um coral floresceu na encosta das colunas
sob a ponte em que sonhamos aquelas estrelas
uma floresta nasceu e morreu em cada inverno
nos anos seguintes esquecidos de nossos olhos
por onde andamos os nossos pés em cada escolha?
quando deixamos o mar banhar nossos corpos deitados
o que foi aquele futuro? o que será o nosso passado?
na encosta daquelas pedras
aqui onde o mar nos chama de volta
quando cada onde é uma história para se contar
a cor que sopra a chuva e desbota
o perfume que nos invade e se mistura
quando esquecemos os nossos nomes
quando apagamos com ternura
e o tempo nos trouxe o sorriso de uma vida
em cada noite que deitamos para lembrar de esquecer
fechamos os nossos olhos cansados
acordamos nossos sonhos e seguimos
no virar de cada calendário

um coral floresceu na encosta das colunas
sob a ponte em que guardamos aquelas estrelas

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O tempo é como o silêncio de um olhar. Ele está nas palavras escritas em branco. Como pensamento gentil que sorri. E volta. Como reflexo que deseja o bem sempre está. Nestas pessoas de cores simples a efígie de uma viva alma. E lampejos. Quando interrompido por fogos de artifício. Um deserto azul dentro das mãos. Pela janela que voa não sabe aonde vai. Agradecido por ouvir tão íntimas confissões. Nas cores das bandeiras que flamejam cada alma. Sou eu quem abotoa os meus botões. Na rua de um passante que desfila tua inocente vida. Ele não precisa saber. E respiramos o caminho e seus sussurros. Certos de uma imensidão particular. Somos partículas no acaso de um movimento. Nas linhas de um mapa desenhado por um cego. Na encavogravura dos nossos rostos tecidos. Es-cul-pi-dos. Sorrimos. Nos temperos que guardamos para um jantar. Vai chover, vai chover, vai secar. Dentro das memórias de uma sala. Nas varandas das casas. Nos varais dos quintais. Eu sou este aquele que dança dentro de uma coroa. Na esperança que acorda o sol dentro do mar. Pela rua das flores de um só-riso solto. Um círculo sem curvas. Um abraço para respirar. E tudo é um lampejo de silêncio. Aqui em nossas redes ouvindo a chuva tilintar. São os olhos que se abrem para sonhar.

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Numa cidade deserta flutuava o sol. Pelo rádio a perseguição de uma melodia narrada. Um homem negro marcava o alvo nas próprias mãos. No peito esquerdo uma cruz enferrujada balançava. A polícia montava planos e mapas para o cerco. Sob a mesa de vidro um copo de conhaque. E ele esperava que toda pedra fosse um degrau para uma jangada incrustada em alguma paisagem. Aquele homem do mar me deu os mais preciosos conselhos. Na tua barba fios brancos de uma juventude. Um conversível 98 e ferrugem. Naquela estrada onde as palmeiras te saldavam e balançavam. Havia pouco para descobrir onde estava. Pelo rádio uma denúncia. Os óculos escuros esquecidos sobre o banco de couro rasgado. Era quase levado pelo vento. E o sol nos abraçava e fervia. Do lado de lá o mar. De cá o ar que circulava. Até que o dia fosse noite por uma estrada sem curvas. Restava a paz de uma delícia incerta sobre qualquer coisa. E nós poderíamos rir livres das mentiras descobertas e queimadas. Poderíamos descansar. Seguir certos das denúncias. O pavio de um tanque cheio para enlouquecer por 300 quilômetros. Aceleramos os batimentos sob a chuva que lavava… e a estrada, a estrada… 110…120…160… O próprio alvo alcançado pelo rádio. E o refrão nos fez gritar com desespero e euforia. Como lobos com lágrimas. Aquelas de alguma ventania. Foi quando em uma cama de frente para o mar. Onde o sol iluminou tua alma nua. Alguém de pé te esperava. Remington 1875. Sob o mar afogado fervia um coração. As mãos sobre os laços. Uma faca sobre a mesa. Mordia. Quando veio a noite um novo mar. O frio de um deserto azul infinito que brilhava. Fomos interrompidos por fogos de artifício. Dentro da boca um céu de estrelas. Em algum hotel abandonado o frio que vem amanhecer. Sem saber voltar. O corpo sentia com calma. A cabeça no lugar de um coração. Os olhos verdes no retrovisor. Pele vermelha e brisa. As notícias do rádio que não sintonizava. Mudava. Desligava. E aquela música que gritava. As botas sujas e a calça rasgada. Os cabelos assanhados e a barba. Aquele deserto. E tudo era alguma loucura. As palmeiras que saldavam e balançavam. Havia pouco para descobrir onde se escondia. Os óculos escuros e o rosto marcado. Era só o sol que nos abraçava e fervia. Do lado de cá o mar. O ar que circulava. Um refrão pulsava dentro coração. Sentia o que se pensava, o que se precisava, o que se vivia. A vida é uma estrada sem curvas até o mar. Aquele que nos chama de volta. Mergulhamos sob os satélites. Nos abraçamos sob as ondas. O corpo escapava da própria pele. Derretia. E quando alcançamos o cerco aceleramos. Os avisos luminosos e as armas apontadas. Despistamos quando nosso carro saiu da estrada. O cerco abandonado de um farol. Quando dentro do mar um espelho… um espelho… um espelho para o sol.

