aquele homem com terno. terno sujo. aquela mulher com olhos. viva e respiração. quando sobre o meu corpo que passava a língua. era o único idioma. e a ciência me explicava merdas. apresenta ao final da palestra que ossos reverberam com o som. então ferver os nossos corpos em óleo pode queimar a alma. e a gente pode até derreter. eu vou passar na porta do inferno e sorrir quando te ver. desfaça o que fez o que acha. essa certeza é uma grande mentira que você engole antes de dormir. eu pensei estar caindo. pisei um degrau e o meu pé saltou. não era metade. era pior. era verdade. (apague essa frase). naquela estrada todas as noites naquela cidade. naquela cidade todas as noites naquela estrada. alguém me apontou uma arma. eu não sabia que anjos tinham porte. quando houve o acidente. quando entrei debaixo daquele carro. quando dormia lembrava. quando acordava esquecia. foi a música que atravessou o nosso sono. esquecemos aquela vitrola ligada na sala. e o dia nasceu sobre as tuas costas. já se passaram alguns anos. ou foram algumas horas? vi um pássaro pousar sobre teu ombro. então veio despida. aquela mulher com olhos. viva e respiração. reverbere. dissolva. apague. transpire. delire. eu estava atrás do espelho. atado. existe no globo ocular um incrível sistema capaz de regular o foco. leia o manual. verifique se não está desligado. passar a minha boca na tua para ter certeza do que sinto. tentar alcançar o sistema cardíaco. quando a fumaça revelou o que não existia. foi a música que nos trouxe até aqui. nesta cidade que não quer amanhecer. uma mulher que sabe ser de verdade. eu não sou esse que aquele disse sobre o que deve ser. como a rubra quimera negra (leia). é como as mãos sujas e a barba por fazer. é como a madrugada que ouve as minhas palavras. é como a tinta e o café. é como o perfume. o teu perfume. ainda no corpo quando chega o dia. é como a gente acorda. e pela manhã vestes este terno. aquele homem com terno. terno sujo. aquela mulher com olhos. viva e respiração. quando sobre o meu corpo que passava a língua. era o único idioma. e a ciência que me explicava merdas. apresenta ao final da palestra que ossos reverberam com o som. foi quando nos balançaram com a verdade. e a gente vai derreter. então ferver os corpos em óleo pode queimar a alma. eu vou passar na porta do inferno e sorrir quando te ver.

essas palavras não dizem porra nenhuma. que se disser eu não sei o que dizer. eu não escrevi. eu só ouvi uma coisa que não sei se sonhei ou se vivi. eu não sou este. não fui. sou aquele, aquilo. não sou o que visto. ando sempre nu. nado despido.

e a gente veste um terno por cima de tudo. esse sim… é imundo…

And after all we’re only ordinary men.

 

Para engraxar sapatos você precisa de algum tempo. Tempo para envelhecer. Tempo para amaciar. Tempo. Para engraxar sapatos. É que sapatos novos não precisam dos mesmos cuidados. Tão pouco dizem algo sobre seus passos. Sobre cada história que passou bem debaixo dos teus pés.

