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li em contos de terror que todo azul é cinza
que todo cinza dor
li em contos de escrita que minha mão é suja
pinta sem ter cor
ri por saber que a vida é curta
e toda luz do universo cabe no olhar
toda rua que atravessa desaparece
e o mundo gira mudo
mudo
muda
sem mudar

li em algum lugar

estive no oriente
fiz questão de não me levar
um círculo sem curvas
horizonte sem linha
efígie de quilate
para me ver brilhar

aqui no naufrágio
o inverno é difícil
e durmo com a mesma roupa
que eu arrastei pela lama

acordo de um outro novo sonho
flutuando pelo quarto
deitado em minha cama
caio das alturas sobre nuvens
travesseiros e lençóis
e toda noite amanhecia
eu quando dormia lembrava
eu quando acordava esquecia

li em contos de terror que todo azul é cinza
se for toda cinza flor
acordo outra vez
do meu sonho mais bonito
que a vida que agora se fez
li em algum conto
o mesmo
outra vez
outra vez

li em contos de terror que toda cor é cinza
que este cinza não é cor
li em contos de escrita que minha mão é limpa
pinta sempre a mesma dor
ri por saber que a vida é curta
e toda luz do universo cabe no olhar
toda rua que atravessa desaparece
e o mundo gira mudo
mudo
muda
sem mudar

foi o que eu li
em algum lugar

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FOTO

Quarto 1809. Era a primeira vez que estava naquela cidade. Era a primeira vez que usava aquele perfume. A noite chegava com uma luz agradável enquanto vestia aquele terno. A música preenchia o ambiente com um novo sabor. O anfitrião preparara um jantar para a nossa despedida enquanto os ruídos da festa entravam pela janela entreaberta. Uma cortina assombrada pela brisa me trouxe um sorriso diante do espelho. Foi quando abotoei as mangas. Foi quando bateram à porta. Sem muita pressa, caminhei e retirei a alça do olho de vidro, mas o corredor estava vazio. Ao destrancar,  me deparei com uma pequena surpresa. Sobre o carro de serviços repousava um envelope e um pequeno vaso. Nele, um cacto mil cores.

Templo. A comida era um novo tempero. Plantas, ervas, legumes e mariscos. Ao longo das horas em que estávamos a plantar para colher, aprendi a cultivar. Era aquele o perfume da terra que untava as minhas mãos. Contemplei o meu labor com uma simples alegria. Algo sobre estar ali longe do mundo. Foi então pelo entardecer que seguimos por uma trilha em fila indiana. Passamos por uma cerca viva de cravinas. Era a primeira de muitas até o templo. Usávamos uma corda para trespassar nossas mãos e cinturas. Pelo lado direito da ilha se agigantava um abismo de pedras brancas e nuas. Uma ameaça constante a nossa vertigem. Estávamos ali, ilhados de sinais por aqueles dias. Cruzamos os portões e a última cerca viva onde cresciam pequenas rosas brancas. Seu perfume era inevitável. Avistamos o templo de pedra onde prepararíamos a nossa refeição. Havia um passadiço escondido sob o rio por onde as pedras saltitavam num intervalo de um passo curto. Era o último obstáculo até o terraço. Sabiamente e naturalmente, lavávamos os nossos pés antes de chegar ao jardim, antes de colocar os pés sobre aquele solo.

“Ouve bem o som da brisa. Sente os teus pés sobre as pedras. Deixa a água lavar. Esse rito faz parte de algo que construiu esse caminho por séculos. Deixe a vida e seus ciclos. Ouve tudo isso ser teu apenas por um momento para te trazer aqui. Nada é verdadeiramente nosso. Todo ar que prende te sufoca. É preciso soltar para respirar. E então recomeçar, tomar novo ar. Toda água que banha evapora. E só assim ela volta a ser cristalina e pura. Ouve bem o som da brisa. Há algo que o rio sempre sussurra entre pedras e cascatas: o mar nos chama de volta.”

Julie Byrne & Eric Littmann – Spain
https://www.youtube.com/watch?v=qlFzzdEwYyo

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Portulacaria Afra. Ela crescia em silêncio em um pequenino vaso posto sobre um móvel da sala de estar. E eu a encontrava todas as manhãs para o desjejum. Havia sempre a cumplicidade de um silêncio entre nós. Eu não falava. Nem ela. Nada. Após o café, a segurava com as duas mãos e a carregava até a janela. Quando o sol a tocava, ela balançava seu corpo. Pouco a pouco sentia toda água lhe lavar as folhas até a raiz.

Clethra Alnifolia e Cravinas. Na Rua da Alegria existia e, pelo que me consta, ainda existe, uma imensa estufa vitoriana de ferro e vidro. Ali, cresce uma grande variedade de rosas. E mesmo nos invernos mais rigorosos, todo o arco e claraboia abrigam algumas das mais delicadas espécies. Dona Dominga cuida bem delas, com muita atenção e cuidado à mudança de temperatura do ambiente. Entretanto, após um rigoroso temporal, parte da estrutura de ferro se partiu. Por um longo tempo eu a vi aberta ao tempo. Foram longas semanas. Logo eram meses. Em um dia chuvoso, se não me falha a memória, lembro de ver Dona Dominga com um vaso de Cravinas deixando o local pouco depois de trancar uma das grades com um antigo cadeado de madeira. E veio a chuva, o frio, o tempo e o vento.

