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Conto

giphy (1)

dentro do sol de cada
um
um espelho de todos
nós
esquece que essa chama
apaga
lembra que essa vida
queima
lembra lembra lembra
de esquecer
de tentar lembrar
daquilo
que ninguém disse
o que

certa vez confessei sonhar algo há muitos anos
era sempre o mesmo sonho
o meu desejo é saber o que significa
quando acordava não lembrava
quando dormia entendia

dentro do sol de cada
um
um espelho de todos
nós
esquece que essa chama
apaga
lembra que essa vida
queima
lembra lembra lembra
de esquecer
de tentar lembrar
daquilo
que ninguém disse
o que

Quando cheguei não havia fogo
E todas as cores eram diferentes
Não havia chama ou luz
Mas um mar de águas mornas
Não havia brilho intenso
De perto era como um espelho
E ele ondulava a capa passo
E ele se estendia até o horizonte
Até cair no vazio de algum lugar
Quando olhei não havia fogo
Então eu vi… eu a vi…

Em um trono sentada ao longe
E em sua cabeça havia uma coroa azul
Era a própria Terra
Mas espere… ela está abrindo os olhos…
Acho que vem até mim…

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Pouco antes de partir, lhe foi dada a mais alta honraria. Atravessou muitos mares antes de ficar preso no norte. Completaria 800 noites longe do seu ministério. Poucos sabiam o que o seu coração desprezava naquele sono febril. Entretanto, continuavam a seguir pelo frio do mundo com sua escória. Foi a sua última ordem pouco antes de cair. Homens antigos de muitas marcas. E a cada novo horizonte um imenso sacrifício era feito. E sobre os mastros da nau suas memórias abriam os olhos do contramestre para os próximos dias.

– Fique atento. Foi aqui, neste deserto de silêncio, que alguma coisa rompeu o casco deles de proa à popa. E todos caíram mortos no convés. Um por um!

A sol reinava pálido como uma pérola antiga, borrado sob as nuvens do polo. E chegava a hora. O vento já havia morrido há algumas semanas. E era impossível perceber onde estavam dentro daquele nevoeiro. Quando conseguiam ver as estrelas, elas eram estranhas. Então, sob o mastro principal, aqueles homens se reuniram com suas facas nomeadas e gloriosas, filhas do tempo, de guerras antigas.

– Capitão, eu tenho pecado. E desde ponto em diante, para não falhar em vida, sacrifico a efígie dos meus sonhos para colher tesouros maiores.

Dito isso, arrancou num gesto rápido seus dois olhos. E então cada um dos presentes repetiu aquelas palavras e removeram os olhos com suas facas também. Não houve lamento. Tingiram o convés branco com sangue. O contramestre tratou de levar os olhos para o castelo de proa, onde repousava o corpo do Capitão. Mas estando lá, ouviram uma risada e puderam ver pela primeira vez o que se escondia por detrás da cortina cinza de neblina. Espantados e glorificados, eles caíram em um desespero coletivo. Alguns riam e apontavam. Outros rangiam os dentes assombrados.

– Lá vem uma embarcação no horizonte!
– Mas como ela pode navegar sem vento e sem correntes?
– Veja, ela vem em frente. Ela está se aproximando, vindo do sol
– Veja, ela não tem tripulação!
– Ela não tem vida… Espere, há mais duas!

E neste momento caíram pálidos e mortos sobre o convés. Um por um. As velas acenderam em chamas e a grande bujarrona brilhou como o sol. E houve fogo e silêncio. E ali pereceram todos os homens daquele navio. Não todos. Pois o capitão acabara de despertar de um pesadelo. E pelas janelas veria as praias mornas que aqueciam o seu coração. Inimagináveis tesouros o esperavam. E em sua mais profunda lembrança uma vida de sacrifícios. Àquelas praias de portos inalcançáveis que tantas vidas roubou. Então ergueu-se da cama e ouviu um som distante… Bateram à porta.

