o que sobra do tempo que tu mastigou?
que leva tu na fila dos teus pensamentos
um pacote de compras que no banco do carro
(…)
esquecido no trânsito que te acorda
vitrificado
na cama não dorme o que tu deita dentro de ti
não cabe dentro de nada
dentro do peito que carrega
aqui dentro de mim

aquela luz da janela do terceiro andar
morava num quarto de aluguel
desabava tua luz no olhos que guardavam
diziam todas as coisas quando fechavam
mergulhar por dentro até bater no fundo
o que sobra do tempo que tu mastigou?
na mandíbula que cai das alturas
que cala e mata e apaga
toda palavra que não sabe escrever
que para nessa hora para e pensa
(…)
é certa é quase é isso
aquilo que não vem
que nada
e nada no mar
aquilo que nunca ouviu
é rasa
e mata no ar
aquilo que nunca viu
é riso
e bate no peito
aquilo que nunca sentiu

o que sobra do tempo que tu mastigou?
que leva tu na fila dos teus pensamentos
um pacote de compras que no banco do carro
esquecido no trânsito que te acorda
vitrificado
na cama não dorme o que tu deita dentro de ti
não cabe dentro de nada
dentro do peito que carrega
aquilo que a gente não fala
que a gente guarda pra si

Azul no céu escuro das cidades feitas à mão. Deitados chegamos e partimos para flutuar. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Cada palavra dita mata. Que tu some e se desfaz em todas as tuas pegadas. No céu escuro um azul que dissolve o vermelho. Aqui nós estamos. Toda luz te acorda? Aquela que mergulha. Na lua que descia. A mesma que o sol amanhece. Quando dormia lembrava. Quando acordava esquecia. Mãos de extinguir espécies. Mãos de acelerar partículas. Nas cidades que são feitas. Aquele que somos nós. Que nós damos? Em nós que somos. Em cada um dos nossos que nós sonhamos. Adormecemos cada despertador. Aguardamos o seu toque. Acordamos com o seu furor. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Aqui. Nas cidades feitas à mão.

Toda luz te acorda?
Meus olhos precisam do escuro
Toda escolha ou sorte?
Meus pés… eles sentem o norte… eles pisam o mundo…

Passa tua boca
Na minha que é tua
De já não sei de quem
É a saliva que me lava
De quem?
É a língua que desata
De quem?
O coração que desarma
E me afoga
Nas tuas mãos
Pois eu cansei de ser raso
Me rasga
Pois eu cansei de ser pedaço
Me mata
No fim
Me mata
Em fim
Me salva

(…) Que louca é tua cabeça certa que sabe sorrir certa. Nada mais do que tudo é saber ser sem ouvir essa merda. Sabe dar ouvidos a nada que outro diz. É tão imundo ter um mundo pequeno. Mas tu. Essa personalidade que transpira e exala. Seduz os meus olhos cansados. É que tudo é tão isso mesmo. Tão raso. É morno. É frágil. Mas o teu pescoço é tão bonito. Segura sobre ele escolhas certas. Feito ponto final. Feito isso que vai e que volta entre os nossos olhos famintos. Feito parágrafo que abre. Olha firme. Palavras certas. Fala quase um sussurro. Seduz os meus ouvidos cansados. E me desperta. Olho surpreso. Que certa é a tua cabeça. É louca. Tão cara. É bela. E sabe sorrir quando beija. E me conta o que te contam nas esquinas. Somos canalhas para rir de mundos tão pequenos. E o teu pescoço segura essa cabeça. Não somos essa merda de gente que conspira. É que eu gosto dos que têm fome. Dos que morrem de vontade. Dos que queimam de desejo. Dos que ardem. Um velho conselho de Montaigne. É que ele era ele. É que eu era eu. E a gente só vive para morrer de viver. Do outro lado é como um espelho. E aqui a gente sabe o que pode dizer: eu vou passar na porta do inferno e sorrir quando te ver.

Ainda algo sobre Montaigne (1533-1592)
Parce qu’était lui, parce qu’était moi

Não seja essa merda de gente.

Guarda todas as palavras para o que vai dizer
Nada diz que escuta nosso silêncio antes de dormir
Em cada volta que tu dá e que fica esse ter
Outra mão que sabe o que quer não quer ir
Um perfume pela rua quando escolho onde passo
Mudo o mapa e o telescópio e descubro tudo isso
Era mudo o canal quando te cubro para dormir
E que vem amanhã explicar o que eu nunca sei
Mudo o tempo que vai a cada dito que não diz
Onde foi que larguei o leão que sempre cavalguei?
É que o destino sempre me quis sem ti sentir
No castanho do meu olho o dourado de um verde mar
Untado pelo sal que essa barba embranquece
Nas marcas dos ombros de cada noite nova
Daqui toda estrela que cai vai subir
No céu da minha boca que o verbo conjuga
Por um futuro-mais-que-perfeito
Era aquele pretérito-imperfeito?
Começa e termina até um dia partir
Volta e começa sempre novo de outro jeito
A vida é só isso tudo como tudo que a gente quer
Eu precisava por um momento encontrar as palavras
Ver este reflexo dentro de cada contorno
Ser o presente que sei em outra volta
E agora completo, começo e termino
Interrompido naquela noite por fogos de artifício
E volto ser novo, outra volta, mais uma nova
Outra vez…

 

quando laça teu cabelo
quando lança essa voz
sussurram as estrelas
de grão granula luz
no peito teu que toco
respira doce afago
que a vida é isso sim
quando estamos
quando somos
quando?
quando?
s.o.s

feito caixa de cordas
que assanha minha barba
aquele peito oco que faz eco
ouviu que sussurram as estrelas
de grão granula luz
a luz da lua na luz do mar
e o sabor que respira
e a vida que sorri
que não rima
mas quer

e foi então sorrir
no caminho dessa noite
cansados de não sei não ser
e foi desaparecer no verde
da pupila que o sol faísca
é forte feito pedra no mar
que sabe o que quer e ser
rema feito Mirmidão
às praias daquela guerra
que a gente vai morrer

feito caixa de cordas
onde arranha em minha barba
que eco ecoa ecoa cada
eu então estava ali
untado pelo sal
amado pelo ar
eu então estou nas mãos
que deixam algum perfume
que olham para olhos
por um silêncio que falo
por uma palavra que calo

feito caixa de cordas
que assanha minha barba
deitado em minha jangada
ouvi o que sussurram as estrelas:
“de grão granula luz”