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Portulacaria Afra. Ela crescia em silêncio em um pequenino vaso posto sobre um móvel da sala de estar. E eu a encontrava todas as manhãs para o desjejum. Havia sempre a cumplicidade de um silêncio entre nós. Eu não falava. Nem ela. Nada. Após o café, a segurava com as duas mãos e a carregava até a janela. Quando o sol a tocava, ela balançava seu corpo. Pouco a pouco sentia toda água lhe lavar as folhas até a raiz.

Clethra Alnifolia e Cravinas. Na Rua da Alegria existia e, pelo que me consta, ainda existe, uma imensa estufa vitoriana de ferro e vidro. Ali, cresce uma grande variedade de rosas. E mesmo nos invernos mais rigorosos, todo o arco e claraboia abrigam algumas das mais delicadas espécies. Dona Dominga cuida bem delas, com muita atenção e cuidado à mudança de temperatura do ambiente. Entretanto, após um rigoroso temporal, parte da estrutura de ferro se partiu. Por um longo tempo eu a vi aberta ao tempo. Foram longas semanas. Logo eram meses. Em um dia chuvoso, se não me falha a memória, lembro de ver Dona Dominga com um vaso de Cravinas deixando o local pouco depois de trancar uma das grades com um antigo cadeado de madeira. E veio a chuva, o frio, o tempo e o vento.

Mil cores. Certa tarde, pouco depois de desfazer as minhas malas, decidi fazer uma caminhada para o reconhecimento do lugar. Seguindo a orientação de um antigo morador da região, aquela trilha me levaria à murada da encosta sul. Seguir para o sul sempre me soava confortável: era como descer uma ladeira. (…) Outrora, esta região funcionava como um grande estaleiro onde ainda é possível encontrar um conjunto de embarcações, âncoras e madeiras que denunciam o tempo. Tudo que o sol pode corroer pela fome do sal. Andando mais um pouco pela trilha, encontramos um grande campo com vista para a murada e depois o mar. Há ali uma casa de pedras onde já não mora ninguém. Ou pelo menos, era isso que imaginava. É que alguém estava deixando o local no momento em que cheguei. E mesmo ao longe, pude perceber o que levava nas mãos. Era um vaso. Nele um cacto. Um cacto mil cores.

Essa é a terceira parte de três partes de um conto que sempre tentei. Que sempre esquecei.

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Era noite quando a chuva veio. A brisa e o perfume denunciavam. Não fechei as janelas de madeira que se abanavam ao sabor do vento. A pouca luz do abajur iluminava o meu corpo e a sombra. E o tempo parou. E ela caiu sobre o telhado acendendo o mundo. Sem muitos planos e pouca pressa, desci para a rua com a pouca roupa que vestia. Lembro de não planejar algo sobre isso. Lembro de caminhar pelo banho de chuva de pés descalços. A água me lavou. E o vento forte, que era frio, me inundou. Até que as estrelas apareceram. Eram lâmpadas mágicas. E para elas fiz meu último desejo. Elas me olhavam. E elas me diziam. Que você estava feliz e bem. E eu fiquei feliz por imaginar. Espero que a chuva chegue até você. E que todos os motivos para não sorrir desapareçam. A vida estava cheia de coisas que não foram ditas. Lembrei das palavras de Hosana. De suas mãos enrugadas segurando as minhas pouco antes de ouvir alguns dos mais preciosos conselhos. No caminho de volta, olhava pela janela e lembrava daquelas palavras. E quando o sol apareceu, vi o dia novo de uma estrada contornando o mundo até o mar. Ali, onde as estrelas são estranhas.

Para R.
Obrigado.

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As partes que somam a equação que quantifica cada uma das tuas ligações químicas em raios que não são claros como os olhos que resolvemos fechar para que toda luz seja essa mesma ao acordar por outras razões aquilatadas a cada novo ser que verbaliza tua linguagem quando cala tudo que há de terrível em si por si em mim em ti sobre a efígie que nos encontra sob a superfície que arranha que arranha que arranha a pior palavra que afoga e pulveriza o que nos mata de viver antes que tudo seja o mesmo ciclo capaz de mover a vida e enganar o que respira para não assumir cada uma das partes de uma razão dentro de um precioso fluxo de pensamentos que acontece pouco antes do sinal abrir para que a vida seja tua e nada mais seja teu onde o ponto que começa e termina essa linha vai dizer sobre o futuro-mais-que-perfeito ao tecer ao tecer ao tecer o que fizer que será que quiser ou o que quis dizer antes de tudo e de nada que mata que mata que mata e faz viver para que ele acorde por dentro e por fora revelando o avesso por ser mais que um nova ou a mesma noite antes do dia ser lançado no conforto do aço para o verso do espelho que nos faz acreditar que ele dorme e nunca nunca nunca vai acordar.

