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Escritos

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Toda essa luz. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Pela janela estava todo o mar. As ondas quebravam por toda noite até o dia. Por todo pelo, barba, fumaça e sal. A pele queimada de sagrada penitência. E toda luz que eu fotografava. É que eu estive de volta ao ministério. Lá e aqui. Onde o cronógrafo das últimas horas ferve toda temperança. E tudo parecia se encontrar dentro daquelas palavras. E o silêncio. Ora a escrever. Ora a apagar. Nesta casa que permanece vazia. Por certo tempo. Por uma longa noite. Por dois longos dias. E toda essa luz sobre os olhos. Inundada pelo mar. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Quando me despia, vestia. Quando lembrava, esquecia. E toda essa luz. Sobre a pele que ardia.

But on a Sunday morning sun
Solo sunrise

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#fib_Travessa_De_Cedofeita

Outrora a luz pela janela e o frio
Há poucas semanas tudo tanto mudou
E pensar que fomos convidados a partir
Você me diz o que fazer
Com quem andar, aonde ir

(…)

O que você fez do sentimento que te dei?
Aquela praia é a chuva e o verão
Aquilo que não consegui dizer
Que escrevi para guardar
Aquilo que existe e não se vê
Aquilo que precisava falar
Que ficou ali
Que ficou em mim
Em algum lugar

(…)

Ficaram coisas espalhadas pela casa também
E os caminhos que acordam meu seguir

(…)

Na rua de antiquários, pouco antes do fim do dia
Encontrei encouraçado em um anel
As palavras que eu precisava dizer
Cabe em um círculo que recomeça
Se você souber vai conseguir entender
As letras, eu contei até 18
Dentro de um círculo gravado
Que se multiplica
Oito vezes 8

(…)

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Em um sonho antigo
O rabo de baleia pelas costas
Desenhava o meu braço
Eu sou do mar
Deixado para mar
Toda âncora que eu laço
Amarro, des-pe-da-ço

E o rabo de baleia
De outra vida que voou
Eu sou do mar
Descasco o sol
Barba e sal
Rugas de sonhar
Cetáceo
Uma cachalote
No meu braço

Eu mergulhei no deserto
E desapareci no céu
Essas palavras vomitadas
Quando o relógio dizia
Quando dormia lembrava
Quando acordava esquecia

Dentro do meu mundo
Tudo é mar
E sal para adoçar

{
Se o pretérito for perfeito
eu voei
tu voaste
ele voou
nós voamos
vós voastes
eles voaram
}

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Entre todas as páginas escritas. Essa última que não diz. Quantos anos duram um sonho? O que escolhe escrever sob tuas pálpebras? Para lembrar de acordar todos os relógios dos teus sonhos. Em cada uma das tuas mãos que não alcança a outra. Por mais que sonhe essa vida. Éramos dois corpos perdidos dentro do outro. Entre todas as palavras que eu já escrevi, que eu já apaguei, que eu já vivi. Entre todas as letras que eu disse dizer. Quem fala de nossas vidas? Quem fala por nós quando batem à porta? Eu pouca coisa soube mais clara que a luz. E vi. Mas quando acordei, esqueci. Eu pouca coisa esqueci de apagar. E li. Mas preciso dormir para lembrar. Correndo contra o verão do sol, do inverno polar. Eu nunca mais falei que morri minhas certezas. Eu, sobre o leão que cavalguei. Eu, que nunca mais soube em que dia acordei. Quando estive dentro de ti, quando sonhei e amanheci. Que palavras eu nunca falei? Que palavras eu esqueci?

Algumas coisas eu nunca disse pra mim.
E tu? Que estrelas pode ver? Que palavra não ouviu de ti?

Mede o que é mensurável e torna mensurável o que não o é.
Galileu Galilei

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São confissões. Das mais misteriosas sobre o tempo. Eu acho que de algumas coisas eu sei. Sobre esse mistério que nos toma. Esse mesmo de todos os dias entre o dormir e o acordar. Mas acho então que tenho pouco a dizer sobre tantas coisas. Tenho estado em silêncio comigo. Para desfrutar de algumas coisas que me fazem bem. E eu fico em silêncio comigo. Contigo também. Para ouvir Fotografia. De Tom Jobim.

E dez mil destinos escaparam.
E veio a chuva no mar.
E a gente dormiu a noite inteira.
Dormiu sem acordar.

Excertos – Ou sobre o dia anterior

Ver o sol nascer
Ver a chuva chegar
Sentir o mundo
Des-per-tar

Em cada canção que cantei
No mergulho no mar
Essa vida que vive
Vive viver vira ar

Em cada abraço
A minha maior verdade
Nesta página em branco
A vida que eu desenhar
Vive viver virá

São confissões. Das mais misteriosas sobre o tempo. Eu acho que de algumas coisas eu sei. Sobre esse mistério que nos toma. Esse mesmo de todos os dias entre o dormir e o acordar. Mas acho então que tenho pouco a dizer sobre tantas coisas.

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eu nunca mais falei
guardei
esqueci

eu nunca mais olhei
apaguei
segui

eu nunca mais ouvi
desliguei
desisti

eu nunca mais
eu nunca mais
eu nunca mais

eu nunca
eu mais
nunca eu
nunca mais

eu
que era ele
não caibo no mar
eu
era
aquela
primeira pessoa do singular

e veio o tempo
onde depois encontrei
ele
que era eu
me fez sorrir
conversamos
agradeci
por me deixar voar
por me deixar seguir

eu nunca mais
eu nunca mais
eu nunca mais

eu nunca
eu mais
nunca eu
nunca mais

“Outrora escrevi um conto para o Rei. Viajei por muitos anos e, ao chegar na sua ilha, encontrei a corte vazia. O palácio já não era o mesmo. Tudo era estranho e cinza. Mas a maior surpresa veio ao fim do dia. É que quando chegava a noite o castelo evaporava. Ele inteiro sumia.”

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Veja só a nossa vida
Aquela que a gente fez
Quem sabe dela aqui
Novo abraço trouxe o mar
Sem talvez
Sem talvez
É quando me pergunta
Do que a gente está rindo?
Eu não sei
Ser feliz tem motivo?
Na fila do aeroporto
Outra vez
Outra vez

Em cada parte cabe o nosso abraço
E o que fica em cada um guardado

Uma concha, uma rolha, um perfume, um afago
Sobre a mesa da sala, dentro de um vaso…

Outra vez
Outra vez
Outra vez…