Senhores dessa rubra quimera negra. Âncoras partidas e velas acesas. O naufrágio de Miranda em mares turbulentos. Eis que o guardião da luz tomou o caminho para o Farol de Pedra Azul. Olhando para o horizonte desesperado de terrores. Soube em seu coração que o dia era um sonho antigo. E naquele momento a grande onda o alcançou. Incontáveis lembranças de um cronógrafo e o sabor do perfume do mar. Este que navegava em seu coração. É que a chuva acendia aquela lareira de pedras frias. Saberiam agora que naquela casa reinavam estes reis. A tempestade era teu elemento. “Enquanto você mantinha o seu orgulho eu morria deitada ao seu lado. Acorda-me depressa! Seguirei nesta vida no balanço de um barco? Eu quero aquele sonho. Aquele acordado! De quando fechava os olhos. De quando o mundo era um abraço”. E veio aquela tormenta do céu. O fim de todas as coisas. Uma fortaleza despedaçada sem forças para respirar. E no peito o farol fora atingido. Seus fundamentos balançaram e um grito ecoou. Um milhão de faíscas e sedimentos, tijolos, janelas, lembranças e lamentos. A ruína do presente. Por três vezes uma lança azul caiu do céu. Certa como uma seta zen. Furiosa como os dentes da mandíbula. E veio um clarão de memórias. “Somos uma corda com três nós”. Desatinos de desafetos desatados. Era mistério de palavras escondidas. Sussurro do coração. Vontade inebriante. Pecado sem perdão. E mais uma vez o mundo balançou. E o horizonte vociferou um final. Miranda viu uma sombra dentro da luz. Num gesto rápido a última esperança de Benjamim. Eis que ele ergue a lanterna sobre a cabeça. E por um instante tudo parou. Pintados em um momento, iluminados pelo clarão repentino, seus olhares se cruzaram. E ela o viu uma última vez. Buscou ouvir o que dizia, mas tão pouco conseguiu. E quando finalmente seus olhos se tocaram uma grande explosão aconteceu. Era como o dia. Um corpo em chamas banhado pelo óleo. O fogo vivo que riscava o céu fez de todas as luzes uma faísca. E um caminho seguro se mostrou para Miranda. Seguiu pelas pedras escarpas até alcançar terra firme. E quando se viu a salvo de todos os perigos uma última lança caiu do céu. Olhou repentinamente para ver a imensa coluna de fogo ser pulverizada. Colossal testamento da força que acendera um céu sobre a terra num milhão de faíscas. Interrompido por fogos de artifício para iluminar o oceano que se acalmara. E Benjamim não estava mais ali. Eram estas as cinzas levadas pelo vento. Como o mundo pode ser esta terra de milagres? Outra vez vem o sol mostrar sua coroa, sua verdade. Proclamará que muito se fez e se fará por uma vida feita de passos livres. E se esta escolha for certa… valerá toda vontade que brota dos teus olhos sinceros. E naquelas pedras de uma madrugada ela esperou… e esperou… até um novo dia chegar…

“Nas horas seguintes o terror tomou conta de mim. No frio da madrugada encontrei o teu cronógrafo jogado no chão. Na contra face que se abre descobri que ainda guardava a minha foto. O que passava pela tua cabeça nas noites em que contemplava? Vejo o vermelho tingir o horizonte. Então descubro que o senhor da luz não era um sonho. Ele veio novamente amanhecer os nossos olhos. Aos poucos aquecendo as ondas, tocando a minha face, alimentando todas as matizes da primavera. É que agora não existe moinho. Só a lembrança do que um dia guardamos em segredo, no despertar daquelas horas… brindávamos naquela casa… naquela cozinha. E o vento assombrava as cortinhas de uma janela… nos nossos sonhos ainda estamos juntos… naquele domingo…” Ass: Miranda

