arquivo

Prosa

Eu não quero ser. Seja lá o que isso quer. O-que-quer-dizer-? Eu não quero ser. Nem ateu. Nem sei se deus. Deus me livre! Eu não quero. O que eu quero é (não) ser. Nada disso. Nada que vá dizer. Sem bandeiras. Sem ofensas. Eu quero ser. Eu. Duas letras. Ponto final. Etc e tal… Livre de cada um. Que seja um. Que seja eu. Não sou vermelho, opaco ou azul. Eu não tenho pele. Só uma alma. Não tenho armas para me defender. Não sou o sexo. Nem o signo. Nenhuma marca. Nenhum partido. Não sou profile. Nem o anexo. Ou disco rígido. Eu sou só eu!  Consegue ver? Sem nada que faça. Que caiba. Que diga. Olhe nos olhos. Talvez eu até minta. O que define? É que eu-sou-tudo-isso. Eu sou a beleza de não ser você. Eu sou o mesmo que ainda pode mudar. Mudo? Você é surdo? Outro mesmo eu. Em cada amanhecer. Louco que seja. Esse sou eu. O que quer que aconteça. O que vai dizer. Quem vai falar? Por um futuro-mais-que-perfeito. Eu. Primeira pessoa do singular.

Anúncios

O vento sibila pela janela da tua casa. Cortina assombrada de brisas. Teus olhos acompanham um sorriso. Era o meu rosto sem graça. Sujo de graxa. Enquanto você me limpava. Cercados por uma luz naquele instante. De quem nos acompanhava. Uma trança em seus cabelos. Vestido de sol e flor. Precisa de pouco. Uma música. E a gente dança na sala. Era visível. As coisas que nem sempre estão nas palavras. Era um sorriso. Volta e me beija. No fim do lance de escadas.

E vai descendo a rua ao cair da noite. A brisa e a neblina. O frio e o ladrilho. Cinza e azul. A silhueta de uma bailarina. Palavras que minhas mãos podem escrever. Pintura que meus olhos podem sentir. O amarelo das luminárias que acendem como vaga-lumes. E as folhas que o inverno levou ao chão. Solitário vagante por caminhos que não se sabe: aonde vão? Certo de desejo incerto. As palavras ditas por uma cartomante. Quem saberá fazer leituras desta sinceridade sem cair no ridículo da superfície? Tão rasa, tão pobre. Maiores são os sentimentos que não cabem nas palavras, ou nesta pressa por alcançar um ponto final, como este que encerra esta linha. Bastam os meus passos e a minha vontade. Neste olhar fugaz, não saberá dizer que o pintor precisa se sujar. E no preparo de suas tintas existe sabor e textura. Ali, naquele caminho, era mais do que uma rua. E penso sem querer explicar que são mais do que palavras e frases. O pintor continua seu trabalho. Sente o aroma das mãos untadas em óleo. Sob as unhas o azul de um céu. Espalmado no avental o vermelho fresco de um tapete mágico. Mais do que pintar é viver no momento que se faz. Um mergulho em busca de ar. E sigo aqui, descendo a rua, sentindo o frio dobrar o meu corpo. E se souber bem ver, não será teu amigo quem arranha tua superfície. Fugaz e raso riso descomprometido. Quadro que ousa passar os olhos. Comida que engole para matar não só esta fome, mas a pobreza de um espírito. São esses mantenedores de razões apenas para risos fáceis que se espatifam no chão. Perceberá a verdade nas verdades que sempre se repetem. Hora de manter o silêncio do pensamento. Coisas escritas que não são lidas. Não saberão fazer suas tintas. Tão pouco perceber como foram preparadas. E podem ver tuas rugas, mas não as tuas lutas. Apenas o branco das nuvens e dos teus cabelos. O escuro da noite e dos teus olhos. E se perde um infinito de cores, sabores e acasos. E o azul que se estende como manto sagrado. O sentimento que embriaga teus olhos. O aroma que te faz salivar. O perfume dos livros. O silêncio que parece cantar. Quem fala de ignorância não vê que o pescador sente o movimento das marés? Pois a cada um foi dado um tapete mágico para voar. Não o use para limpar os pés!

Foi como caminhar sem se importar. Da parada de ônibus partia um sorriso pela janela, um olhar sincero cruzando a avenida. E ele seguia pela calçada esbarrando em objetos imaginários, tropeçando e caminhando e parando… feito Carlitos, andar engraçado, trejeitos espontâneos, não ensaiados. Um palhaço sem platéia que se importe. Apenas os olhos que brilhavam do outro lado, pela janela do ônibus. Até se derramar em gargalhadas por ele se esbarrar no mesmo poste, todas as vezes, o mesmo poste… como se fosse a primeira vez. Era tudo que ele precisava: ver aquele sorriso. Foi a última vez que ela o seguiu com os olhos até desaparecer no final da avenida. E Carlitos nunca mais fez sua graça. Talvez seja o momento de perceber que certas coisas são especiais o suficiente para serem lembradas com carinho. Independente do amanhã, nós tivemos o hoje…

Eu vejo um deserto vermelho se pôr. Um mar azul até o horizonte silencioso. Aqui, onde as estrelas são estranhas. Aqui, sobre as montanhas dos ermos do oeste. E sobre os pastos vão manadas quase atoladas em brejos ainda rasos. E laço e brisa e relva. O dia findado na ilharga das coisas que deixamos acontecer, até deitarmos nosso olhar sob a escuridão das pálpebras. Acordados ainda no outono da primavera. Do outro lado deste, ali no sonhar. Aqui onde o arco de pedra nos cobriu como a couraça de um dragão. Descendo a colina, cavalos domados. Teus cabelos voando, abraçada ao meu lado. Quero uma pintura para descrever tantas cores em um céu desconhecido por tantas vidas. Ainda são essas risadas que se misturam. E foi o firmamento que se calou para sussurrar as estrelas que te mostrei. Nas terras de um senhor que se pôs. Onde vivemos esta juventude até o cair das horas. Ouvindo o ronco do mar e o sibilar da brisa viva em melodia. E as estrelas nos invejaram quando nos amamos sob o véu da neblina em uma praia… a muito… a muito esquecida…

Ele corria pela rua brincando na chuva. Subia no banco da praça e pensava em voar. Abria os braços. Sorria sozinho. A vida parecia ser tão simples. Tão fascinante. Logo tudo mais seria um borrão de lembranças. Sem escola. Sem desenhos. Sem amigos. Sem família. Sem infância.
Sozinho na rua sobre uma folha de papelão. A roupa um trapo. Os pés descalços. E eu aqui do outro lado da rua. Olhava sem você perceber. Aqui na outra ponta do mundo. Sentia que poderia ser você. Segui o me caminho. Olhei para trás e vi você me acenar. Nunca soube o seu nome… mas obrigado… obrigado por me ensinar!