Tomou o porta-retratos e o beijou. Em seu pequeno sorriso reinava uma ternura sem fim. Apagou o abajur e fechou os olhos. E com uma nova certeza procurou dormir.