Voei onde longe ar

Onde
Lu
AnAn
DaDaDa

Os pés sobre a areia do apartamento
Sobre o cimento do mar
Que longe até onde vai
Não respira sem o infinitivo do ar

Ando onde longe ali
Aqui
Ontem
Pela sombra soprar
Só pra ser só se sou ser
Será

És quem? Sabe?
Língua que desata
Que escuta e fala
Tu só será linguagem

Ser é ar
De átomo à paisagem
Em cada estrela
No céu da tua boca
Onde cai a mandibula
E encerra cada dia
O escuro que acende
Uma luz pela janela
É clara e míngua
Em tua tão nossa
Di
ViViVi
Di
DaaDa
Vi
DaaDa

Em alguma praia ou recife foi pescado grande cetáceo
Feito eu que me renderei à rede que escapo para ficar
Nesse sonhar de ponta-cabeça que escolho vou escolher
E que certo dia vou me afogar em tudo que tu me fez respirar

eu vi o mar contra aquelas praias
e o perfume do sal e do sol
os dias de casa se aproximam
é que distante posso não voltar
eu tornei meus sonhos reais
te vi chegar e partir para olhar
eu que nunca imaginei
esqueci quando acordei
dormi para lembrar

certo dia estive no mar sobre barco-de-pesca
refletia nos meus olhos tudo que via
cada onda que eu navegava
respirava e engolia

essas nuvens sobre o mundo
confortam o meu coração que sobe
essa luz que apaga
o escuro da pálpebra
que acorda o rosto pálido
das nossas mãos abraçadas
as nossas roupas
estendidas no corpo
a-m-as-s-a-da-s
aqui aquele domingo
as nossas risadas
e     s           p          a    l h     a d     a   s
pela sala
pela janela
pelos quartos da casa

aquelas nuvens sobre o mundo
confortam o meu coração que sobe

eu parei alguns minutos para parar de parar que comecei
que onde você acorda tua voz rouca é o frio da pele
olha colhe essas flores que caem pela janela de quem vive
essa tua cabeça é madura para pensar com o coração
e sem os julgamentos baratos e fáceis que estou farto de ver
infarto por saber que não sabem antes de falar que sabe
que nada disso é algo capaz de desenhar alguma coisa
que dirá que é verdade de uma parte que não cabe (o que te cabe?)
esses olhares falidos de corações pequenos que não batem
verdade é verdade, não existe um parte, não existe metade
mas escolhe sempre isso aqui que faz de uma parte
e se parte por não ser inteiro como ministério teu
o que bate é um caixa ôca de olhos que têm sede
porque era ele, porque era eu

o respeito ao indivíduo é duvidoso quando não suporta
algo diferente do teu mundo. este que te fez pensar que era tudo.
conheces apenas o que te apresentaram. sobre muito.
pois fez do teu riso uma reprise previsível
são as mesmas coisas tuas que envelhecem novas.

algo sobre Montaigne (1533-1592)
Parce qu’était lui, parce qu’était moi

Todos os dias, antes pouco depois de um café, durante aquelas momentos de chuva e sol em que minha casa é lavada, leio que minha gente segue sob as leis de senhores imorais. Todos os dias, mês após mês. Deste horizonte eu vejo a tua foto com ela, com aquela criança nos braços, nos alpendres em que crescemos. Três filhos francos de corações armados ouviram: mais vale os outros contra ti do que tu contra o espelho. Seja mesmo fiel a você e não falharás com ninguém (ou com quem importa e sabe se importar). Contra tudo que é verdadeiro só pode ser a mentira. Contra tudo que é destempero só pode ser o azedo. Todos os dias eu olho a tua foto. Não me demoro pra não deixar os olhos vacilarem. Alguns poucos segundos são suficientes para lembrar que o nosso abraço é um laço e que o teu sorriso é como o meu. Segue essa carta para chegar em tuas mãos limpas, espalmadas em um avental, pouco antes de colocar os óculos e sorrir com os olhos. Teus olhos de branco castanho.

Para T.

engrenagem encaixa na rótula
homem corre, homem corre
martelo e compasso nas mãos
homem corre, homem corre
essa livre massa de ar
nuvem de aço conforto (censurado)
era sem cem sem cento e sem centavos
centauro
engrenagem encaixa na rótula
rótulo de paisagem
homem livre, homem vive
é que era peça
o que era possível trocar
quando máquina quebra
quando ela vai quebrar ?
e agora o que se troca
é o homem que se senta
na maquina que opera
quem espera
quem vai esperar ?
vagalume
vaga
lume
vaga ideia
e o homem corre
e a ópera começa

ainda sei qual perfume
eu fecho os olhos bem devagar
hoje olhei pela janela
e gostei de imaginar
lá onde dobra a rua
aqui

vi você chegar

esse meu sorriso te quer tão bem
sopra a vida que é a vida que será
eu não sei o que é o amanhã
só sei de hoje… e que hoje queria te ver de perto
hoje eu queria te beijar

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