Numa cidade deserta flutuava uma estrela que dourava. Pelo rádio a perseguição de uma melodia. Um homem negro marcava o alvo nas próprias mãos. No seu peito esquerdo uma cruz enferrujada… balançava.

And in your waiting hands
I will land
And roll out of my skin
And in your finals hours I will stand
Ready to begin

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O azul do céu vermelho que vai nascer. Quando acordou ouviu o mar. A luz sobre as costas nuas das montanhas. Pela vidraça que o frio nublou. Aquele homem que caminha pela sala. Pela casa que ainda não foi mobilhada. No caminho descalço pela areia do quarto. Sobre o azulejo do mar. Quando ontem essa noite tinha nos olhos o farol de um navio. Uma lanterna a girar. O vagalume dentro do lustre. Na mesma hora em que os teus olhos começaram a fechar. Essa antologia de contos que deixou sobre a mesa. Essa. A mesma. Do outro lado da cidade, alguém desceu as escadas. Cruzou olhares com o vazio da noite. Caminhou pelo jardim, sobre o cascalho que rangia. Nesta noite tu só será linguagem. Foi quando o relógio casou os seus ponteiros. Numa hora em que os faróis cortaram as vidraças. Bateu à porta entreaberta. Eu hospedo infratores. Aqueles que têm fome, que morrem de vontade. Os que cercam de desejo. Aqueles que morrem. Aqueles que ardem. E esta risada, esta risada livre de sanidade e de explicações. Vidas subestimadas na palidez do dia. Fortified with the liqour store. This one’s down, gimme some more. Do outro lado da linha, poucas palavras sussurradas. Estava mergulhada na banheira a olhar o horizonte. Lavada em suas intenções. Give me soul and show me the door. Metal heavy, soft at the core. Gimme toro, gimme some more. O céu cedendo até riscar a torre e balançar o mundo. Ela revelou o convite com um sorriso que nunca planejou. Recebendo a oferenda de um veneno que levava à sua boca. E a fumaça se misturava a silhueta irrompida pelo sorriso dos seus olhos. I’m giving you a night call to tell you how I feel. I want to drive you through the night. I’m gonna tell you something you don’t want to hear. I’m gonna show you where its dark, but have no fear. E o relógio bateu suas últimas notas. Pouco se ouviu. Um colisor de hádrons para desfragmentar aquele cronógrafo. Foi quando a noite se tornou quase tudo isso. Quando a chuva lavou as janelas. Quando o sol parecia dizer não. Em cada casa que o mar engolia. Respirava, voltava, se desfazia. E tudo era só linguagem. Em um sonho quase real sobre algo que se vivia. No vermelho do céu azul que vai nascer. Quando dormia lembrava. Quando acordava es-q-u—-e-cia.

– Ainda nos resta um tempo, certo?
– Sim, um pouco mais.
– Que tal uma história?
– Uma história? – Disse levantando seu corpo e abraçando os joelhos.
(…) 

