eu parei alguns minutos para parar de parar que comecei
que onde você acorda tua voz rouca é o frio da pele
olha colhe essas flores que caem pela janela de quem vive
essa tua cabeça é madura para pensar com o coração
e sem os julgamentos baratos e fáceis que estou farto de ver
infarto por saber que não sabem antes de falar que sabe
que nada disso é algo capaz de desenhar alguma coisa
que dirá que é verdade de uma parte que não cabe (o que te cabe?)
esses olhares falidos de corações pequenos que não batem
verdade é verdade, não existe um parte, não existe metade
mas escolhe sempre isso aqui que faz de uma parte
e se parte por não ser inteiro como ministério teu
o que bate é um caixa ôca de olhos que têm sede
porque era ele, porque era eu

o respeito ao indivíduo é duvidoso quando não suporta
algo diferente do teu mundo. este que te fez pensar que era tudo.
conheces apenas o que te apresentaram. sobre muito.
pois fez do teu riso uma reprise previsível
são as mesmas coisas tuas que envelhecem novas.

algo sobre Montaigne (1533-1592)
Parce qu’était lui, parce qu’était moi

Todos os dias, antes pouco depois de um café, durante aquelas momentos de chuva e sol em que minha casa é lavada, leio que minha gente segue sob as leis de senhores imorais. Todos os dias, mês após mês. Deste horizonte eu vejo a tua foto com ela, com aquela criança nos braços, nos alpendres em que crescemos. 3 filhos francos de corações armados ouviram: mais vale os outros contra ti do que tu contra o espelho. Seja mesmo fiel a você e não falharás com ninguém. Contra tudo que é verdadeiro só pode ser a mentira. Contra tudo que é destempero só pode ser o azedo. Todos os dias eu olho a tua foto. Não me demoro pra não deixar os olhos vacilarem. Alguns poucos segundos são suficientes para lembrar que o nosso abraço é um laço. E que o teu sorriso é como o meu. Segue essa carta para chegar em tuas mãos limpas, espalmadas em um avental, pouco antes de colocar os óculos e sorrir com os olhos. Teus olhos de branco castanho.

Para T.

engrenagem encaixa na rótula
homem corre, homem corre
martelo e compasso nas mãos
homem corre, homem corre
essa livre massa de ar
nuvem de aço conforto (censurado)
era sem cem sem cento e sem centavos
centauro
engrenagem encaixa na rótula
rótulo de paisagem
homem livre, homem vive
é que era peça
o que era possível trocar
quando máquina quebra
quando ela vai quebrar ?
e agora o que se troca
é o homem que se senta
na maquina que opera
quem espera
quem vai esperar ?
vagalume
vaga
lume
vaga ideia
e o homem corre
e a ópera começa

ainda sei qual perfume
eu fecho os olhos bem devagar
hoje olhei pela janela
e gostei de imaginar
lá onde dobra a rua
aqui

vi você chegar

esse meu sorriso te quer tão bem
sopra a vida que é a vida que será
eu não sei o que é o amanhã
só sei de hoje… e que hoje queria te ver de perto
hoje eu queria te beijar

inspiração
inspiraçã
inspiraç
inspira
inspir
inspi
insp
ins
in
i
e
ex
exp
expi
expir
expira
expiraç
expiraçã
expiração

respirava o mar mergulhador
eu e o mar mar e céu
livre do mundo mar de sol
sobre as pedras que olhava
e o vento que abraçava o peito
contra o rosto de sal
vermelho
respirava o homem só
eu que era mar e céu
abria os olhos fechados
não sonhava aquilo que vivia
vivia
eu mergulhava
e ria
que viver só é possível se respirar
e inspirar e inspirar e inspirar
livre livre livre livre livre livre livre
livre livre livre livre livre livre livre livre
livre livre livre livre livre livre livre livre livre
aqui onde o mar é azul
onde é profundo
livre livre livre aqui
livre livre livre livre aqui
livre livre livre livre livre desça um pouco mais

se veio até aqui para respirar

não podes temer
sem medo de mergulhar
inspirar
livre livre livre livre livre livre livre aqui
onde o mar é azul

livre livre livre livre livre livre livre
livre livre livre livre livre livre livre livre
livre livre livre livre livre livre livre livre livre

 

desça um pouco mais

agora respire

o mar nos chama de volta

nessa profundidade podes ouvir

livre livre livre aqui
livre livre livre livre aqui
livre livre livre livre livre um pouco mais

desça

 

livre livre livre livre livre livre livre
livre livre livre livre livre livre livre livre
livre livre livre livre livre livre livre livre livre

livre livre livre livre livre livre livre livre aqui

As ondas subiam e batiam contra o céu. Com o badalar das horas que pulsavam no coração. Era o céu esse azul borrado. Tão temerosa imensidão. De nuvens cinzas que sopravam o Mirmidão. Nós nos perdemos no oceano. Perdemos a chance de naufragar e nos afogar em nossos corações. Essas praias sonhadas que aquecem as mãos. No céu de uma boca que engole o mundo. Ouvimos um canto celestial sobre o horizonte que esmaece. Eram esses os dias dos nossos olhos se tocarem. Mas as ondas. Aquelas ondas que lavaram o nosso mundo. Na ponta dos dedos que se perderam. Estamos aqui! No oceano que se ergue e respira. Balança os fundamentos da terra que se dobram. Estamos aqui! Uma visão de reis que se lançam em bravas naus. Eu só voltei para te dizer o que poderíamos. E tudo que perdemos quando deixamos de ouvir o sol iluminar os nossos rostos. Estamos aqui! Entre as ondas. No meio do oceano.

Essas palavras pesam toneladas
Não as brancas
Não as pretas
As apagadas

Essas palavras cruzam oceanos
Não as algas
Não as asas
Da-ti-lo-gra-fa-das

Essas palavras
Essas.
Por mãos escritas
Por mãos rasgadas

Pesam toneladas.

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