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Arquivo mensal: janeiro 2016

aquele homem com terno. terno sujo. aquela mulher com olhos. viva e respiração. quando sobre o meu corpo que passava a língua. era o único idioma. e a ciência me explicava merdas. apresenta ao final da palestra que ossos reverberam com o som. então ferver os nossos corpos em óleo pode queimar a alma. e a gente pode até derreter. eu vou passar na porta do inferno e sorrir quando te ver. desfaça o que fez o que acha. essa certeza é uma grande mentira que você engole antes de dormir. eu pensei estar caindo. pisei um degrau e o meu pé saltou. não era metade. era pior. era verdade. (apague essa frase). naquela estrada todas as noites naquela cidade. naquela cidade todas as noites naquela estrada. alguém me apontou uma arma. eu não sabia que anjos tinham porte. quando houve o acidente. quando entrei debaixo daquele carro. quando dormia lembrava. quando acordava esquecia. foi a música que atravessou o nosso sono. esquecemos aquela vitrola ligada na sala. e o dia nasceu sobre as tuas costas. já se passaram alguns anos. ou foram algumas horas? vi um pássaro pousar sobre teu ombro. então veio despida. aquela mulher com olhos. viva e respiração. reverbere. dissolva. apague. transpire. delire. eu estava atrás do espelho. atado. existe no globo ocular um incrível sistema capaz de regular o foco. leia o manual. verifique se não está desligado. passar a minha boca na tua para ter certeza do que sinto. tentar alcançar o sistema cardíaco. quando a fumaça revelou o que não existia. foi a música que nos trouxe até aqui. nesta cidade que não quer amanhecer. uma mulher que sabe ser de verdade. eu não sou esse que aquele disse sobre o que deve ser. como a rubra quimera negra (leia). é como as mãos sujas e a barba por fazer. é como a madrugada que ouve as minhas palavras. é como a tinta e o café. é como o perfume. o teu perfume. ainda no corpo quando chega o dia. é como a gente acorda. e pela manhã vestes este terno. aquele homem com terno. terno sujo. aquela mulher com olhos. viva e respiração. quando sobre o meu corpo que passava a língua. era o único idioma. e a ciência que me explicava merdas. apresenta ao final da palestra que ossos reverberam com o som. foi quando nos balançaram com a verdade. e a gente vai derreter. então ferver os corpos em óleo pode queimar a alma. eu vou passar na porta do inferno e sorrir quando te ver.

essas palavras não dizem. que se disser eu não sei o que dizer. eu não escrevi. eu só ouvi uma coisa que não sei se sonhei ou se vivi. eu não sou este. não fui. sou aquele, aquilo. não sou o que visto. ando sempre nu. nado despido.

e a gente veste um terno por cima de tudo. esse sim… é imundo…

And after all we’re only ordinary men.

 

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Para engraxar sapatos você precisa de algum tempo. Tempo para envelhecer. Tempo para amaciar. Tempo. Para engraxar sapatos. É que sapatos novos não precisam dos mesmos cuidados. Tão pouco dizem algo sobre seus passos. Sobre cada história que passou bem debaixo dos teus pés.

Aconteceu então que, ao caminhar por aquela cidade encontrei um senhor de meia idade. Ao notar a banqueta e todo repertório do ofício, percebi uma boa oportunidade para cuidar das botas gastas. Ele tinha barba. Não muito grande; era branca. Tinha mãos fortes e unhas sujas, usava roupas velhas e exalava um cheiro de graxa. Quando tentei negociar o preço por seus serviços não me respondeu de pronto. Buscou algo no bolso do sobretudo e estendeu a mão exibindo algumas moedas. Ficou claro a ausência de um idioma capaz de nos conectar. E, na ausência das palavras, iniciamos um jogo de gestos que acompanhávamos com os olhos. Pediu com educação que sentasse na banqueta. Apontou para o meu pé esquerdo. Seria o primeiro. Abriu uma antiga caixa de madeira e, pouco a pouco, retirou o seu conteúdo. Frascos, escovas e suspiros. Apontava para as pequenas latas com cores diferentes. Percebi naquele momento que aquelas poderiam ser suas melhores amigas. Estendeu uma escova e, num gesto, pediu que eu passasse a palma da mão sobre ela. E sobre outra. Tentava mostrar a diferença, compartilhava o seu mundo no tempo que era seu. Senti com alguma certeza de que aquilo seria especial, para ambos. Talvez mais para mim, para quem ele tentava ensinar algo. Para engraxar sapatos nos tornamos cúmplices de histórias. Das nossas; do outro. Sobre pés, calçados e escolhas. E logo ficou claro que estávamos a conversar. Conversávamos. Que contávamos histórias. Entre um gesto e outro, no tempo necessário para untar as botas e revelar o seu antigo brilho. E os olhos se abriram. Para surpresa de quem agora eram como amigos. Compartilhamos algo. Acho que foram os nossos caminhos, as nossas incertezas sobre o que já vivemos até aquele último dia do ano. Que escolhas fizemos para os nossos pés? Que escolha faríamos? Depois de lhe pagar pelos serviços nos cumprimentamos num demorado aperto de mãos. Agradecido, segui caminho pela rua enquanto o ouvia guardar seus pertences. Eu sempre tento lembrar o seu nome. Mas, por algum motivo, não consigo, mesmo tendo ele repetido ca-da-sí-la-ba. No dia de minha partida o procurei naquela mesma rua, mas não o encontrei. Lembrei do aperto de mãos e do cheiro que ficou em minhas roupas. Lembrei que, para engraxar sapatos, você precisa de algum tempo. Tempo para envelhecer. Tempo para amaciar. Tempo. Para engraxar sapatos.

Para o senhor que morava na rua, ao lado das escadas da estação Le Gobelins, em Paris. Obrigado por cuidar dos meus sapatos. Vou cuidar de passos certos.