Aconteceu então que ao caminhar por aquela cidade encontrei um senhor de meia idade. Ao notar a banqueta e todo repertório do ofício, percebi uma boa oportunidade para cuidar das botas gastas. Tinha barba. Não muito grande; era branca. Tinha mãos fortes e unhas sujas, usava roupas velhas e exalava um cheiro de graxa. Quando tentei negociar o preço por seus serviços não me respondeu de pronto. Buscou algo no bolso do sobretudo e estendeu a mão exibindo algumas moedas. Ficou claro a ausência de um idioma capaz de nos conectar. E na ausência das palavras, iniciamos um jogo de gestos que acompanhávamos com os olhos. Pediu com educação que sentasse na banqueta. Apontou para o meu pé esquerdo. Seria o primeiro. Abriu uma antiga caixa de madeira e, pouco a pouco, retirou o seu conteúdo. Frascos, escovas e suspiros. Apontava para as pequenas latas com cores diferentes. Percebi naquele momento que aquelas poderiam ser suas melhores amigas. Estendeu uma escova e, num gesto, pediu que eu passasse a palma da mão sobre ela. E sobre outra. Tentava mostrar a diferença, compartilhava o seu mundo no tempo que era seu. Senti com alguma certeza de que aquilo seria especial, para ambos. Talvez mais para mim, para quem ele tentava ensinar algo. Para engraxar sapatos nos tornamos cúmplices de histórias. Das nossas; do outro. Sobre pés, calçados e escolhas. E logo ficou claro que estávamos a conversar. Conversávamos. Que contávamos histórias. Entre um gesto e outro, no tempo necessário para untar as botas e revelar o seu antigo brilho. E os olhos se abriram. Para surpresa de quem agora eram como amigos. Compartilhamos algo. Acho que foram os nossos caminhos, as nossas incertezas sobre o que já vivemos até aquele último dia do ano. Que escolhas fizemos para os nossos pés? Que escolha faríamos? Depois de lhe pagar pelos serviços nos cumprimentamos num demorado aperto de mãos. Agradecido, segui caminho pela rua enquanto o ouvia guardar seus pertences. Eu sempre tento lembrar o seu nome. Mas, por algum motivo, não consigo, mesmo tendo ele repetido ca-da-sí-la-ba. No dia de minha partida o procurei naquela mesma rua, mas não o encontrei. Lembrei do aperto de mãos e do cheiro que ficou em minhas roupas. Lembrei que, para engraxar sapatos, você precisa de algum tempo. Tempo para envelhecer. Tempo para amaciar. Tempo. Para engraxar sapatos.

Para o senhor que morava na rua, ao lado das escadas da estação Le Gobelins, em Paris. Obrigado por cuidar dos meus sapatos. Vou cuidar de passos certos.

Naquela manhã de natal o Sr. Coelho decidiu acordar primeiro. Sem que Sophia fosse capaz de perceber, deixara sua cama e o seu carinhoso abraço, colocando em seu lugar uma pequena almofada. Driblou a porta do quarto da mãe e as cadeiras da sala. “Ufa, o gato não está aqui”, pensou. Foi na ponta dos pés, digo, das patas de pelúcia, até a cozinha. Restava muito pouco agora para o tão esperado momento. É que o Sr. Coelho só desperta nas manhãs de natal e, naqueles curtos minutos, tentava de tudo para saciar o seu desejo por comida. Leite, mais precisamente! Sim, aquela barriguinha fofa era muito bem recheada. Abriu então a geladeira depois de um grande esforço. Ele já havia visto e entendido como aquela caixa enorme e branca funcionava. O Sr. Coelho sabia dos tesouros ali guardados. No entanto, quando finalmente abriu a porta, foi tomado por um frio repentino. Aquilo o assustou um pouco, uma vez que estava acostumando a temperaturas mais confortáveis. Disposto a continuar com sua investida, escalou com dificuldade as prateleiras e, quando finalmente alcançou o que tanto desejava, escorregou e caiu. Mas não antes de acertar o leite com a cauda de pelúcia, derrubando-o no chão e despejando o precioso líquido pela cozinha. Tomado pelo susto e por toda confusão, correu de volta para a cama, para os braços de sua dona. Triste, de fato, por não conseguir tomar o precioso leite. A mãe, ouvindo todo aquele barulho, pulou da cama e foi até a cozinha. Nesse instante, o coelho ficou imóvel. Percebeu então, naquele último minuto mágico dado pela graça do natal, que fora visto o tempo todo: Arthos, de dentro do seu berço do outro lado do quarto, o olhava em silêncio. E na cumplicidade de seus corações trocaram sorrisos, um sinal de que aquele segredo estaria para sempre guardado entre eles. Restava agora ao Sr. Coelho esperar pelo próximo natal. Quem sabe, com um pouco mais de sorte e astúcia, possa então alcançar o que o seu coração, digo, sua barriga deseja. Então fechou os olhos e nos braços de Sophia adormeceu mais uma vez.