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Toda essa luz. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Pela janela estava todo o mar. As ondas quebravam por toda noite até o dia. Por todo pelo, barba, fumaça e sal. A pele queimada de sagrada penitência. E toda luz que eu fotografava. É que eu estive de volta ao ministério. Lá e aqui. Onde o cronógrafo das últimas horas ferve toda temperança. E tudo parecia se encontrar dentro daquelas palavras. E o silêncio. Ora a escrever. Ora a apagar. Nesta casa que permanece vazia. Por certo tempo. Por uma longa noite. Por dois longos dias. E toda essa luz sobre os olhos. Inundada pelo mar. Era o sol acordando o corpo. Meu corpo nu e inteiro. Quando me despia, vestia. Quando lembrava, esquecia. E toda essa luz. Sobre a pele que ardia.

But on a Sunday morning sun
Solo sunrise

#fib_Travessa_De_Cedofeita

Outrora a luz pela janela e o frio
Há poucas semanas tudo tanto mudou
E pensar que fomos convidados a partir
Você me diz o que fazer
Com quem andar, aonde ir

(…)

O que você fez do sentimento que te dei?
Aquela praia é a chuva e o verão
Aquilo que não consegui dizer
Que escrevi para guardar
Aquilo que existe e não se vê
Aquilo que precisava falar
Que ficou ali
Que ficou em mim
Em algum lugar

(…)

Ficaram coisas espalhadas pela casa também
E os caminhos que acordam meu seguir

(…)

Na rua de antiquários, pouco antes do fim do dia
Encontrei encouraçado em um anel
As palavras que eu precisava dizer
Cabe em um círculo que recomeça
Se você souber vai conseguir entender
As letras, eu contei até 18
Dentro de um círculo gravado
Que se multiplica
Oito vezes 8

(…)

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Em um sonho antigo
O rabo de baleia pelas costas
Desenhava o meu braço
Eu sou do mar
Deixado para mar
Toda âncora que eu laço
Amarro, des-pe-da-ço

E o rabo de baleia
De outra vida que voou
Eu sou do mar
Descasco o sol
Barba e sal
Rugas de sonhar
Cetáceo
Uma cachalote
No meu braço

Eu mergulhei no deserto
E desapareci no céu
Essas palavras vomitadas
Quando o relógio dizia
Quando dormia lembrava
Quando acordava esquecia

Dentro do meu mundo
Tudo é mar
E sal para adoçar

{
Se o pretérito for perfeito
eu voei
tu voaste
ele voou
nós voamos
vós voastes
eles voaram
}

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Entre todas as páginas escritas. Essa última que não diz. Quantos anos duram um sonho? O que escolhe escrever sob tuas pálpebras? Para lembrar de acordar todos os relógios dos teus sonhos. Em cada uma das tuas mãos que não alcança a outra. Por mais que sonhe essa vida. Éramos dois corpos perdidos dentro do outro. Entre todas as palavras que eu já escrevi, que eu já apaguei, que eu já vivi. Entre todas as letras que eu disse dizer. Quem fala de nossas vidas? Quem fala por nós quando batem à porta? Eu pouca coisa soube mais clara que a luz. E vi. Mas quando acordei, esqueci. Eu pouca coisa esqueci de apagar. E li. Mas preciso dormir para lembrar. Correndo contra o verão do sol, do inverno polar. Eu nunca mais falei que morri minhas certezas. Eu, sobre o leão que cavalguei. Eu, que nunca mais soube em que dia acordei. Quando estive dentro de ti, quando sonhei e amanheci. Que palavras eu nunca falei? Que palavras eu esqueci?

Algumas coisas eu nunca disse pra mim.
E tu? Que estrelas pode ver? Que palavra não ouviu de ti?

Mede o que é mensurável e torna mensurável o que não o é.
Galileu Galilei