Mil cores. Certa tarde, pouco depois de desfazer as minhas malas, decidi fazer uma caminhada para o reconhecimento do lugar. Seguindo a orientação de um antigo morador da região, aquela trilha me levaria à murada da encosta sul. Seguir para o sul sempre me soava confortável: era como descer uma ladeira. (…) Outrora, esta região funcionava como um grande estaleiro onde ainda é possível encontrar um conjunto de embarcações, âncoras e madeiras que denunciam o tempo. Tudo que o sol pode corroer pela fome do sal. Andando mais um pouco pela trilha, encontramos um grande campo com vista para a murada e depois o mar. Há ali uma casa de pedras onde já não mora ninguém. Ou pelo menos, era isso que imaginava. É que alguém estava deixando o local no momento em que cheguei. E mesmo ao longe, pude perceber o que levava nas mãos. Era um vaso. Nele um cacto. Um cacto mil cores.

Essa é a terceira parte de três partes de um conto que sempre tentei. Que sempre esquecei.

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Era noite quando a chuva veio. A brisa e o perfume denunciavam. Não fechei as janelas de madeira que se abanavam ao sabor do vento. A pouca luz do abajur iluminava o meu corpo e a sombra. E o tempo parou. E ela caiu sobre o telhado acendendo o mundo. Sem muitos planos e pouca pressa, desci para a rua com a pouca roupa que vestia. Lembro de não planejar algo sobre isso. Lembro de caminhar pelo banho de chuva de pés descalços. A água me lavou. E o vento forte, que era frio, me inundou. Até que as estrelas apareceram. Eram lâmpadas mágicas. E para elas fiz meu último desejo. Elas me olhavam. E elas me diziam. Que você estava feliz e bem. E eu fiquei feliz por imaginar. Espero que a chuva chegue até você. E que todos os motivos para não sorrir desapareçam. A vida estava cheia de coisas que não foram ditas. Lembrei das palavras de Hosana. De suas mãos enrugadas segurando as minhas pouco antes de ouvir alguns dos mais preciosos conselhos. No caminho de volta, olhava pela janela e lembrava daquelas palavras. E quando o sol apareceu, vi o dia novo de uma estrada contornando o mundo até o mar. Ali, onde as estrelas são estranhas.

Para R.
Obrigado.

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As partes que somam a equação que quantifica cada uma das tuas ligações químicas em raios que não são claros como os olhos que resolvemos fechar para que toda luz seja essa mesma ao acordar por outras razões aquilatadas a cada novo ser que verbaliza tua linguagem quando cala tudo que há de terrível em si por si em mim em ti sobre a efígie que nos encontra sob a superfície que arranha que arranha que arranha a pior palavra que afoga e pulveriza o que nos mata de viver antes que tudo seja o mesmo ciclo capaz de mover a vida e enganar o que respira para não assumir cada uma das partes de uma razão dentro de um precioso fluxo de pensamentos que acontece pouco antes do sinal abrir para que a vida seja tua e nada mais seja teu onde o ponto que começa e termina essa linha vai dizer sobre o futuro-mais-que-perfeito ao tecer ao tecer ao tecer o que fizer que será que quiser ou o que quis dizer antes de tudo e de nada que mata que mata que mata e faz viver para que ele acorde por dentro e por fora revelando o avesso por ser mais que um nova ou a mesma noite antes do dia ser lançado no conforto do aço para o verso do espelho que nos faz acreditar que ele dorme e nunca nunca nunca vai acordar.

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Toda essa luz. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Pela janela estava todo o mar. As ondas quebravam por toda noite até o dia. Por todo pelo, barba, fumaça e sal. A pele queimada de sagrada penitência. E toda luz que eu fotografava. É que eu estive de volta ao ministério. Lá e aqui. Onde o cronógrafo das últimas horas ferve toda temperança. E tudo parecia se encontrar dentro daquelas palavras. E o silêncio. Ora a escrever. Ora a apagar. Nesta casa que permanece vazia. Por certo tempo. Por uma longa noite. Por dois longos dias. E toda essa luz sobre os olhos. Inundada pelo mar. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Quando me despia, vestia. Quando lembrava, esquecia. E toda essa luz. Sobre a pele que ardia.

But on a Sunday morning sun
Solo sunrise

#fib_Travessa_De_Cedofeita

Outrora a luz pela janela e o frio
Há poucas semanas tudo tanto mudou
E pensar que fomos convidados a partir
Você me diz o que fazer
Com quem andar, aonde ir

(…)

O que você fez do sentimento que te dei?
Aquela praia é a chuva e o verão
Aquilo que não consegui dizer
Que escrevi para guardar
Aquilo que existe e não se vê
Aquilo que precisava falar
Que ficou ali
Que ficou em mim
Em algum lugar

(…)

Ficaram coisas espalhadas pela casa também
E os caminhos que acordam meu seguir

(…)

Na rua de antiquários, pouco antes do fim do dia
Encontrei encouraçado em um anel
As palavras que eu precisava dizer
Cabe em um círculo que recomeça
Se você souber vai conseguir entender
As letras, eu contei até 18
Dentro de um círculo gravado
Que se multiplica
Oito vezes 8

(…)