Um terço dessa parte que parte em navios
3 desejos de quem sabe na ponta dos dedos
São números que a gente não conta
Um desses dois eram nossos três laços
Eu estive sozinho nestas noites
Olhando os meus olhos fechados
De dentro mergulha nas pálpebras
Neste mar até o sol da madrugada
Um terço dessa parte que parte em navios
3 desejos de quem sabe na ponta dos dedos
A gente não conta um dos três (…)

Nuvens do oeste branco
Dentro de molduras antigas
Caminhava uma noite
Onde cada cadeira dormia
Todo frio que abraça
O silêncio que não muda
Ouço as primeiras notas
Na madrugada de um dia
Ao passar pela sala
Os sonhos de um abajur
Sibilando os murmúrios da noite
E o frescor de uma neblina
Quando dormia lembrava
Quando acordava e- -q-u- -c-i-a

Trate-me por homem-do-mar. Alma de sal. Olhos de brisa. Coração franco que respira no alto do traquete como o grande bufão. Esta que é a vida que nos leva pelo oceano. Soprai a bujarrona para o infinito que se perde para encontrar tua alma. Quer estar presa para se livrar. Olha no alto o albatroz. Não buscai sob os pés firmes da terra certezas de delícias, mas no balanço do barco embriagado. Verdades de quebra-mar para dobrar a respiração no descanso final. Este que nos aguarda igualmente como oráculo no ministério das almas. Inevitável. Como a baleia de Jonas. Do pó ao pó. Do sal ao sal. Escamas escarpas afogadas. Na fronte do teu mundo embriagado laçando os raios da tua tempestade. Oh, Senhor! Oh, Senhor! Sou eu quem clama ao lançar as redes nas minhas profundezas. O que pesco? O que laço? Que tesouros naufragaram e que segredos guardam as profundezas mais absurdas do meu silêncio? São apenas os sussurros que ecoam nos teus olhos e em cada sorriso que gentilmente dá ao mundo. No alto da escada, no teu castelo de proa. Colhe as estrelas no céu da tua boca. Olha para o grande azul que mergulha até a barra do mundo. E sente o perfume da vida? E sente o calor do dia que vai nascer? Faça jus a tua alma que vibra e ferve. Bravo, livre, brisa, breve. Mata essa vontade de viver! Longe de casa, onde o mar desemboca no fim de todas as coisas. Quem são estes que amarram suas loucuras ao amantilho e se jogam no mar? Pois não desejo descobrir que era raso. É um desejo mais profundo que o absurdo. Louco, surdo, mudo, turvo. Joguei-me para me afogar! E na imensidão do que desce, sobes em louvor ao Senhor. Pois o que é digno de cantos na tua vida? Se apenas pela escotilha escolhe respirar. Sobe ao convés, homem! Se só pela luneta encontra o olhar. Abre os olhos! Abraça o mundo com o fulgor de mil braças. Na frente de tudo que balança o teu julgo. No gurupés para fechar os olhos e saldar a vida que bate no teu peito. Tu. Não és segunda pessoa do singular. Deves ser a primeira a buscar um futuro-mais-que-perfeito. Conjuga teu verbo. Um ponto final no teu pretérito. Como este que encerra esta frase. Como este que se abre. E se abate no costado a sotavento das tuas ondas. De alguém que tocou as tuas mãos. Eram as águas do teu mundo te enchendo. Mergulha para respirar. Desata para amarrar. As nervuras do teu cenho. Os teus olhos castanhos que recebem o reflexo do mar. Iça todas as velas e sobe o grande mezena. Amanheça os caminhos para o frescor do sal que queima as tuas narinas. Não era o bote da serpente. Era este o bote salva-vidas. És contramestre e capitão deste barco. Ó, alma do mar. Ó, horizonte vermelho. Enrubesce o meu sangue branco. Esquenta o meu frio coração. Pois agora olho que não sou mais o que agora só serei por um segundo. E que este se fez antes por pouco tempo para ser depois. O que eu tenho? Nem o agora! Só a vontade de passar por ele. E a sabedoria que ficou presa à minha rede. Não estás pronto! Não estás pronto! Em eterna e finita tecelagem tu desabrota pelas mãos das parcas. Desenrola, desenrola. Da bitácula que arde e fumaça. E vive para morrer de viver. Sobre as rochas que lutam contra o mar. Lá, ao longe. Fica de pé sobre o mundo que não para de girar. De pé, bravo coração. Branda tuas alegrias sem medo das tristezas. Faz dela tua vela. Tua âncora. Mapas do acaso que não se sabe desenhar. Sente a dádiva do amanhecer. Respira tua vida. Nas tuas mãos um leme. Este que é só teu. Esta que é só tua, alma branca. Olha lá! Quem vem? Quem vem? Que histórias tecem suas barbas? Quem são eles? Eles? Eles são homens dos sete mares… homens de almas de sal…

“E só eu escapei para te contar.”

Tu. Fizeste questão de deixar pegadas neste deserto. Elefante azul. Tu. Caminha nestas nuvens pálidas de um céu antigo. Nu. Respira neste traje espacial litros de ar comprimido. Sufocado. Esbaforido. Dentro de um relógio. Roda como um esquilo. Cru. Descama esse coração arqueado. Amanhã. Teu futuro arrasta uma âncora do passado. Essa certeza. Te despe em carne viva. Na borda da taça cheia. Um. Que dois eram terços. Quem sabe conjugar? Um futuro-mais-que-perfeito. Tu. Aquele antigo marinheiro. Perdido entre páginas. Era esse o teu desespero. Nem a brisa, nem o mar. Nem o tempo foi o mesmo.

