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Pensamento

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Eu me dobrei sobre mim e me coloquei em cima da cama. No frio que me partia. Pela casa que andava. Vazia. Meu corpo nu e inteiro. Daquele sentimento. Daquela alegria. Que me levava ao horizonte. Que me matava. Que me pa-r–t-i–a. É sempre o suave desespero. Uma incerteza absoluta. Ou o fim de todas as coisas. Ali… onde as estrelas são estranhas.

Eu me dobrei sobre ti e te coloquei em cima da cama. 
À tua bruxaria.

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Voei onde longe ar

Onde
Lu
AnAn
DaDaDa

Os pés sobre a areia do apartamento
Sobre o cimento do mar
Que longe até onde vai
Não respira sem o infinitivo do ar

Ando onde longe ali
Aqui
Ontem
Pela sombra soprar
Só pra ser só se sou ser
Será

És quem? Sabe?
Língua que desata
Que escuta e fala
Tu só será linguagem

Ser é ar
De átomo à paisagem
Em cada estrela
No céu da tua boca
Onde cai a mandíbula
E encerra cada dia
O escuro que acende
Uma luz pela janela
É clara e míngua
Em tua tão nossa
Di
ViViVi
Di
DaaDa
Vi
DaaDa

Em alguma praia ou recife foi pescado grande cetáceo
Feito eu que me renderei à rede que escapo para ficar
Nesse sonhar de ponta-cabeça que escolho vou escolher
E que certo dia vou me afogar em tudo que tu me fez respirar

Todos os dias, antes pouco depois de um café, durante aquelas momentos de chuva e sol em que minha casa é lavada, leio que minha gente segue sob as leis de senhores imorais. Todos os dias, mês após mês. Deste horizonte eu vejo a tua foto com ela, com aquela criança nos braços, nos alpendres em que crescemos. Três filhos francos de corações armados ouviram: mais vale os outros contra ti do que tu contra o espelho. Seja mesmo fiel a você e não falharás com ninguém (ou com quem importa e sabe se importar). Contra tudo que é verdadeiro só pode ser a mentira. Contra tudo que é destempero só pode ser o azedo. Todos os dias eu olho a tua foto. Não me demoro pra não deixar os olhos vacilarem. Alguns poucos segundos são suficientes para lembrar que o nosso abraço é um laço e que o teu sorriso é como o meu. Segue essa carta para chegar em tuas mãos limpas, espalmadas em um avental, pouco antes de colocar os óculos e sorrir com os olhos. Teus olhos de branco castanho.

Para T.

Nuvens do oeste branco
Dentro de molduras antigas
Caminhava uma noite
Onde cada cadeira dormia
Todo frio que abraça
O silêncio que não muda
Ouço as primeiras notas
Na madrugada de um dia
Ao passar pela sala
Os sonhos de um abajur
Os murmúrios da noite
E o frescor de uma neblina
Quando dormia lembrava
Quando acordava e- -q-u- -c-i-a

Quando eu encontrar respostas, lançarei perguntas. Cabe a ti dar então certezas reais. Não aquelas trapaças do coração. Quando souber do que falo. Quando esta será a mesma língua? Quando encontrarmos o perfeito ajuste de tempo. E o que será então o amanhecer de dois corpos sob o sol. Sob as ondas que outrora poderiam ter a graça dos teus olhos. E das pegadas que um dia eu fiz questão de deixar na areia da praia.

Eu não quero ser. Seja lá o que isso quer. O-que-quer-dizer-? Eu não quero ser. Nem ateu. Nem sei se deus. Deus me livre! Eu não quero. O que eu quero é (não) ser. Nada disso. Nada que vá dizer. Sem bandeiras. Sem ofensas. Eu quero ser. Eu. Duas letras. Ponto final. Etc e tal… Livre de cada um. Que seja um. Que seja eu. Não sou vermelho, opaco ou azul. Eu não tenho pele. Só uma alma. Não tenho armas para me defender. Não sou o sexo. Nem o signo. Nenhuma marca. Nenhum partido. Não sou profile. Nem o anexo. Ou disco rígido. Eu sou só eu!  Consegue ver? Sem nada que faça. Que caiba. Que diga. Olhe nos olhos. Talvez eu até minta. O que define? É que eu-sou-tudo-isso. Eu sou a beleza de não ser você. Eu sou o mesmo que ainda pode mudar. Mudo? Você é surdo? Outro mesmo eu. Em cada amanhecer. Louco que seja. Esse sou eu. O que quer que aconteça. O que vai dizer. Quem vai falar? Por um futuro-mais-que-perfeito. Eu. Primeira pessoa do singular.

Foi no meio de um dia cruzando a faixa de pedestre. Foi no meio do ponteiro que apagou os últimos segundos das 16. Era quase sol. Era quase chuva. Mapas mentais entrelaçados sobre as últimas coordenadas da semana. Mapas astrais mergulhados em constelações de algum faz-de-conta. Melhor eram as cores amargas do cinza-mundo-real que respirava. Da alucinação de Belchior. Sem teoremas nem paradigmas. Sem toda a falação despretensiosa de um discurso raso. Intelectos ameaçados pela timeline. É uma hashtag: mãos ao alto! Eu cruzei algumas ruas para o lado. Era a pausa sagrada para não respirar as notícias. Era a busca por um momento no-hi-fi-low-profile. Para mergulhar no ritual de cada-um-de-nós. Era café e silêncio. Eram cinco minutos com óculos embaçados. De olhares perdidos. De rascunhos imaginários. De checklis-esquecidos. Era encontrar o que poderia. E ter certeza do que precisava quando não pensava… e só sentia…