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(…) Foi quando cheguei ao topo daquela torre de aço. Foi quando vi a luz do mundo sobre mim. Naquele dia de sol e frio, contemplavam os olhos de minha paz. E o sabor daquela brisa que me enchia os pulmões. E ali em me encontrei em perfeito estado de quem eu sou. O sol repousava sobre a minha alma estampada. No rosto que saudava uma vida até ali. E veio o vento assombrar a todos que riam e se entreolhavam. No meu lugar era a espuma de uma praia. Reinava escondida debaixo de cada pálpebra. E veio a noite estrelada. E o ar que nos roubava. Interrompidos, lembramos de um futuro que nós sonhamos. As miragens de Ishmael. E o sabor do mar em suas narinas. No alto daquela cidade era eu quem respirava. Como o sol iluminava. Iluminava. Aquele futuro-mais-que-perfeito. Aquele que alguém conjugava no pretérito. Aquele que nós escrevemos em cartas.

(…) Cada mastro uma flecha partiu. Veio do céu um furor azul. Ziguezagueando até nos alcançar. Bateu contra o mastro principal. Pulverizado pela fúria de uma tempestade. Éramos caçados por alguma augura celestial. Aquele Senhor nos condenava ao derradeiro naufrágio. Estaríamos juntos até batermos contra o fundo do pacífico. Brandei pelas almas que eram minhas. E contra o céu eu lancei o meu grito. Outra lança veio do alto e toda sorte estava perdida. A bujarrona inflamava como o sol. E o Senhor não revelou os seus mistérios. Aos poucos uma pálida esperança fulgurava. Um farol… um farol de pedra azul…

(…) Foi quando chegamos às portas daquele horizonte. Sentimos o perfume da terra molhada, enraizada até o céu que desmaiava. Pela estrada vendemos nossas armas ao caçador de Belmonte. Um olhar distante tocava as montanhas borradas. Éramos os primeiros a repousar sobre aquelas terras ermas. Homens de cores simples. De mãos fortes. Bravos corações gentis. Filhos de marinheiros, camponeses e reis. Estes que ouviram os primeiros dias. Foi quando chegamos. Aqui. Onde as estrelas são estranhas.

 

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Era luz do ar
Do-ar um coração
Era azul no mar
A-cor-de-om

Que nem toda vida, ela vem
Que essa tua palavra me faz
Por sorrir eu me atrevo
A respirar o azul do que vejo
Se era possível ter cor
No céu da boca que beijo

Era o ar da luz
Do-ar um coração
Era azul como a noite
Luto, negro, noturno, profundo
Era quase aquilo
Era quase absurdo
Aquilo que grita
Me ensurdece
Me deixa mudo

Era luz do ar
Do-ar um coração
Era azul no mar
A
cor
de
om
das

Era quase azul
Pelo oceano até a praia
Era quase um blues
Aquilo que a gente cantava
No mar até naufragar
Aquele farol de pedra
Nos confins de um horizonte
Ninguém sabia o que era
A luz azul do fim
O frio fim do azul
A cruz do sul ali
O sim de dois era um
Quem sopra a brisa?
Branca pluma leve vida
Aquele céu era quase azul
Aquele que nos faz feliz

(…)
Onde as estrelas são estranhas
Um verde da atmosfera anil
Narra aqui o fantasma de um navegante
De onde? A gente não sabe se existiu!

“Cada mastro uma flecha partiu. Veio do céu um furor azul. Ziguezagueando até nos alcançar. Bateu contra o mastro principal. Pulverizado pela fúria de uma tempestade. Éramos caçados por alguma augura celestial. Aquele Senhor nos condenava ao derradeiro naufrágio. Estaríamos juntos até batermos contra o fundo do pacífico. Brandei pelas almas que eram minhas. E contra o céu eu lancei o meu grito. Outra lança do céu, e toda sorte perdida. A bujarrona inflamava como o sol. E o Senhor não revelou os seus mistérios. Aos poucos uma pálida esperança fulgurava. Um farol… um farol de pedra azul…”

Era quase azul
Pelo oceano até a praia
Era quase ao sul
Aquilo que de longe brilhava
No mar até naufragar
Aquele farol de pedra
Nos confins de um horizonte
Ninguém sabia o que era
A luz azul do fim
O frio fim do azul
A cruz do sul ali
O fim de dois era um
Era quase azul
Era quase azul

