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Crônica

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André Malraux estava perdido em seu salão. Entre as páginas de uma vida que ele soube perfumar. Poucas pessoas são tão doces assim. Gentil como as cores do vestido que você pintou. Nesta crônica aqui. Aquela de outro dia. Não é? Tua voz nunca faltou com a graça que tem. No sotaque que sussurra. É de uma certeza absoluta. Foi então sob a luz serena que dançamos para nunca mais falar. E você cantava Diana Panton antes de dormir. Assim, aqui, ali.. a vida deixou de ser aquilo. O que era ela? Aquela. Pois então. Do you black? Blue. Não é a palavra de querer explicação. Que pouco uso de cada letra. Fazer disso uma forma de quê, para quê? O museu do infinito tem quatro paredes. Não cabe em lugar algum esse devaneio. Mas olha então. Eu não vou dizer o que não é imagem. Antes por isso não ser linguagem. Não cabe. Foi pela janela que encontramos quando olhamos por aqui. Por aquela mesma escada pintada por ele. Não é a outra mesma vida que nunca mais verá. Aquela de outro dia. Tudo que foi do presente que o futuro fez ser será. Mas então André Malraux estava perdido em seu salão. Entre as páginas de uma vida que ele soube contar.

Tu sais, je vais attendre
J’ai protégé ton nom

 

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Todos os dias ele atarraxa sua cabeça. Fica ali, presa ao pescoço num balanço cotidiano. Foi então que, certa vez, ele esqueceu de apertar e, por esquecido, saiu com ela frouxa sobre os ombros. Era fim de mês. Era o fim de uma fila lotérica num meio dia qualquer. Num solavanco da pestana deixou a cabeça cair. Atordoado, sem muito enxergar, se prontificou a recolher o precioso artefato. Ao tatear o cimento percebeu de que esta, muito provavelmente, já estava a rolar pela rua. De posse das contas, correu entre os carros que buzinavam. Esbarroado, abarrotado, desesperado… por não encontrar sua cabeça. Essa que girou por toda a ladeira e se perdeu em algum lugar. Voltou para casa quase cabisbaixo. Quase! Por algum milagre encontrou o caminho de volta, talvez pela força do hábito. E percebeu que muito do que fazia estava laçado ao maldito. Deitou para dormir e logo apagou. Triste, de fato, mas sem a ladainha dos pensamentos. No dia seguinte, chegou ao trabalho pontualmente. Poucas pessoas notaram que ele estava… bem vestido. A cabeça? Apenas o porteiro da firma. Foi então que ele percebeu, numa conversa junto à máquina de café, que seus amigos já não tinham ou não traziam a cabeça para o trabalho. “Eu deixo a minha em casa, é mais seguro!” Alertou um colega. Foi à delegacia registrar o corrido, mas foi advertido de que a fila era grande e de que outras tantas pessoas esperavam pela cabeça perdida. Muitas não registravam o desaparecimento e nunca mais voltavam para reaver o precioso artefato. Havia, inclusive, uma sala cheia delas. Sem muitas esperanças, aguardou confiante até esquecer de algo que já não poderia lembrar. Viveu pela trilha de uma rotina confortável. Ele simplesmente não percebia mais o que era óbvio. Suas atitudes não eram um completo assombro para outros que davam de ombros. Certa vez, numa crise amorosa, pediu conselhos ao amigo mais chegado. Mas que conselhos poderia esperar de alguém tal qual decapitado? Eis sua resposta: “todos os dias eu atarraxava meu coração. Ficava ali, preso ao peito num pulsar cotidiano. Foi então que certa vez esqueci, e por esquecido sai com ele frouxo pela rua…”

Azul no céu escuro das cidades feitas à mão. Deitados chegamos e partimos para flutuar. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Cada palavra dita mata. Que tu some e se desfaz em todas as tuas pegadas. No céu escuro um azul que dissolve o vermelho. Aqui nós estamos. Toda luz te acorda? Aquela que mergulha. Na lua que descia. A mesma que o sol amanhece. Quando dormia lembrava. Quando acordava esquecia. Mãos de extinguir espécies. Mãos de acelerar partículas. Nas cidades que são feitas. Aquele que somos nós. Que nós damos? Em nós que somos. Em cada um dos nossos que nós sonhamos. Adormecemos cada despertador. Aguardamos o seu toque. Acordamos com o seu furor. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Aqui. Nas cidades feitas à mão.

Toda luz te acorda?
Meus olhos precisam do escuro
Toda escolha ou sorte?
Meus pés… eles sentem o norte… eles pisam o mundo…

 

quando laça teu cabelo
quando lança essa voz
sussurram as estrelas
de grão granula luz
no peito teu que toco
respira doce afago
que a vida é isso sim
quando estamos
quando somos
quando?
quando?
s.o.s

feito caixa de cordas
que assanha minha barba
aquele peito oco que faz eco
ouviu que sussurram as estrelas
de grão granula luz
a luz da lua na luz do mar
e o sabor que respira
e a vida que sorri
que não rima
mas quer

e foi então sorrir
no caminho dessa noite
cansados de não sei não ser
e foi desaparecer no verde
da pupila que o sol faísca
é forte feito pedra no mar
que sabe o que quer e ser
rema feito Mirmidão
às praias daquela guerra
que a gente vai morrer

feito caixa de cordas
onde arranha em minha barba
que eco ecoa ecoa cada
eu então estava ali
untado pelo sal
amado pelo ar
eu então estou nas mãos
que deixam algum perfume
que olham para olhos
por um silêncio que falo
por uma palavra que calo

feito caixa de cordas
que assanha minha barba
deitado em minha jangada
ouvi o que sussurram as estrelas:
“de grão granula luz”