– Quem é? Quem deseja me visitar? Respondeu o silêncio. E quando se voltou encontrou o próprio corpo, deitado sobre a cama.

giphy (2)

essa boca
que fala
prova e cala
essa tua
palavra
escrita
calada
pensada
engolida
debaixo do céu
da boca
da língua
a minha
a tua
a outra
a saliva
o que diz pra ti
engole e mata
no fim do sim
tudo que era
não sei que fim
o que tu espera
e o plural
e o pronome
e o pretérito
que eu falava
para um sonho
em um futuro
dentro da tua boca
por mais um segundo

quando fecho os olhos
quando acordo me deito
quando acredito
em algum futuro
mais-que-perfeito

essa boca
que fala
prova e cala

eu sonhei colocar a minha mão na tua boca
e tu me engolia. salivava, lambia os dedos
fumava e dormia…

 

– Ainda nos resta um tempo, certo?
– Sim, um pouco mais.
– Que tal uma história?
– Uma história? – Disse levantando seu corpo e abraçando os joelhos.
(…) 

cetaceo

Ouvi uma voz dentro da brisa: tuas mãos são fortes, teus passos serenos. Quem fez este coração? Quem o lapidou? Fez este para cruzar oceanos. Mergulhado em mares profundos de calmaria. Está na tua voz. Ouça. Está no teu corpo. Sinta. Quando nasceu e morreu para voltar. É tão grato o teu sorriso. Teu corpo vibra e ilumina. É quando acende as chamas sobre o que sentes. Sinta o que os teus dedos tocam, o que o coração diz já saber. A gratidão perfuma tudo ao qual se dedica. Tudo por ti feito, tudo que por ti é dito em silêncio e respeito. Quem vê a ti perceba, perceberá o teu amor. Como sonhou os teus sonhos? Como os fez realizar? Como cruzou o oceano? O que te faz desistir ou acreditar? Quem te abraçar perceba, perceberá o teu calor. Não se pode fingir um pensamento. Os sentimentos que ardem em ti. Sonha como a cachalote onde pode sonhar. Quando é raso tu sentes, quando é profundo consegues mergulhar. Naquele domingo. Na estrada que te espera até o sol desmaiar. Para que tudo fique bem, pleno e completo. A cada dia e noite em que a vida segue para ser nova. Agora escolhe viver pela compreensão do lugar certo, das ações certas, dos sentimentos certos. Disse uma voz dentro da brisa. Você está sorrindo a sua paz. Tuas mãos são serenas, teus passos são fortes. Já fostes longe nesses mares. Não há nada que seja pelo acaso. Reina dentro da tua respiração, invade cada célula. É a lei natural que não se pode impedir. Então faz da tua luz uma escolha sempre certa. E sorri. Respire quando chegar à superfície. E deixe a brisa te inundar, num mergulho para ver e sentir a verdade que vem com o sol… num mergulho para respirar.

“São apenas os sussurros que ecoam nos teus olhos e em cada sorriso que gentilmente dá ao mundo. No alto da escada, no teu castelo de proa. Colhe as estrelas no céu da tua boca. Olha para o grande azul que mergulha até a barra do mundo. E sente o perfume da vida? E sente o calor do dia que vai nascer? Faça jus a tua alma franca e clara que vibra e ferve. Bravo, livre, brisa, breve. Veio ver o sol para nascer também. Mata essa vontade de viver! Aqui! Onde o mar desemboca, no fim de todas as coisas.” (…)

“Parce qu’était lui, parce qu’était moi”
Montaigne.

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(…) Foi quando cheguei ao topo daquela torre de aço. Foi quando vi a luz do mundo sobre mim. Naquele dia de sol e frio, contemplavam os olhos de minha paz. E o sabor daquela brisa que me enchia os pulmões. E ali em me encontrei em perfeito estado de quem eu sou. O sol repousava sobre a minha alma estampada. No rosto que saudava uma vida até ali. E veio o vento assombrar a todos que riam e se entreolhavam. No meu lugar era a espuma de uma praia. Reinava escondida debaixo de cada pálpebra. E veio a noite estrelada. E o ar que nos roubava. Interrompidos, lembramos de um futuro que nós sonhamos. As miragens de Ishmael. E o sabor do mar em suas narinas. No alto daquela cidade era eu quem respirava. Como o sol iluminava. Iluminava. Aquele futuro-mais-que-perfeito. Aquele que alguém conjugava no pretérito. Aquele que nós escrevemos em cartas.

