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Pensamento

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li em contos de terror que todo azul é cinza
que todo cinza dor
li em contos de escrita que minha mão é suja
pinta sem ter cor
ri por saber que a vida é curta
e toda luz do universo cabe no olhar
toda rua que atravessa desaparece
e o mundo gira mudo
mudo
muda
sem mudar

li em algum lugar

estive no oriente
fiz questão de não me levar
um círculo sem curvas
horizonte sem linha
efígie de quilate
para me ver brilhar

aqui no naufrágio
o inverno é difícil
e durmo com a mesma roupa
que eu arrastei pela lama

acordo de um outro novo sonho
flutuando pelo quarto
deitado em minha cama
caio das alturas sobre nuvens
travesseiros e lençóis
e toda noite amanhecia
eu quando dormia lembrava
eu quando acordava esquecia

li em contos de terror que todo azul é cinza
se for toda cinza flor
acordo outra vez
do meu sonho mais bonito
que a vida que agora se fez
li em algum conto
o mesmo
outra vez
outra vez

li em contos de terror que toda cor é cinza
que este cinza não é cor
li em contos de escrita que minha mão é limpa
pinta sempre a mesma dor
ri por saber que a vida é curta
e toda luz do universo cabe no olhar
toda rua que atravessa desaparece
e o mundo gira mudo
mudo
muda
sem mudar

foi o que eu li
em algum lugar

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Era noite quando a chuva veio. A brisa e o perfume denunciavam. Não fechei as janelas de madeira que se abanavam ao sabor do vento. A pouca luz do abajur iluminava o meu corpo e a sombra. E o tempo parou. E ela caiu sobre o telhado acendendo o mundo. Sem muitos planos e pouca pressa, desci para a rua com a pouca roupa que vestia. Lembro de não planejar algo sobre isso. Lembro de caminhar pelo banho de chuva de pés descalços. A água me lavou. E o vento forte, que era frio, me inundou. Até que as estrelas apareceram. Eram lâmpadas mágicas. E para elas fiz meu último desejo. Elas me olhavam. E elas me diziam. Que você estava feliz e bem. E eu fiquei feliz por imaginar. Espero que a chuva chegue até você. E que todos os motivos para não sorrir desapareçam. A vida estava cheia de coisas que não foram ditas. Lembrei das palavras de Hosana. De suas mãos enrugadas segurando as minhas pouco antes de ouvir alguns dos mais preciosos conselhos. No caminho de volta, olhava pela janela e lembrava daquelas palavras. E quando o sol apareceu, vi o dia novo de uma estrada contornando o mundo até o mar. Ali, onde as estrelas são estranhas.

Para R.
Obrigado.

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As partes que somam a equação que quantifica cada uma das tuas ligações químicas em raios que não são claros como os olhos que resolvemos fechar para que toda luz seja essa mesma ao acordar por outras razões aquilatadas a cada novo ser que verbaliza tua linguagem quando cala tudo que há de terrível em si por si em mim em ti sobre a efígie que nos encontra sob a superfície que arranha que arranha que arranha a pior palavra que afoga e pulveriza o que nos mata de viver antes que tudo seja o mesmo ciclo capaz de mover a vida e enganar o que respira para não assumir cada uma das partes de uma razão dentro de um precioso fluxo de pensamentos que acontece pouco antes do sinal abrir para que a vida seja tua e nada mais seja teu onde o ponto que começa e termina essa linha vai dizer sobre o futuro-mais-que-perfeito ao tecer ao tecer ao tecer o que fizer que será que quiser ou o que quis dizer antes de tudo e de nada que mata que mata que mata e faz viver para que ele acorde por dentro e por fora revelando o avesso por ser mais que um nova ou a mesma noite antes do dia ser lançado no conforto do aço para o verso do espelho que nos faz acreditar que ele dorme e nunca nunca nunca vai acordar.

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Eu me dobrei sobre mim e me coloquei em cima da cama. No frio que me partia. Pela casa que andava. Vazia. Meu corpo nu e inteiro. Daquele sentimento. Daquela alegria. Que me levava ao horizonte. Que me matava. Que me pa-r–t-i–a. É sempre o suave desespero. Uma incerteza absoluta. Ou o fim de todas as coisas. Ali… onde as estrelas são estranhas.

Eu me dobrei sobre ti e te coloquei em cima da cama. 
À tua bruxaria.

Voei onde longe ar

Onde
Lu
AnAn
DaDaDa

Os pés sobre a areia do apartamento
Sobre o cimento do mar
Que longe até onde vai
Não respira sem o infinitivo do ar

Ando onde longe ali
Aqui
Ontem
Pela sombra soprar
Só pra ser só se sou ser
Será

És quem? Sabe?
Língua que desata
Que escuta e fala
Tu só será linguagem

Ser é ar
De átomo à paisagem
Em cada estrela
No céu da tua boca
Onde cai a mandíbula
E encerra cada dia
O escuro que acende
Uma luz pela janela
É clara e míngua
Em tua tão nossa
Di
ViViVi
Di
DaaDa
Vi
DaaDa

Em alguma praia ou recife foi pescado grande cetáceo
Feito eu que me renderei à rede que escapo para ficar
Nesse sonhar de ponta-cabeça que escolho vou escolher
E que certo dia vou me afogar em tudo que tu me fez respirar

Todos os dias, antes pouco depois de um café, durante aquelas momentos de chuva e sol em que minha casa é lavada, leio que minha gente segue sob as leis de senhores imorais. Todos os dias, mês após mês. Deste horizonte eu vejo a tua foto com ela, com aquela criança nos braços, nos alpendres em que crescemos. Três filhos francos de corações armados ouviram: mais vale os outros contra ti do que tu contra o espelho. Seja mesmo fiel a você e não falharás com ninguém (ou com quem importa e sabe se importar). Contra tudo que é verdadeiro só pode ser a mentira. Contra tudo que é destempero só pode ser o azedo. Todos os dias eu olho a tua foto. Não me demoro pra não deixar os olhos vacilarem. Alguns poucos segundos são suficientes para lembrar que o nosso abraço é um laço e que o teu sorriso é como o meu. Segue essa carta para chegar em tuas mãos limpas, espalmadas em um avental, pouco antes de colocar os óculos e sorrir com os olhos. Teus olhos de branco castanho.

Para T.

Nuvens do oeste branco
Dentro de molduras antigas
Caminhava uma noite
Onde cada cadeira dormia
Todo frio que abraça
O silêncio que não muda
Ouço as primeiras notas
Na madrugada de um dia
Ao passar pela sala
Os sonhos de um abajur
Os murmúrios da noite
E o frescor de uma neblina
Quando dormia lembrava
Quando acordava e- -q-u- -c-i-a