Do horizonte o farol resplandecia seu fosco azul escuro, borrado, ondulado. Tremulava como pedra negra. Forte como os fundamentos da terra.E uma pálida vela viva morta pelo vento. Levaria muito tempo para se entender os motivos do acaso e os planos do destino. Que linhas eles traçam? Que sorte eles lançam? É que muitos caminhos foram cruzados. E no instante seguinte tudo mudou. Acontecia que, lá do alto, Benjamim esbravejava, como flâmula em seu mastro de mezena. Pela luneta a certeza do que estava por vir. Naquele horizonte oeste a tormenta arrebentava a linha do mundo. Era que caravela apontava o desejo de chegar sem imaginar que sua velas seriam açoitadas e sua âncora partida. Estava ela, ali. E, no entanto, descendo as escadas tropeçadas, o porteiro da luz ouviu o mundo rugir. E tudo balançou. E ele caiu. E sem a pólvora e sem fogo e sem a luz. Escarpas rochas salivavam à sua porta esperando o último suspiro de um naufrágio. E a loucura tomou conta das ondas que o primeiro raio partiu. E veio uma brisa fria, uma gota, uma ventania. E veio o fim do dia, da noite, da matiz. “Volte, volte, volte” gritou Benjamim. “O dragão não é moinho. Volte, volte, volte!” Vociferou. “Não tenho como acender uma luz para o teu caminho. O mar te chama de volta, mas tu não vai aportar.” Naquela altura o navio jazia preso a órbita de seu destino. Da janela baixa o porteiro saltou para península que avançava sobre as agulhas. E veio a torrente do céu. Lavando o mundo como se o oceano estivesse sendo despejado lá do alto. E com a morte em seu rosto Benjamim gritou contra o mar… mas ninguém ouviu…

Eu era pronome
Era um nome
Eu será palavra
Erra conjugada
Eu seria futuro
Mais-que-perfeito
Se fosse no peito
O mesmo desejo
De ser conjugado
Conjuraria
Sem ser julgado
Julgaria
O meu pecado
Por imperfeito

Quando o barco estava em alto mar. Foi onde mergulhamos. Aquele recife da cor do céu. Acordamos. Viveríamos uma vida cheia de sabedoria. Ouvindo a chuva lavar as nossas almas abraçadas. Cansadas. Doce e leve espírito. Cheia de ternura. Você sempre foi essa criança. Que sorriso eu perdi? Que palavras eu não soube dizer? Sobre as minhas mãos o peso de escolhas desenhadas. Rabiscadas. Quase apagadas. Aquela brisa não pode voltar? Quando as estrelas eram capazes de beijar os meus olhos. Naqueles quadros sem foto que você colocou na parede. Uma vontade de pintar os momentos que sonhei. Que ternura pode ser mais linda que o teu coração? Que vestido pode ser mais branco que o teu? Feito de algodão. No seu sorriso eu guardei uma verdade. Que a vida é cheia de mistérios. Mas as tuas certezas sempre foram maiores. Dia leve de braços dados pelas horas do sol. Nas páginas de um livro que saboreamos. Desejava uma máquina capaz de atrasar as horas do mundo. Antes que fosse interrompido por fogos de artifício. No sussurro dos nossos destinos guardados. É que sonhamos. Mas acordamos humanos. Talvez fosse por um futuro-mais-que-perfeito. Eu queria um pouco daquela sabedoria. Mas só sei sentir e pensar. O que me resta? Vou pintar então as paredes do meu quarto… da cor do teu céu… da cor do meu mar…

Naquele município o lixo
era recolhido por uma burra.
Puxava carroça.
Parava. Cansava.
Brava, brava!
Prefeito prestou conta.
São 365 sacas de
milho pra guerreira.
“Ela come uma saca por dia.”
Magra, magra!
Morreu de fome.

Estou mais novo. Uma perspectiva estranha neste dia-de-ser-mais-velho. É que eu me sinto menos certo de tudo que alguém pode trazer como certeza. ‘Algo que jamais se esclareceu: onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei ?’ Duvido muito de alguns totalitarismos modernos. Acho que cabe muito bem neste dia de pensar a vida uma máxima da profissão que escolhi: menos é mais! Menos rancor, mágoa, raiva e incompreensão. Um pensamento que beira à inocência em tempos de síndrome-de-cólera-virtual. Talvez um ‘então-vá-pra-merda’ traga alívio imediato ao coração.

Ufa! Quanto caos nesse mundo desconectado de bom senso. Sendo ainda inocente (falei que estou mais novo), penso que seria melhor ser menos velho de alma e ser mais jovem de coração. No fim a gente deixa sempre uma porta aberta para receber melhor outras possibilidades. Pra pensar com sentimento e sentir com razão. Pra evitar o pequeno pecado de não saber respeitar, ouvir ou colocar um ponto final. Como este que encerra esta frase. Uma pausa pra pensar antes de dar uma resposta. Menos é mais vida. Menos é mais respeito. Menos é mais sabedoria. Menos… é mais gentil. E talvez de ‘menos’ em ‘menos’ a gente some e multiplique. Mais certos de que ainda não sabemos tudo ou se isso é tudo que há para se saber.

Devia existir uma doce e sagaz sabedoria no olhar que minha avó trazia. Na capacidade de fazer alguma coisa ritualisticamente sem pressa, de-va-gar. Acho que preciso de tantas e muitas voltas para alcançar aquela serenidade. Até lá, vou no ritmo que dá, procurando o imaginado futuro-mais-que-perfeito.

Estou mais novo. Esqueço as chaves, derrubo coisas, tenho medo de filme de terror… Não sei como é envelhecer pra vocês. Deve ser chato! Eu vou aqui, no meu pequeno passo acelerado. Querendo alguma coisa com essa viagem-de-viver. Sem saber se já sei o que era pra saber. Mas já aprendi a pintar como vocês, dentro do contorno. Então completo mais uma volta… e volto a ser novo de novo.

mi.la.gre
sm (lat miraculu). 1 Fato que se atribui a uma causa sobrenatural. 2 Teol. Algo de difícil e insólito, que ultrapassa o poder da natureza e a previsão dos espectadores (Santo Tomás). 3 Coisa admirável pela sua grandeza ou perfeição; maravilha. 4 Fato que, pela raridade, causa grande admiração. 5 Intervenção sobrenatural. 6 Efeito cuja causa escapa à razão humana. 7 Pop. Figura em madeira ou cera oferecida em cumprimento de um voto. Contar o milagre sem dizer o nome do santo: narrar um fato omitindo o nome da pessoa a que se refere, para evitar desgostos ou compromissos. Fazer milagre: praticar o impossível.

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