arquivo

Prosa

Entre todas as nossas vidas escolhemos esta pele. Em cada sinal que o mar sopra em nossos olhos. Essa luz que ofusca o sol. Entre todas as escolhas fez a mais antiga do teu ministério. Que a vida começa e termina em cada noite. Quando, quando, quando é hora de apagar as luzes? Quando arrasta um silêncio até despertar por desistir de dormir. Quem te acorda para sonhar? Essa vida se torna um pouco mais antiga a cada nova e clara página. E eu agradeço por envelhecer. Por esse algum motivo escolhemos escrever sem olhar. Sentimos mais. Pensamos menos. Entre todos os dias que lampejam a espera de cada fim. Para ti, Lorenzo. Para recomeçar.

Entre todas as palavras que diz
Que dizer acha que diz?

Anúncios

source

O tempo é como o silêncio de um olhar. Ele está nas palavras escritas em branco. Como pensamento gentil que sorri. E volta. Como reflexo que deseja o bem sempre está. Nestas pessoas de cores simples a efígie de uma viva alma. E lampejos. Quando interrompido por fogos de artifício. Um deserto azul dentro das mãos. Pela janela que voa não sabe aonde vai. Agradecido por ouvir tão íntimas confissões. Nas cores das bandeiras que flamejam cada alma. Sou eu quem abotoa os meus botões. Na rua de um passante que desfila tua inocente vida. Ele não precisa saber. E respiramos o caminho e seus sussurros. Certos de uma imensidão particular. Somos partículas no acaso de um movimento. Nas linhas de um mapa desenhado por um cego. Na encavogravura dos nossos rostos tecidos. Es-cul-pi-dos. Sorrimos. Nos temperos que guardamos para um jantar. Vai chover, vai chover, vai secar. Dentro das memórias de uma sala. Nas varandas das casas. Nos varais dos quintais. Eu sou este aquele que dança dentro de uma coroa. Na esperança que acorda o sol dentro do mar. Pela rua das flores de um só-riso solto. Um círculo sem curvas. Um abraço para respirar. E tudo é um lampejo de silêncio. Aqui em nossas redes ouvindo a chuva tilintar. São os olhos que se abrem para sonhar.

Todos os dias ele atarraxa sua cabeça. Fica ali, presa ao pescoço num balanço cotidiano. Foi então que, certa vez, ele esqueceu de apertar e, por esquecido, saiu com ela frouxa sobre os ombros. Era fim de mês. Era o fim de uma fila lotérica num meio dia qualquer. Num solavanco da pestana deixou a cabeça cair. Atordoado, sem muito enxergar, se prontificou a recolher o precioso artefato. Ao tatear o cimento percebeu de que esta, muito provavelmente, já estava a rolar pela rua. De posse das contas, correu entre os carros que buzinavam. Esbarroado, abarrotado, desesperado… por não encontrar sua cabeça. Essa que girou por toda a ladeira e se perdeu em algum lugar. Voltou para casa quase cabisbaixo. Quase! Por algum milagre encontrou o caminho de volta, talvez pela força do hábito. E percebeu que muito do que fazia estava laçado ao maldito. Deitou para dormir e logo apagou. Triste, de fato, mas sem a ladainha dos pensamentos. No dia seguinte, chegou ao trabalho pontualmente. Poucas pessoas notaram que ele estava… bem vestido. A cabeça? Apenas o porteiro da firma. Foi então que ele percebeu, numa conversa junto à máquina de café, que seus amigos já não tinham ou não traziam a cabeça para o trabalho. “Eu deixo a minha em casa, é mais seguro!” Alertou um colega. Foi à delegacia registrar o corrido, mas foi advertido de que a fila era grande e de que outras tantas pessoas esperavam pela cabeça perdida. Muitas não registravam o desaparecimento e nunca mais voltavam para reaver o precioso artefato. Havia, inclusive, uma sala cheia delas. Sem muitas esperanças, aguardou confiante até esquecer de algo que já não poderia lembrar. Viveu pela trilha de uma rotina confortável. Ele simplesmente não percebia mais o que era óbvio. Suas atitudes não eram um completo assombro para outros que davam de ombros. Certa vez, numa crise amorosa, pediu conselhos ao amigo mais chegado. Mas que conselhos poderia esperar de alguém tal qual decapitado? Eis sua resposta: “todos os dias eu atarraxava meu coração. Ficava ali, preso ao peito num pulsar cotidiano. Foi então que certa vez esqueci, e por esquecido sai com ele frouxo pela rua…”

