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Arquivo mensal: janeiro 2018

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(…)
O hotel ficava afastado da cidade. Um caminho de pedras até lá. Todas as luzes falhavam a cada trovão. Era tão tarde e a cidade parecia morta. Na fechadura que não abria nos molhamos. Nunca encontramos a chave daquela porta.

(…)
Na noite em que chegamos éramos dois estranhos. Mas eu te vi despir a pele. Uma voz serena preenchia cada noite. Ela quase arranhava o silêncio. Na minha boca gravava a pele feito metal. Na varanda do quarto de hotel. Contrabandos de uma seita oriental.

(…)
Eu adoro isso
Esse ar da chuva
Perfuma algo
Dentro da gente

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Pouco antes de partir, lhe foi dada a mais alta honraria. Atravessou muitos mares antes de ficar preso no norte. Completaria 800 noites longe do seu ministério. Poucos sabiam o que o seu coração desprezava naquele sono febril. Entretanto, continuavam a seguir pelo frio do mundo com sua escória. Foi a sua última ordem pouco antes de cair. Homens antigos de muitas marcas. E a cada novo horizonte um imenso sacrifício era feito. E sobre os mastros da nau suas memórias abriam os olhos do contramestre para os próximos dias.

– Fique atento. Foi aqui, neste deserto de silêncio, que alguma coisa rompeu o casco deles de proa à popa. E todos caíram mortos no convés. Um por um!

A sol reinava pálido como uma pérola antiga, borrado sob as nuvens do polo. E chegava a hora. O vento já havia morrido há algumas semanas. E era impossível perceber onde estavam dentro daquele nevoeiro. Quando conseguiam ver as estrelas, elas eram estranhas. Então, sob o mastro principal, aqueles homens se reuniram com suas facas nomeadas e gloriosas, filhas do tempo, de guerras antigas.

– Capitão, eu tenho pecado. E desde ponto em diante, para não falhar em vida, sacrifico a efígie dos meus sonhos para colher tesouros maiores.

Dito isso, arrancou num gesto rápido seus dois olhos. E então cada um dos presentes repetiu aquelas palavras e removeram os olhos com suas facas também. Não houve lamento. Tingiram o convés branco com sangue. O contramestre tratou de levar os olhos para o castelo de proa, onde repousava o corpo do Capitão. Mas estando lá, ouviram uma risada e puderam ver pela primeira vez o que se escondia por detrás da cortina cinza de neblina. Espantados e glorificados, eles caíram em um desespero coletivo. Alguns riam e apontavam. Outros rangiam os dentes assombrados.

– Lá vem uma embarcação no horizonte!
– Mas como ela pode navegar sem vento e sem correntes?
– Veja, ela vem em frente. Ela está se aproximando, vindo do sol
– Veja, ela não tem tripulação!
– Ela não tem vida… Espere, há mais duas!

E neste momento caíram pálidos e mortos sobre o convés. Um por um. As velas acenderam em chamas e a grande bujarrona brilhou como o sol. E houve fogo e silêncio. E ali pereceram todos os homens daquele navio. Não todos. Pois o capitão acabara de despertar de um pesadelo. E pelas janelas veria as praias mornas que aqueciam o seu coração. Inimagináveis tesouros o esperavam. E em sua mais profunda lembrança uma vida de sacrifícios. Àquelas praias de portos inalcançáveis que tantas vidas roubou. Então ergueu-se da cama e ouviu um som distante… Bateram à porta.

– Quem é? Quem deseja me visitar? Respondeu o silêncio. E quando se voltou encontrou o próprio corpo, deitado sobre a cama.