Vejam esses homens e mulheres que nós somos. Estamos sobre nossas sombras dentro de nossos caminhos. Vejam essas pessoas que estão felizes na fila por acreditarem que chegou a sua vez. Essa minha vez era a última que eu quero. Feito copo que cai cheio da mão que tem sede e arde. Desses pensamentos eu me desfiz no meio de um engarrafamento. Eu perdi as chaves quando o homem me apontou uma arma. Eu fui a vida que não fiz e vi que faço. Todas as noites são essas palavras que digo que leio. Eu sei que não sou o que acha nada disso é perfeito. Eu erro. Eu sou feio. Eu me visto antes de sair e me dispo antes de deitar. Eu acordo com um plano novo de que era tudo isso que eu queria e quero. Rezo. Essa voz que não sai cabe dentro de cada pálpebra que fecho. Acendo. Um desses caminhos que vão levar cada um dos meus pés ao sol do meio dia. Olha o mundo que gira. Esses homens que somos é. Dentro de caminhos que a gente tem para seguir em cada conta que paga. E o sorriso é um encontro com o abraço da noite. Quando fecho a porta e perguntam se chegamos. Essa vida que veio te inundar. Afoga tua no que teu abraço é feliz. Deixa que cada eco leve tua voz. Deixa essa coisa de falar que era pela metade o que tu não fez. Tu fez tudo que faz por vontade de ser. E seja. O homem não puxou o gatilho. E diga. O homem não puxou o gatilho. E viva.

 

quando laça teu cabelo
quando lança essa voz
sussurram as estrelas
de grão granula luz
no peito teu que toco
respira doce afago
que a vida é isso sim
quando estamos
quando somos
quando?
quando?
s.o.s

feito caixa de cordas
que assanha minha barba
aquele peito oco que faz eco
ouviu que sussurram as estrelas
de grão granula luz
a luz da lua na luz do mar
e o sabor que respira
e a vida que sorri
que não rima
mas quer

e foi então sorrir
no caminho dessa noite
cansados de não sei não ser
e foi desaparecer no verde
da pupila que o sol faísca
é forte feito pedra no mar
que sabe o que quer e ser
rema feito Mirmidão
às praias daquela guerra
que a gente vai morrer

feito caixa de cordas
onde arranha em minha barba
que eco ecoa ecoa cada
eu então estava ali
untado pelo sal
amado pelo ar
eu então estou nas mãos
que deixam algum perfume
que olham para olhos
por um silêncio que falo
por uma palavra que calo

feito caixa de cordas
que assanha minha barba
deitado em minha jangada
ouvi o que sussurram as estrelas:
“de grão granula luz”

Voei onde longe ar

Onde
Lu
AnAn
DaDaDa

Os pés sobre a areia do apartamento
Sobre o cimento do mar
Que longe até onde vai
Não respira sem o infinitivo do ar

Ando onde longe ali
Aqui
Ontem
Pela sombra soprar
Só pra ser só se sou ser
Será

És quem? Sabe?
Língua que desata
Que escuta e fala
Tu só será linguagem

Ser é ar
De átomo à paisagem
Em cada estrela
No céu da tua boca
Onde cai a mandibula
E encerra cada dia
O escuro que acende
Uma luz pela janela
É clara e míngua
Em tua tão nossa
Di
ViViVi
Di
DaaDa
Vi
DaaDa

Em alguma praia ou recife foi pescado grande cetáceo
Feito eu que me renderei à rede que escapo para ficar
Nesse sonhar de ponta-cabeça que escolho vou escolher
E que certo dia vou me afogar em tudo que tu me fez respirar

eu vi o mar contra aquelas praias
e o perfume do sal e do sol
os dias de casa se aproximam
é que distante posso não voltar
eu tornei meus sonhos reais
te vi chegar e partir para olhar
eu que nunca imaginei
esqueci quando acordei
dormi para lembrar

certo dia estive no mar sobre barco-de-pesca
refletia nos meus olhos tudo que via
cada onda que eu navegava
respirava e engolia

essas nuvens sobre o mundo
confortam o meu coração que sobe
essa luz que apaga
o escuro da pálpebra
que acorda o rosto pálido
das nossas mãos abraçadas
as nossas roupas
estendidas no corpo
a-m-as-s-a-da-s
aqui aquele domingo
as nossas risadas
e     s           p          a    l h     a d     a   s
pela sala
pela janela
pelos quartos da casa

aquelas nuvens sobre o mundo
confortam o meu coração que sobe

eu parei alguns minutos para parar de parar que comecei
que onde você acorda tua voz rouca é o frio da pele
olha colhe essas flores que caem pela janela de quem vive
essa tua cabeça é madura para pensar com o coração
e sem os julgamentos baratos e fáceis que estou farto de ver
infarto por saber que não sabem antes de falar que sabe
que nada disso é algo capaz de desenhar alguma coisa
que dirá que é verdade de uma parte que não cabe (o que te cabe?)
esses olhares falidos de corações pequenos que não batem
verdade é verdade, não existe um parte, não existe metade
mas escolhe sempre isso aqui que faz de uma parte
e se parte por não ser inteiro como ministério teu
o que bate é um caixa ôca de olhos que têm sede
porque era ele, porque era eu

o respeito ao indivíduo é duvidoso quando não suporta
algo diferente do teu mundo. este que te fez pensar que era tudo.
conheces apenas o que te apresentaram. sobre muito.
pois fez do teu riso uma reprise previsível
são as mesmas coisas tuas que envelhecem novas.

algo sobre Montaigne (1533-1592)
Parce qu’était lui, parce qu’était moi