Para Sophia e Arthos

Ferva a água enquanto sussurra. Respire o vapor da máquina de chá. Colha pensamentos do seu dia. Pondere e esqueça até sibilar. Apague o fogo da pedra. Cuidado com a coruja que quer despertar. Sirva com mãos limpas. Escolha a xícara de ágata do mar. Espere os olhos fecharem. Não descubra nunca. Entenda a hora de servir. Vá até a estante e escolha um livro. Na hora da efusão tu até podes rir. Sentado sobre os ponteiros do relógio. Algumas voltas para terminar. Sirva em silêncio. É este o momento. Para a primeira pessoa do singular.

Eu o ouvia subir as escadas. Em seu passo, cada passo. Paciente Monsieur. Ele buscou as chaves e abriu a porta com dificuldade. A casa vazia lhe dizia o que muito pouco mudou. Retirou o casaco e colocou o livro sobre a mesa. Puxou uma cadeira e procurou aquela flor que lhe marcava as páginas, que lhe marcava o coração. Badalavam as horas do mundo quando um perfume antigo invadiu seus pensamentos. E o vento murmurou. E percebeu que uma janela fora esquecida aberta. Fez-se ouvir a chuva antes de procurar a cama. Tomou o porta-retratos e o beijou. Em seu pequeno sorriso reinava uma ternura sem fim. Apagou o abajur e fechou os olhos. E com uma nova certeza procurou dormir.

Quando passei pela Rua das Oliveiras pensei ter visto você. Enquanto dobrava a esquina senti meu passo diminuir. Foi por um instante, apenas. Um pouco depois de sentir o cheiro de tinta fresca. Era natal na Rua 9 quando terminamos de pintar a casa. Eu ouvia sua voz chamar o meu nome. Seus óculos segurando o cabelo. Sua mãos espalmadas em um avental. Como são os teus sonhos? A gente tinha aquele sorriso de cumplicidade no rosto. Paramos o carro outrora em um caminho verde. Isso foi um pouco antes de alcançarmos o mar. Tu que sabes ouvir palavras e falar com o silêncio. Neste círculo sem curvas onde laçamos estrelas. Somos capazes de atravessar o oceano para conquistá-las. A gravidade roubando nossos anos enquanto estamos a girar. Pouco a pouco envelhecemos esses átomos ao redor deste sol. E mais uma volta. Outra nova a cada vez. É que lá do alto vejo a cor do teu céu. O sussurro dos nossos sonhos. A matiz do meu mar. Eu que ainda não sei dessa outra parte. O que foi do começo. Não sei como vai terminar. Tenha os pés firmes nos teus sonhos quando for. E faça disso uma âncora. Pulsa em cada dia um sorriso por viver. Este sentimento nos faz tão bemAs roupas iguais de nossa infânciaDe onde vem essa vontade de transformar o vazio de uma página? Talvez seja por este futuro-mais-que-perfeito. Abre os meus olhos o dia que começa. Eu vejo o azul se misturar. O que vem depois? O que o fogo respira? Eu não sei dançar. A rosa dos ventos me contou em que janela vou te ver. Esta estrela que lacei. Escolha bem o que vai lembrar. Quando fomos interrompido por fogos de artifício. Lá do alto. On the Endurance. Eram sete cantigas para voar. Respira tua vida. Nas tuas mãos tem um leme. Este que é só teu. Olha lá! Quem vem? Que histórias tecem suas barbas? Homens dos sete mares. Almas de sal. Eu precisava por um momento encontrar as palavras. Este reflexo dentro de cada contorno. Ser o presente que sei. E agora completo. Começo e termino. E volto a ser novo. Mais uma vez. Outra volta. Mais uma. Trinta e três.

Quando passei pela Rua das Oliveiras pensei ter visto você…
Para A&T

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esse azul que caiu no chão
não desbota, não se vai
esse varal de janelas
quem me viu passar?
dançando contra o vento
muda pra lá, muda pra cá
esse azul que subiu
subiu bem de-va-gar
eu era esse ali que vem passar
esse aqui sou ele que te viu
quem sabe sonhar?
quem sabe acordar?
esse azul que caiu no chão
não desbota, não se vai
vai navegar, vai navegar
naquela varanda sentado
era café
não era chá
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