Todos os dias ele atarraxa sua cabeça. Fica ali, presa ao pescoço num balanço cotidiano. Foi então que, certa vez, ele esqueceu de apertar e, por esquecido, saiu com ela frouxa sobre os ombros. Era fim de mês. Era o fim de uma fila lotérica num meio dia qualquer. Num solavanco da pestana deixou a cabeça cair. Atordoado, sem muito enxergar, se prontificou a recolher o precioso artefato. Ao tatear o cimento percebeu de que esta, muito provavelmente, já estava a rolar pela rua. De posse das contas, correu entre os carros que buzinavam. Esbarroado, abarrotado, desesperado… por não encontrar sua cabeça. Essa que girou por toda a ladeira e se perdeu em algum lugar. Voltou para casa quase cabisbaixo. Quase! Por algum milagre encontrou o caminho de volta, talvez pela força do hábito. E percebeu que muito do que fazia estava laçado ao maldito. Deitou para dormir e logo apagou. Triste, de fato, mas sem a ladainha dos pensamentos. No dia seguinte, chegou ao trabalho pontualmente. Poucas pessoas notaram que ele estava… bem vestido. A cabeça? Apenas o porteiro da firma. Foi então que ele percebeu, numa conversa junto à máquina de café, que seus amigos já não tinham ou não traziam a cabeça para o trabalho. “Eu deixo a minha em casa, é mais seguro!” Alertou um colega. Foi à delegacia registrar o corrido, mas foi advertido de que a fila era grande e de que outras tantas pessoas esperavam pela cabeça perdida. Muitas não registravam o desaparecimento e nunca mais voltavam para reaver o precioso artefato. Havia, inclusive, uma sala cheia delas. Sem muitas esperanças, aguardou confiante até esquecer de algo que já não poderia lembrar. Viveu pela trilha de uma rotina confortável. Ele simplesmente não percebia mais o que era óbvio. Suas atitudes não eram um completo assombro para outros que davam de ombros. Certa vez, numa crise amorosa, pediu conselhos ao amigo mais chegado. Mas que conselhos poderia esperar de alguém tal qual decapitado? Eis sua resposta: “todos os dias eu atarraxava meu coração. Ficava ali, preso ao peito num pulsar cotidiano. Foi então que certa vez esqueci, e por esquecido sai com ele frouxo pela rua…”

Na fila que espera fala do seu olho. Empurra mais um pouco dentro do umbigo aquele globo. Que diz ser ocular. Em um grupo criado para falar de quem com quem trabalha. Quando o sinal abre martela ao volante. E o mundo vira suas luzes no último dia do ano. Aos passos rápidos de quem coloca o seu todo como tudo. Quando chega ao fundo percebe o que cabe. Empurra mais um pouco aquele globo. E deixa girar. Saliva cada palavra que mastiga. E tem razão por ser o que diz. Na rua desmente cada verdade. Em casa assume cada mentira. O que espera ouvir quando se cala? O que sonha e o que pensa dentro do aquário? Pelas mãos escorre o óleo do motor que arma. Na sola de cada pé que não gasta. O lodo verde queima sobre as costas. E a vida é terrivelmente assombrosa. Começa e termina no mesmo ponto em que volta. Vai-vol-tar. Aos passos rápidos de quem levanta do seu túmulo. Empurra mais um pouco dentro do umbigo aquele globo. Que diz ser ocular. E deixa girar.

o que sobra do tempo que tu mastigou?
que leva tu na fila dos teus pensamentos
um pacote de compras que no banco do carro
(…)
esquecido no trânsito que te acorda
vitrificado
na cama não dorme o que tu deita dentro de ti
não cabe dentro de nada
dentro do peito que carrega
aqui dentro de mim

aquela luz da janela do terceiro andar
morava num quarto de aluguel
desabava tua luz no olhos que guardavam
diziam todas as coisas quando fechavam
mergulhar por dentro até bater no fundo
o que sobra do tempo que tu mastigou?
na mandíbula que cai das alturas
que cala e mata e apaga
toda palavra que não sabe escrever
que para nessa hora para e pensa
(…)
é certa é quase é isso
aquilo que não vem
que nada
e nada no mar
aquilo que nunca ouviu
é rasa
e mata no ar
aquilo que nunca viu
é riso
e bate no peito
aquilo que nunca sentiu

o que sobra do tempo que tu mastigou?
que leva tu na fila dos teus pensamentos
um pacote de compras que no banco do carro
esquecido no trânsito que te acorda
vitrificado
na cama não dorme o que tu deita dentro de ti
não cabe dentro de nada
dentro do peito que carrega
aquilo que a gente não fala
que a gente guarda pra si

Azul no céu escuro das cidades feitas à mão. Deitados chegamos e partimos para flutuar. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Cada palavra dita mata. Que tu some e se desfaz em todas as tuas pegadas. No céu escuro um azul que dissolve o vermelho. Aqui nós estamos. Toda luz te acorda? Aquela que mergulha. Na lua que descia. A mesma que o sol amanhece. Quando dormia lembrava. Quando acordava esquecia. Mãos de extinguir espécies. Mãos de acelerar partículas. Nas cidades que são feitas. Aquele que somos nós. Que nós damos? Em nós que somos. Em cada um dos nossos que nós sonhamos. Adormecemos cada despertador. Aguardamos o seu toque. Acordamos com o seu furor. No céu da boca que engole o mundo. Nossas vidas desfragmentadas se espatifarão. Aqui. Nas cidades feitas à mão.

Toda luz te acorda?
Meus olhos precisam do escuro
Toda escolha ou sorte?
Meus pés… eles sentem o norte… eles pisam o mundo…