As ondas subiam e batiam contra o céu. Com o badalar das horas que pulsavam no coração. Era o céu esse azul borrado. Tão temerosa imensidão. De nuvens cinzas que sopravam o Mirmidão. Nós nos perdemos no oceano. Perdemos a chance de naufragar e nos afogar em nossos corações. Essas praias sonhadas que aquecem as mãos. No céu de uma boca que engole o mundo. Ouvimos um canto celestial sobre o horizonte que esmaece. Eram esses os dias dos nossos olhos se tocarem. Mas as ondas. Aquelas ondas que lavaram o nosso mundo. Na ponta dos dedos que se perderam. Estamos aqui! No oceano que se ergue e respira. Balança os fundamentos da terra que se dobram. Estamos aqui! Uma visão de reis que se lançam em bravas naus. Eu só voltei para te dizer o que poderíamos. E tudo que perdemos quando deixamos de ouvir o sol iluminar os nossos rostos. Estamos aqui! Entre as ondas. No meio do oceano.

Para engraxar sapatos você precisa de algum tempo. Tempo para envelhecer. Tempo para amaciar. Tempo. Para engraxar sapatos. É que sapatos novos não precisam dos mesmos cuidados. Tão pouco dizem algo sobre seus passos. Sobre cada história que passou bem debaixo dos teus pés.

Aconteceu então que, ao caminhar por aquela cidade encontrei um senhor de meia idade. Ao notar a banqueta e todo repertório do ofício, percebi uma boa oportunidade para cuidar das botas gastas. Ele tinha barba. Não muito grande; era branca. Tinha mãos fortes e unhas sujas, usava roupas velhas e exalava um cheiro de graxa. Quando tentei negociar o preço por seus serviços não me respondeu de pronto. Buscou algo no bolso do sobretudo e estendeu a mão exibindo algumas moedas. Ficou claro a ausência de um idioma capaz de nos conectar. E, na ausência das palavras, iniciamos um jogo de gestos que acompanhávamos com os olhos. Pediu com educação que sentasse na banqueta. Apontou para o meu pé esquerdo. Seria o primeiro. Abriu uma antiga caixa de madeira e, pouco a pouco, retirou o seu conteúdo. Frascos, escovas e suspiros. Apontava para as pequenas latas com cores diferentes. Percebi naquele momento que aquelas poderiam ser suas melhores amigas. Estendeu uma escova e, num gesto, pediu que eu passasse a palma da mão sobre ela. E sobre outra. Tentava mostrar a diferença, compartilhava o seu mundo no tempo que era seu. Senti com alguma certeza de que aquilo seria especial, para ambos. Talvez mais para mim, para quem ele tentava ensinar algo. Para engraxar sapatos nos tornamos cúmplices de histórias. Das nossas; do outro. Sobre pés, calçados e escolhas. E logo ficou claro que estávamos a conversar. Conversávamos. Que contávamos histórias. Entre um gesto e outro, no tempo necessário para untar as botas e revelar o seu antigo brilho. E os olhos se abriram. Para surpresa de quem agora eram como amigos. Compartilhamos algo. Acho que foram os nossos caminhos, as nossas incertezas sobre o que já vivemos até aquele último dia do ano. Que escolhas fizemos para os nossos pés? Que escolha faríamos? Depois de lhe pagar pelos serviços nos cumprimentamos num demorado aperto de mãos. Agradecido, segui caminho pela rua enquanto o ouvia guardar seus pertences. Eu sempre tento lembrar o seu nome. Mas, por algum motivo, não consigo, mesmo tendo ele repetido ca-da-sí-la-ba. No dia de minha partida o procurei naquela mesma rua, mas não o encontrei. Lembrei do aperto de mãos e do cheiro que ficou em minhas roupas. Lembrei que, para engraxar sapatos, você precisa de algum tempo. Tempo para envelhecer. Tempo para amaciar. Tempo. Para engraxar sapatos.

Para o senhor que morava na rua, ao lado das escadas da estação Le Gobelins, em Paris. Obrigado por cuidar dos meus sapatos. Vou cuidar de passos certos.

Ferva a água enquanto sussurra. Respire o vapor da máquina de chá. Colha pensamentos do seu dia. Pondere e esqueça até sibilar. Apague o fogo da pedra. Cuidado com a coruja que quer despertar. Sirva com mãos limpas. Escolha a xícara de ágata do mar. Espere os olhos fecharem. Não descubra nunca. Entenda a hora de servir. Vá até a estante e escolha um livro. Na hora da efusão tu até podes rir. Sentado sobre os ponteiros do relógio. Algumas voltas para terminar. Sirva em silêncio. É este o momento. Para a primeira pessoa do singular.