Na fila que espera fala do seu olho. Empurra mais um pouco dentro do umbigo aquele globo. Que diz ser ocular. Em um grupo criado para falar de quem com quem trabalha. Quando o sinal abre martela ao volante. E o mundo vira suas luzes no último dia do ano. Aos passos rápidos de quem coloca o seu todo como tudo. Quando chega ao fundo percebe o que cabe. Empurra mais um pouco aquele globo. E deixa girar. Saliva cada palavra que mastiga. E tem razão por ser o que diz. Na rua desmente cada verdade. Em casa assume cada mentira. O que espera ouvir quando se cala? O que sonha e o que pensa dentro do aquário? Pelas mãos escorre o óleo do motor que arma. Na sola de cada pé que não gasta. O lodo verde queima sobre as costas. E a vida é terrivelmente assombrosa. Começa e termina no mesmo ponto em que volta. Vai-vol-tar. Aos passos rápidos de quem levanta do seu túmulo. Empurra mais um pouco dentro do umbigo aquele globo. Que diz ser ocular. E deixa girar.

Azul no céu escuro das cidades feitas à mão. Deitados chegamos e partimos para flutuar. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Cada palavra dita mata. Que tu some e se desfaz em todas as tuas pegadas. No céu escuro um azul que dissolve o vermelho. Aqui nós estamos. Toda luz te acorda? Aquela que mergulha. Na lua que descia. A mesma que o sol amanhece. Quando dormia lembrava. Quando acordava esquecia. Mãos de extinguir espécies. Mãos de acelerar partículas. Nas cidades que são feitas. Aquele que somos nós. Que nós damos? Em nós que somos. Em cada um dos nossos que nós sonhamos. Adormecemos cada despertador. Aguardamos o seu toque. Acordamos com o seu furor. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Aqui. Nas cidades feitas à mão.

Toda luz te acorda?
Meus olhos precisam do escuro
Toda escolha ou sorte?
Meus pés… eles sentem o norte… eles pisam o mundo…

Todos os dias, antes pouco depois de um café, durante aquelas momentos de chuva e sol em que minha casa é lavada, leio que minha gente segue sob as leis de senhores imorais. Todos os dias, mês após mês. Deste horizonte eu vejo a tua foto com ela, com aquela criança nos braços, nos alpendres em que crescemos. Três filhos francos de corações armados ouviram: mais vale os outros contra ti do que tu contra o espelho. Seja mesmo fiel a você e não falharás com ninguém (ou com quem importa e sabe se importar). Contra tudo que é verdadeiro só pode ser a mentira. Contra tudo que é destempero só pode ser o azedo. Todos os dias eu olho a tua foto. Não me demoro pra não deixar os olhos vacilarem. Alguns poucos segundos são suficientes para lembrar que o nosso abraço é um laço e que o teu sorriso é como o meu. Segue essa carta para chegar em tuas mãos limpas, espalmadas em um avental, pouco antes de colocar os óculos e sorrir com os olhos. Teus olhos de branco castanho.

Para T.

Eu não quero ser. Seja lá o que isso quer. O-que-quer-dizer-? Eu não quero ser. Nem ateu. Nem sei se deus. Deus me livre! Eu não quero. O que eu quero é (não) ser. Nada disso. Nada que vá dizer. Sem bandeiras. Sem ofensas. Eu quero ser. Eu. Duas letras. Ponto final. Etc e tal… Livre de cada um. Que seja um. Que seja eu. Não sou vermelho, opaco ou azul. Eu não tenho pele. Só uma alma. Não tenho armas para me defender. Não sou o sexo. Nem o signo. Nenhuma marca. Nenhum partido. Não sou profile. Nem o anexo. Ou disco rígido. Eu sou só eu!  Consegue ver? Sem nada que faça. Que caiba. Que diga. Olhe nos olhos. Talvez eu até minta. O que define? É que eu-sou-tudo-isso. Eu sou a beleza de não ser você. Eu sou o mesmo que ainda pode mudar. Mudo? Você é surdo? Outro mesmo eu. Em cada amanhecer. Louco que seja. Esse sou eu. O que quer que aconteça. O que vai dizer. Quem vai falar? Por um futuro-mais-que-perfeito. Eu. Primeira pessoa do singular.