(…) Cada mastro uma flecha partiu. Veio do céu um furor azul. Ziguezagueando até nos alcançar. Bateu contra o mastro principal. Pulverizado pela fúria de uma tempestade. Éramos caçados por alguma augura celestial. Aquele Senhor nos condenava ao derradeiro naufrágio. Estaríamos juntos até batermos contra o fundo do pacífico. Brandei pelas almas que eram minhas. E contra o céu eu lancei o meu grito. Outra lança veio do alto e toda sorte estava perdida. A bujarrona inflamava como o sol. E o Senhor não revelou os seus mistérios. Aos poucos uma pálida esperança fulgurava. Um farol… um farol de pedra azul…

(…) Foi quando chegamos às portas daquele horizonte. Sentimos o perfume da terra molhada, enraizada até o céu que desmaiava. Pela estrada vendemos nossas armas ao caçador de Belmonte. Um olhar distante tocava as montanhas borradas. Éramos os primeiros a repousar sobre aquelas terras ermas. Homens de cores simples. De mãos fortes. Bravos corações gentis. Filhos de marinheiros, camponeses e reis. Estes que ouviram os primeiros dias. Foi quando chegamos. Aqui. Onde as estrelas são estranhas.

 

Era quase azul
Pelo oceano até a praia
Era quase um blues
Aquilo que a gente cantava
No mar até naufragar
Aquele farol de pedra
Nos confins de um horizonte
Ninguém sabia o que era
A luz azul do fim
O frio fim do azul
A cruz do sul ali
O sim de dois era um
Quem sopra a brisa?
Branca pluma leve vida
Aquele céu era quase azul
Aquele que nos faz feliz

(…)
Onde as estrelas são estranhas
Um verde da atmosfera anil
Narra aqui o fantasma de um navegante
De onde? A gente não sabe se existiu!

“Cada mastro uma flecha partiu. Veio do céu um furor azul. Ziguezagueando até nos alcançar. Bateu contra o mastro principal. Pulverizado pela fúria de uma tempestade. Éramos caçados por alguma augura celestial. Aquele Senhor nos condenava ao derradeiro naufrágio. Estaríamos juntos até batermos contra o fundo do pacífico. Brandei pelas almas que eram minhas. E contra o céu eu lancei o meu grito. Outra lança do céu, e toda sorte perdida. A bujarrona inflamava como o sol. E o Senhor não revelou os seus mistérios. Aos poucos uma pálida esperança fulgurava. Um farol… um farol de pedra azul…”

Era quase azul
Pelo oceano até a praia
Era quase ao sul
Aquilo que de longe brilhava
No mar até naufragar
Aquele farol de pedra
Nos confins de um horizonte
Ninguém sabia o que era
A luz azul do fim
O frio fim do azul
A cruz do sul ali
O fim de dois era um
Era quase azul
Era quase azul

Azul no céu escuro das cidades feitas à mão. Deitados chegamos e partimos para flutuar. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Cada palavra dita mata. Que tu some e se desfaz em todas as tuas pegadas. No céu escuro um azul que dissolve o vermelho. Aqui nós estamos. Toda luz te acorda? Aquela que mergulha. Na lua que descia. A mesma que o sol amanhece. Quando dormia lembrava. Quando acordava esquecia. Mãos de extinguir espécies. Mãos de acelerar partículas. Nas cidades que são feitas. Aquele que somos nós. Que nós damos? Em nós que somos. Em cada um dos nossos que nós sonhamos. Adormecemos cada despertador. Aguardamos o seu toque. Acordamos com o seu furor. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Aqui. Nas cidades feitas à mão.

Toda luz te acorda?
Meus olhos precisam do escuro
Toda escolha ou sorte?
Meus pés… eles sentem o norte… eles pisam o mundo…