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Arquivo mensal: janeiro 2017

Era quase azul
Pelo oceano até a praia
Era quase um blues
Aquilo que a gente cantava
No mar até naufragar
Aquele farol de pedra
Nos confins de um horizonte
Ninguém sabia o que era
A luz azul do fim
O frio fim do azul
A cruz do sul ali
O sim de dois era um
Quem sopra a brisa?
Branca pluma leve vida
Aquele céu era quase azul
Aquele que nos faz feliz

(…)
Onde as estrelas são estranhas
Um verde da atmosfera anil
Narra aqui o fantasma de um navegante
De onde? A gente não sabe se existiu!

“Cada mastro uma flecha partiu. Veio do céu um furor azul. Ziguezagueando até nos alcançar. Bateu contra o mastro principal. Pulverizado pela fúria de uma tempestade. Éramos caçados por alguma augura celestial. Aquele Senhor nos condenava ao derradeiro naufrágio. Estaríamos juntos até batermos contra o fundo do pacífico. Brandei pelas almas que eram minhas. E contra o céu eu lancei o meu grito. Outra lança do céu, e toda sorte perdida. A bujarrona inflamava como o sol. E o Senhor não revelou os seus mistérios. Aos poucos uma pálida esperança fulgurava. Um farol… um farol de pedra azul…”

Era quase azul
Pelo oceano até a praia
Era quase ao sul
Aquilo que de longe brilhava
No mar até naufragar
Aquele farol de pedra
Nos confins de um horizonte
Ninguém sabia o que era
A luz azul do fim
O frio fim do azul
A cruz do sul ali
O fim de dois era um
Era quase azul
Era quase azul

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Todos os dias ele atarraxa sua cabeça. Fica ali, presa ao pescoço num balanço cotidiano. Foi então que, certa vez, ele esqueceu de apertar e, por esquecido, saiu com ela frouxa sobre os ombros. Era fim de mês. Era o fim de uma fila lotérica num meio dia qualquer. Num solavanco da pestana deixou a cabeça cair. Atordoado, sem muito enxergar, se prontificou a recolher o precioso artefato. Ao tatear o cimento percebeu de que esta, muito provavelmente, já estava a rolar pela rua. De posse das contas, correu entre os carros que buzinavam. Esbarroado, abarrotado, desesperado… por não encontrar sua cabeça. Essa que girou por toda a ladeira e se perdeu em algum lugar. Voltou para casa quase cabisbaixo. Quase! Por algum milagre encontrou o caminho de volta, talvez pela força do hábito. E percebeu que muito do que fazia estava laçado ao maldito. Deitou para dormir e logo apagou. Triste, de fato, mas sem a ladainha dos pensamentos. No dia seguinte, chegou ao trabalho pontualmente. Poucas pessoas notaram que ele estava… bem vestido. A cabeça? Apenas o porteiro da firma. Foi então que ele percebeu, numa conversa junto à máquina de café, que seus amigos já não tinham ou não traziam a cabeça para o trabalho. “Eu deixo a minha em casa, é mais seguro!” Alertou um colega. Foi à delegacia registrar o corrido, mas foi advertido de que a fila era grande e de que outras tantas pessoas esperavam pela cabeça perdida. Muitas não registravam o desaparecimento e nunca mais voltavam para reaver o precioso artefato. Havia, inclusive, uma sala cheia delas. Sem muitas esperanças, aguardou confiante até esquecer de algo que já não poderia lembrar. Viveu pela trilha de uma rotina confortável. Ele simplesmente não percebia mais o que era óbvio. Suas atitudes não eram um completo assombro para outros que davam de ombros. Certa vez, numa crise amorosa, pediu conselhos ao amigo mais chegado. Mas que conselhos poderia esperar de alguém tal qual decapitado? Eis sua resposta: “todos os dias eu atarraxava meu coração. Ficava ali, preso ao peito num pulsar cotidiano. Foi então que certa vez esqueci, e por esquecido sai com ele frouxo pela rua…”

Na fila que espera fala do seu olho. Empurra mais um pouco dentro do umbigo aquele globo. Que diz ser ocular. Em um grupo criado para falar de quem com quem trabalha. Quando o sinal abre martela ao volante. E o mundo vira suas luzes no último dia do ano. Aos passos rápidos de quem coloca o seu todo como tudo. Quando chega ao fundo percebe o que cabe. Empurra mais um pouco aquele globo. E deixa girar. Saliva cada palavra que mastiga. E tem razão por ser o que diz. Na rua desmente cada verdade. Em casa assume cada mentira. O que espera ouvir quando se cala? O que sonha e o que pensa dentro do aquário? Pelas mãos escorre o óleo do motor que arma. Na sola de cada pé que não gasta. O lodo verde queima sobre as costas. E a vida é terrivelmente assombrosa. Começa e termina no mesmo ponto em que volta. Vai-vol-tar. Aos passos rápidos de quem levanta do seu túmulo. Empurra mais um pouco dentro do umbigo aquele globo. Que diz ser ocular. E deixa girar.