Um Espelho Para O Sol

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Numa cidade deserta flutuava o sol. Pelo rádio a perseguição de uma melodia narrada. Um homem negro marcava o alvo nas próprias mãos. No peito esquerdo uma cruz enferrujada balançava. A polícia montava planos e mapas para o cerco. Sob a mesa de vidro um copo de conhaque. E ele esperava que toda pedra fosse um degrau para uma jangada incrustada em alguma paisagem. Aquele homem do mar me deu os mais preciosos conselhos. Na tua barba fios brancos de uma juventude. Um conversível 98 e ferrugem. Naquela estrada onde as palmeiras te saldavam e balançavam. Havia pouco para descobrir onde estava. Pelo rádio uma denúncia. Os óculos escuros esquecidos sobre o banco de couro rasgado. Era quase levado pelo vento. E o sol nos abraçava e fervia. Do lado de lá o mar. De cá o ar que circulava. Até que o dia fosse noite por uma estrada sem curvas. Restava a paz de uma delícia incerta sobre qualquer coisa. E nós poderíamos rir livres das mentiras descobertas e queimadas. Poderíamos descansar. Seguir certos das denúncias. O pavio de um tanque cheio para enlouquecer por 300 quilômetros. Aceleramos os batimentos sob a chuva que lavava… e a estrada, a estrada… 110…120…160… O próprio alvo alcançado pelo rádio. E o refrão nos fez gritar com desespero e euforia. Como lobos com lágrimas. Aquelas de alguma ventania. Foi quando em uma cama de frente para o mar. Onde o sol iluminou tua alma nua. Alguém de pé te esperava. Remington 1875. Sob o mar afogado fervia um coração. As mãos sobre os laços. Uma faca sobre a mesa. Mordia. Quando veio a noite um novo mar. O frio de um deserto azul infinito que brilhava. Fomos interrompidos por fogos de artifício. Dentro da boca um céu de estrelas. Em algum hotel abandonado o frio que vem amanhecer. Sem saber voltar. O corpo sentia com calma. A cabeça no lugar de um coração. Os olhos verdes no retrovisor. Pele vermelha e brisa. As notícias do rádio que não sintonizava. Mudava. Desligava. E aquela música que gritava. As botas sujas e a calça rasgada. Os cabelos assanhados e a barba. Aquele deserto. E tudo era alguma loucura. As palmeiras que saldavam e balançavam. Havia pouco para descobrir onde se escondia. Os óculos escuros e o rosto marcado. Era só o sol que nos abraçava e fervia. Do lado de cá o mar. O ar que circulava. Um refrão pulsava dentro coração. Sentia o que se pensava, o que se precisava, o que se vivia. A vida é uma estrada sem curvas até o mar. Aquele que nos chama de volta. Mergulhamos sob os satélites. Nos abraçamos sob as ondas. O corpo escapava da própria pele. Derretia. E quando alcançamos o cerco aceleramos. Os avisos luminosos e as armas apontadas. Despistamos quando nosso carro saiu da estrada. O cerco abandonado de um farol. Quando dentro do mar um espelho… um espelho… um espelho para o sol.

Numa cidade deserta flutuava uma estrela que dourava. Pelo rádio a perseguição de uma melodia. Um homem negro marcava o alvo nas próprias mãos. No seu peito esquerdo uma cruz enferrujada… balançava.

And in your waiting hands
I will land
And roll out of my skin
And in your finals hours I will stand
Ready to begin

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