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Escritos

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Quarto 1809. Era a primeira vez que estava naquela cidade. Era a primeira vez que usava aquele perfume. A noite chegava com uma luz agradável enquanto vestia aquele terno. A música preenchia o ambiente com um novo sabor. O anfitrião preparara um jantar para a nossa despedida enquanto os ruídos da festa entravam pela janela entreaberta. Uma cortina assombrada pela brisa me trouxe um sorriso diante do espelho. Foi quando abotoei as mangas. Foi quando bateram à porta. Sem muita pressa, caminhei e retirei a alça do olho de vidro, mas o corredor estava vazio. Ao destrancar,  me deparei com uma pequena surpresa. Sobre o carro de serviços repousava um envelope e um pequeno vaso. Nele, um cacto mil cores.

Templo. A comida era um novo tempero. Plantas, ervas, legumes e mariscos. Ao longo das horas em que estávamos a plantar para colher, aprendi a cultivar. Era aquele o perfume da terra que untava as minhas mãos. Contemplei o meu labor com uma simples alegria. Algo sobre estar ali longe do mundo. Foi então pelo entardecer que seguimos por uma trilha em fila indiana. Passamos por uma cerca viva de cravinas. Era a primeira de muitas até o templo. Usávamos uma corda para trespassar nossas mãos e cinturas. Pelo lado direito da ilha se agigantava um abismo de pedras brancas e nuas. Uma ameaça constante a nossa vertigem. Estávamos ali, ilhados de sinais por aqueles dias. Cruzamos os portões e a última cerca viva onde cresciam pequenas rosas brancas. Seu perfume era inevitável. Avistamos o templo de pedra onde prepararíamos a nossa refeição. Havia um passadiço escondido sob o rio por onde as pedras saltitavam num intervalo de um passo curto. Era o último obstáculo até o terraço. Sabiamente e naturalmente, lavávamos os nossos pés antes de chegar ao jardim, antes de colocar os pés sobre aquele solo.

“Ouve bem o som da brisa. Sente os teus pés sobre as pedras. Deixa a água lavar. Esse rito faz parte de algo que construiu esse caminho por séculos. Deixe a vida e seus ciclos. Ouve tudo isso ser teu apenas por um momento para te trazer aqui. Nada é verdadeiramente nosso. Todo ar que prende te sufoca. É preciso soltar para respirar. E então recomeçar, tomar novo ar. Toda água que banha evapora. E só assim ela volta a ser cristalina e pura. Ouve bem o som da brisa. Há algo que o rio sempre sussurra entre pedras e cascatas: o mar nos chama de volta.”

Julie Byrne & Eric Littmann – Spain
https://www.youtube.com/watch?v=qlFzzdEwYyo

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Portulacaria Afra. Ela crescia em silêncio em um pequenino vaso posto sobre um móvel da sala de estar. E eu a encontrava todas as manhãs para o desjejum. Havia sempre a cumplicidade de um silêncio entre nós. Eu não falava. Nem ela. Nada. Após o café, a segurava com as duas mãos e a carregava até a janela. Quando o sol a tocava, ela balançava seu corpo. Pouco a pouco sentia toda água lhe lavar as folhas até a raiz.

Clethra Alnifolia e Cravinas. Na Rua da Alegria existia e, pelo que me consta, ainda existe, uma imensa estufa vitoriana de ferro e vidro. Ali, cresce uma grande variedade de rosas. E mesmo nos invernos mais rigorosos, todo o arco e claraboia abrigam algumas das mais delicadas espécies. Dona Dominga cuida bem delas, com muita atenção e cuidado à mudança de temperatura do ambiente. Entretanto, após um rigoroso temporal, parte da estrutura de ferro se partiu. Por um longo tempo eu a vi aberta ao tempo. Foram longas semanas. Logo eram meses. Em um dia chuvoso, se não me falha a memória, lembro de ver Dona Dominga com um vaso de Cravinas deixando o local pouco depois de trancar uma das grades com um antigo cadeado de madeira. E veio a chuva, o frio, o tempo e o vento.

Mil cores. Certa tarde, pouco depois de desfazer as minhas malas, decidi fazer uma caminhada para o reconhecimento do lugar. Seguindo a orientação de um antigo morador da região, aquela trilha me levaria à murada da encosta sul. Seguir para o sul sempre me soava confortável: era como descer uma ladeira. (…) Outrora, esta região funcionava como um grande estaleiro onde ainda é possível encontrar um conjunto de embarcações, âncoras e madeiras que denunciam o tempo. Tudo que o sol pode corroer pela fome do sal. Andando mais um pouco pela trilha, encontramos um grande campo com vista para a murada e depois o mar. Há ali uma casa de pedras onde já não mora ninguém. Ou pelo menos, era isso que imaginava. É que alguém estava deixando o local no momento em que cheguei. E mesmo ao longe, pude perceber o que levava nas mãos. Era um vaso. Nele um cacto. Um cacto mil cores.

Essa é a terceira parte de três partes de um conto que sempre tentei. Que sempre esquecei.