O Naufrágio de David Friedrich se desenhava. Ao final era tudo mais o que restava? Das alturas o mundo desabava, dissolvia, tremulava. Como em uma janela nos Rochedos de Rügen, Benjamim lançara seu grito de horror. Caiam dos céus maravilhas luminosas incontáveis. Fascinantes. Mortais. Abriam fendas na terra. Erguiam ondas no mar. E naquele castelo de proa Miranda alimentava seu último suspiro de esperança. Seus laços amarrados ao coração daquele homem. Esse que guardara em segredo seu último sorriso. E o guardião da luz proclamava sua súplica ao alcançar o portal da torre. Esta esperança que bate no teu peito pode vencer o medo da noite? Pois somente nosso Senhor sabe das horas que nos esperam até o amanhecer. Pode o mundo voltar a ser o que foi um dia? Pois somente o coração encontra discernimento sobre aquilo que não conseguimos perceber. É que a hora chega fria aos desejos apagados pela vida. Exaustos de tanto acordar para acender uma luz neste horizonte. Olhastes para o futuro que espreita essa aquarela borrada na taça cheia. E tantas vezes ignorastes este astro. “Venha, venha! Nasce novamente! Apaga esta noite com o fogo. Revela a verdade destes caminhos. Acende o meu coração de novo…”

Do horizonte o farol resplandecia seu fosco azul escuro, borrado, ondulado. Tremulava como pedra negra. Forte como os fundamentos da terra.E uma pálida vela viva morta pelo vento. Levaria muito tempo para se entender os motivos do acaso e os planos do destino. Que linhas eles traçam? Que sorte eles lançam? É que muitos caminhos foram cruzados. E no instante seguinte tudo mudou. Acontecia que, lá do alto, Benjamim esbravejava, como flâmula em seu mastro de mezena. Pela luneta a certeza do que estava por vir. Naquele horizonte oeste a tormenta arrebentava a linha do mundo. Eis que caravela apontava no horizonte sem imaginar que sua velas seriam açoitadas e sua âncora partida. Estava ali! E, no entanto, descendo as escadas tropeçadas, o porteiro da luz ouviu o mundo rugir. E tudo balançou. E ele caiu. E sem a pólvora e sem fogo e sem a luz. Escarpas rochas salivavam à sua porta esperando o último suspiro de um naufrágio. E a loucura tomou conta das ondas que o primeiro raio partiu. E veio uma brisa fria, uma gota, uma ventania. E veio o fim do dia, da noite, da matiz. “Volte, volte, volte” gritou Benjamim. “O dragão não é moinho. Volte, volte, volte!” Vociferou. “Não tenho como acender uma luz para o teu caminho. O mar te chama de volta, mas tu não vai aportar.” Naquela altura o navio jazia preso a órbita de seu destino. Da janela baixa o porteiro saltou para península que avançava sobre as agulhas. E veio a torrente do céu. Lavando o mundo como se o oceano estivesse sendo despejado lá do alto. E com a morte em seu rosto Benjamim gritou contra o mar…

Eu era pronome
Era um nome
Eu será palavra
Erra conjugada
Eu seria futuro
Mais-que-perfeito
Se fosse no peito
O mesmo desejo
De ser conjugado
Conjuraria
Sem ser julgado
Julgaria
O meu pecado
Por imperfeito

Quando o barco estava em alto mar. Foi onde mergulhamos. Aquele recife da cor do céu. Acordamos. Viveríamos uma vida cheia de sabedoria. Ouvindo a chuva lavar as nossas almas abraçadas. Cansadas. Doce e leve espírito. Cheia de ternura. Você sempre foi essa criança. Que sorriso eu perdi? Que palavras eu não soube dizer? Sobre as minhas mãos o peso de escolhas desenhadas. Rabiscadas. Quase apagadas. Aquela brisa não pode voltar? Quando as estrelas eram capazes de beijar os meus olhos. Naqueles quadros sem foto que você colocou na parede. Uma vontade de pintar os momentos que sonhei. Que ternura pode ser mais linda que o teu coração? Que vestido pode ser mais branco que o teu? Feito de algodão. No seu sorriso eu guardei uma verdade. Que a vida é cheia de mistérios. Mas as tuas certezas sempre foram maiores. Dia leve de braços dados pelas horas do sol. Nas páginas de um livro que saboreamos. Desejava uma máquina capaz de atrasar as horas do mundo. Antes que fosse interrompido por fogos de artifício. No sussurro dos nossos destinos guardados. É que sonhamos. Mas acordamos humanos. Talvez fosse por um futuro-mais-que-perfeito. Eu queria um pouco daquela sabedoria. Mas só sei sentir e pensar. O que me resta? Vou pintar então as paredes do meu quarto… da cor do teu céu… da cor do meu mar…

Naquele município o lixo
era recolhido por uma burra.
Puxava carroça.
Parava. Cansava.
Brava, brava!
Prefeito prestou conta.
São 365 sacas de
milho pra guerreira.
“Ela come uma saca por dia.”
Magra, magra!
Morreu de fome.

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