cetaceo

Ouvi uma voz dentro da brisa: tuas mãos são fortes, teus passos serenos. Quem fez este coração? Quem o lapidou? Fez este para cruzar oceanos. Mergulhado em mares profundos de calmaria. Está na tua voz. Ouça. Está no teu corpo. Sinta. Quando nasceu e morreu para voltar. É tão grato o teu sorriso. Teu corpo vibra e ilumina. É quando acende as chamas sobre o que sentes. Sinta o que os teus dedos tocam, o que o coração diz já saber. A gratidão perfuma tudo ao qual se dedica. Tudo por ti feito, tudo que por ti é dito em silêncio e respeito. Quem vê a ti perceba, perceberá o teu amor. Como sonhou os teus sonhos? Como os fez realizar? Como cruzou o oceano? O que te faz desistir ou acreditar? Quem te abraçar perceba, perceberá o teu calor. Não se pode fingir um pensamento. Os sentimentos que ardem em ti. Sonha como a cachalote onde pode sonhar. Quando é raso tu sentes, quando é profundo consegues mergulhar. Naquele domingo. Na estrada que te espera até o sol desmaiar. Para que tudo fique bem, pleno e completo. A cada dia e noite em que a vida segue para ser nova. Agora escolhe viver pela compreensão do lugar certo, das ações certas, dos sentimentos certos. Disse uma voz dentro da brisa. Você está sorrindo a sua paz. Tuas mãos são serenas, teus passos são fortes. Já fostes longe nesses mares. Não há nada que seja pelo acaso. Reina dentro da tua respiração, invade cada célula. É a lei natural que não se pode impedir. Então faz da tua luz uma escolha sempre certa. E sorri. Respire quando chegar à superfície. E deixe a brisa te inundar, num mergulho para ver e sentir a verdade que vem com o sol… num mergulho para respirar.

“São apenas os sussurros que ecoam nos teus olhos e em cada sorriso que gentilmente dá ao mundo. No alto da escada, no teu castelo de proa. Colhe as estrelas no céu da tua boca. Olha para o grande azul que mergulha até a barra do mundo. E sente o perfume da vida? E sente o calor do dia que vai nascer? Faça jus a tua alma franca e clara que vibra e ferve. Bravo, livre, brisa, breve. Veio ver o sol para nascer também. Mata essa vontade de viver! Aqui! Onde o mar desemboca, no fim de todas as coisas.” (…)

“Parce qu’était lui, parce qu’était moi”
Montaigne.

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(…) Foi quando cheguei ao topo daquela torre de aço. Foi quando vi a luz do mundo sobre mim. Naquele dia de sol e frio, contemplavam os olhos de minha paz. E o sabor daquela brisa que me enchia os pulmões. E ali em me encontrei em perfeito estado de quem eu sou. O sol repousava sobre a minha alma estampada. No rosto que saudava uma vida até ali. E veio o vento assombrar a todos que riam e se entreolhavam. No meu lugar era a espuma de uma praia. Reinava escondida debaixo de cada pálpebra. E veio a noite estrelada. E o ar que nos roubava. Interrompidos, lembramos de um futuro que nós sonhamos. As miragens de Ishmael. E o sabor do mar em suas narinas. No alto daquela cidade era eu quem respirava. Como o sol iluminava. Iluminava. Aquele futuro-mais-que-perfeito. Aquele que alguém conjugava no pretérito. Aquele que nós escrevemos em cartas.

(…) Cada mastro uma flecha partiu. Veio do céu um furor azul. Ziguezagueando até nos alcançar. Bateu contra o mastro principal. Pulverizado pela fúria de uma tempestade. Éramos caçados por alguma augura celestial. Aquele Senhor nos condenava ao derradeiro naufrágio. Estaríamos juntos até batermos contra o fundo do pacífico. Brandei pelas almas que eram minhas. E contra o céu eu lancei o meu grito. Outra lança veio do alto e toda sorte estava perdida. A bujarrona inflamava como o sol. E o Senhor não revelou os seus mistérios. Aos poucos uma pálida esperança fulgurava. Um farol… um farol de pedra azul…

(…) Foi quando chegamos às portas daquele horizonte. Sentimos o perfume da terra molhada, enraizada até o céu que desmaiava. Pela estrada vendemos nossas armas ao caçador de Belmonte. Um olhar distante tocava as montanhas borradas. Éramos os primeiros a repousar sobre aquelas terras ermas. Homens de cores simples. De mãos fortes. Bravos corações gentis. Filhos de marinheiros, camponeses e reis. Estes que ouviram os primeiros dias. Foi quando chegamos. Aqui. Onde as estrelas são estranhas.

 

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Era luz do ar
Do-ar um coração
Era azul no mar
A-cor-de-om

Que nem toda vida, ela vem
Que essa tua palavra me faz
Por sorrir eu me atrevo
A respirar o azul do que vejo
Se era possível ter cor
No céu da boca que beijo

Era o ar da luz
Do-ar um coração
Era azul como a noite
Luto, negro, noturno, profundo
Era quase aquilo
Era quase absurdo
Aquilo que grita
Me ensurdece
Me deixa mudo

Era luz do ar
Do-ar um coração
Era azul no mar
A
cor
de
om
das