Atarraxe

Todos os dias ele atarraxa sua cabeça. Fica ali, presa ao pescoço num balanço cotidiano. Foi então que, certa vez, ele esqueceu de apertar e, por esquecido, saiu com ela frouxa sobre os ombros. Era fim de mês. Era o fim de uma fila lotérica num meio dia qualquer. Num solavanco da pestana deixou a cabeça cair. Atordoado, sem muito enxergar, se prontificou a recolher o precioso artefato. Ao tatear o cimento percebeu de que esta, muito provavelmente, já estava a rolar pela rua. De posse das contas, correu entre os carros que buzinavam. Esbarroado, abarrotado, desesperado… por não encontrar sua cabeça. Essa que girou por toda a ladeira e se perdeu em algum lugar. Voltou para casa quase cabisbaixo. Quase! Por algum milagre encontrou o caminho de volta, talvez pela força do hábito. E percebeu que muito do que fazia estava laçado ao maldito. Deitou para dormir e logo apagou. Triste, de fato, mas sem a ladainha dos pensamentos. No dia seguinte, chegou ao trabalho pontualmente. Poucas pessoas notaram que ele estava… bem vestido. A cabeça? Apenas o porteiro da firma. Foi então que ele percebeu, numa conversa junto à máquina de café, que seus amigos já não tinham ou não traziam a cabeça para o trabalho. “Eu deixo a minha em casa, é mais seguro!” Alertou um colega. Foi à delegacia registrar o corrido, mas foi advertido de que a fila era grande e de que outras tantas pessoas esperavam pela cabeça perdida. Muitas não registravam o desaparecimento e nunca mais voltavam para reaver o precioso artefato. Havia, inclusive, uma sala cheia delas. Sem muitas esperanças, aguardou confiante até esquecer de algo que já não poderia lembrar. Viveu pela trilha de uma rotina confortável. Ele simplesmente não percebia mais o que era óbvio. Suas atitudes não eram um completo assombro para outros que davam de ombros. Certa vez, numa crise amorosa, pediu conselhos ao amigo mais chegado. Mas que conselhos poderia esperar de alguém tal qual decapitado? Eis sua resposta: “todos os dias eu atarraxava meu coração. Ficava ali, preso ao peito num pulsar cotidiano. Foi então que certa vez esqueci, e por esquecido sai com ele frouxo pela rua…”

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