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Toda essa luz. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Pela janela estava todo o mar. As ondas quebravam por toda noite até o dia. Por todo pelo, barba, fumaça e sal. A pele queimada de sagrada penitência. E toda luz que eu fotografava. É que eu estive de volta ao ministério. Lá e aqui. Onde o cronógrafo das últimas horas ferve toda temperança. E tudo parecia se encontrar dentro daquelas palavras. E o silêncio. Ora a escrever. Ora a apagar. Nesta casa que permanece vazia. Por certo tempo. Por uma longa noite. Por dois longos dias. E toda essa luz sobre os olhos. Inundada pelo mar. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Quando me despia, vestia. Quando lembrava, esquecia. E toda essa luz. Sobre a pele que ardia.

But on a Sunday morning sun
Solo sunrise

#fib_Travessa_De_Cedofeita

Outrora a luz pela janela e o frio
Há poucas semanas tudo tanto mudou
E pensar que fomos convidados a partir
Você me diz o que fazer
Com quem andar, aonde ir

(…)

O que você fez do sentimento que te dei?
Aquela praia é a chuva e o verão
Aquilo que não consegui dizer
Que escrevi para guardar
Aquilo que existe e não se vê
Aquilo que precisava falar
Que ficou ali
Que ficou em mim
Em algum lugar

(…)

Ficaram coisas espalhadas pela casa também
E os caminhos que acordam meu seguir

(…)

Na rua de antiquários, pouco antes do fim do dia
Encontrei encouraçado em um anel
As palavras que eu precisava dizer
Cabe em um círculo que recomeça
Se você souber vai conseguir entender
As letras, eu contei até 18
Dentro de um círculo gravado
Que se multiplica
Oito vezes 8

(…)

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Em um sonho antigo
O rabo de baleia pelas costas
Desenhava o meu braço
Eu sou do mar
Deixado para mar
Toda âncora que eu laço
Amarro, des-pe-da-ço

E o rabo de baleia
De outra vida que voou
Eu sou do mar
Descasco o sol
Barba e sal
Rugas de sonhar
Cetáceo
Uma cachalote
No meu braço

Eu mergulhei no deserto
E desapareci no céu
Essas palavras vomitadas
Quando o relógio dizia
Quando dormia lembrava
Quando acordava esquecia

Dentro do meu mundo
Tudo é mar
E sal para adoçar

{
Se o pretérito for perfeito
eu voei
tu voaste
ele voou
nós voamos
vós voastes
eles voaram
}

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Entre todas as páginas escritas. Essa última que não diz. Quantos anos duram um sonho? O que escolhe escrever sob tuas pálpebras? Para lembrar de acordar todos os relógios dos teus sonhos. Em cada uma das tuas mãos que não alcança a outra. Por mais que sonhe essa vida. Éramos dois corpos perdidos dentro do outro. Entre todas as palavras que eu já escrevi, que eu já apaguei, que eu já vivi. Entre todas as letras que eu disse dizer. Quem fala de nossas vidas? Quem fala por nós quando batem à porta? Eu pouca coisa soube mais clara que a luz. E vi. Mas quando acordei, esqueci. Eu pouca coisa esqueci de apagar. E li. Mas preciso dormir para lembrar. Correndo contra o verão do sol, do inverno polar. Eu nunca mais falei que morri minhas certezas. Eu, sobre o leão que cavalguei. Eu, que nunca mais soube em que dia acordei. Quando estive dentro de ti, quando sonhei e amanheci. Que palavras eu nunca falei? Que palavras eu esqueci?

Algumas coisas eu nunca disse pra mim.
E tu? Que estrelas pode ver? Que palavra não ouviu de ti?

Mede o que é mensurável e torna mensurável o que não o é.
Galileu Galilei

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São confissões. Das mais misteriosas sobre o tempo. Eu acho que de algumas coisas eu sei. Sobre esse mistério que nos toma. Esse mesmo de todos os dias entre o dormir e o acordar. Mas acho então que tenho pouco a dizer sobre tantas coisas. Tenho estado em silêncio comigo. Para desfrutar de algumas coisas que me fazem bem. E eu fico em silêncio comigo. Contigo também. Para ouvir Fotografia. De Tom Jobim.

E dez mil destinos escaparam.
E veio a chuva no mar.
E a gente dormiu a noite inteira.
Dormiu sem acordar.

Excertos – Ou sobre o dia anterior

Ver o sol nascer
Ver a chuva chegar
Sentir o mundo
Des-per-tar

Em cada canção que cantei
No mergulho no mar
Essa vida que vive
Vive viver vira ar

Em cada abraço
A minha maior verdade
Nesta página em branco
A vida que eu desenhar
Vive viver virá

São confissões. Das mais misteriosas sobre o tempo. Eu acho que de algumas coisas eu sei. Sobre esse mistério que nos toma. Esse mesmo de todos os dias entre o dormir e o acordar. Mas acho então que tenho pouco a dizer sobre tantas coisas.