Senhores dessa rubra quimera negra. Âncoras partidas e velas acesas. O naufrágio de Miranda em mares turbulentos. Eis que o guardião da luz tomou o caminho para o Farol de Pedra Azul. Olhando para o horizonte desesperado de terrores. Soube em seu coração que o dia era um sonho antigo. E naquele momento a grande onda o alcançou. Incontáveis lembranças de um cronógrafo e o sabor do perfume do mar. Este que navegava em seu coração. É que a chuva acendia aquela lareira de pedras frias. Saberiam agora que naquela casa reinavam estes reis. A tempestade era teu elemento. “Enquanto você mantinha o seu orgulho eu morria deitada ao seu lado. Acorda-me depressa! Seguirei nesta vida no balanço de um barco? Eu quero aquele sonho. Aquele acordado! De quando fechava os olhos. De quando o mundo era um abraço”. E veio aquela tormenta do céu. O fim de todas as coisas. Uma fortaleza despedaçada sem forças para respirar. E no peito o farol fora atingido. Seus fundamentos balançaram e um grito ecoou. Um milhão de faíscas e sedimentos, tijolos, janelas, lembranças e lamentos. A ruína do presente. Por três vezes uma lança azul caiu do céu. Certa como uma seta zen. Furiosa como os dentes da mandíbula. E veio um clarão de memórias. “Somos uma corda com três nós”. Desatinos de desafetos desatados. Era mistério de palavras escondidas. Sussurro do coração. Vontade inebriante. Pecado sem perdão. E mais uma vez o mundo balançou. E o horizonte vociferou um final. Miranda viu uma sombra dentro da luz. Num gesto rápido a última esperança de Benjamim. Eis que ele ergue a lanterna sobre a cabeça. E por um instante tudo parou. Pintados em um momento, iluminados pelo clarão repentino, seus olhares se cruzaram. E ela o viu uma última vez. Buscou ouvir o que dizia, mas tão pouco conseguiu. E quando finalmente seus olhos se tocaram uma grande explosão aconteceu. Era como o dia. Um corpo em chamas banhado pelo óleo. O fogo vivo que riscava o céu fez de todas as luzes uma faísca. E um caminho seguro se mostrou para Miranda. Seguiu pelas pedras escarpas até alcançar terra firme. E quando se viu a salvo de todos os perigos uma última lança caiu do céu. Olhou repentinamente para ver a imensa coluna de fogo ser pulverizada. Colossal testamento da força que acendera um céu sobre a terra num milhão de faíscas. Interrompido por fogos de artifício para iluminar o oceano que se acalmara. E Benjamim não estava mais ali. Eram estas as cinzas levadas pelo vento. Como o mundo pode ser esta terra de milagres? Outra vez vem o sol mostrar sua coroa, sua verdade. Proclamará que muito se fez e se fará por uma vida feita de passos livres. E se esta escolha for certa… valerá toda vontade que brota dos teus olhos sinceros. E naquelas pedras de uma madrugada ela esperou… e esperou… até um novo dia chegar…

“Nas horas seguintes o terror tomou conta de mim. No frio da madrugada encontrei o teu cronógrafo jogado no chão. Na contra face que se abre descobri que ainda guardava a minha foto. O que passava pela tua cabeça nas noites em que contemplava? Vejo o vermelho tingir o horizonte. Então descubro que o senhor da luz não era um sonho. Ele veio novamente amanhecer os nossos olhos. Aos poucos aquecendo as ondas, tocando a minha face, alimentando todas as matizes da primavera. É que agora não existe moinho. Só a lembrança do que um dia guardamos em segredo, no despertar daquelas horas… brindávamos naquela casa… naquela cozinha. E o vento assombrava as cortinhas de uma janela… nos nossos sonhos ainda estamos juntos… naquele domingo…” Ass: Miranda

O Naufrágio de David Friedrich se desenhava. Ao final era tudo mais o que restava? Das alturas o mundo desabava, dissolvia, tremulava. Como em uma janela nos Rochedos de Rügen, Benjamim lançara seu grito de horror. Caiam dos céus maravilhas luminosas incontáveis. Fascinantes. Mortais. Abriam fendas na terra. Erguiam ondas no mar. E naquele castelo de proa Miranda alimentava seu último suspiro de esperança. Seus laços amarrados ao coração daquele homem. Esse que guardara em segredo seu último sorriso. E o guardião da luz proclamava sua súplica ao alcançar o portal da torre. Esta esperança que bate no teu peito pode vencer o medo da noite? Pois somente nosso Senhor sabe das horas que nos esperam até o amanhecer. Pode o mundo voltar a ser o que foi um dia? Pois somente o coração encontra discernimento sobre aquilo que não conseguimos perceber. É que a hora chega fria aos desejos apagados pela vida. Exaustos de tanto acordar para acender uma luz neste horizonte. Olhastes para o futuro que espreita essa aquarela borrada na taça cheia. E tantas vezes ignorastes este astro. “Venha, venha! Nasce novamente! Apaga esta noite com o fogo. Revela a verdade destes caminhos. Acende o meu coração de novo…”

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