giphy

que o mar é meu tu já sabe que navega
dentro de minha doce sinta que os olhos
fecham em cada estrela que laça e dança
nos pátios do meu coração onde acorda
a cidade está nas costas de um camelo
eles apenas devem ir embora deste lugar
onde estaremos a sós para amanhecer
esteja comigo quando o mundo nos engolir
já é noite nesta casa sem móveis imóveis
lançados contra o reflexo da janela
que o mar azulou meu sangue vermelho
e água onde aqui lavamos os nossos pés
untados na ternura da tua voz me diz
que a vida é doce dentro das nuvens
no abraço onde encosta teus pés nos meus
teu joelhos prendem os meus braços
para dançar enquanto goza na minha boca
e toda vida arde livre e respira alívio
que o mar é meu e o sal me envelhece
nas rugas de cada dia que todo dia marca
descasca uma ponta do meu coração antigo
disse uma cigana quando longe de casa
aquele aço vai gravar minha pele
e então eu vou morrer isto aqui
vai queimar minhas narinas
vai cozinhar a minha alma
e eu vou terminar para saber que vivi
foi algo que eu precisei fazer
foi algo que eu nunca escondi
e eu te disse que não é por isso
que eu não escrevo para pessoas medíocres
para viver eu digo que vivo e que assumo
mas em algum momento eu não soube e errei
dizer é tão difícil que eu quase me calo
isso é tudo que nos restou em cada acordar
deixe que seja então eu seja tu seja meu teu e tu
quando para ser seja conjugado no tempo
certo de que passamos do pretérito
era por quele futuro-mais-que-perfeito
antes que eu volte de onde vim voltei
em cada escolha resta calar e falar
que era certo tudo que queremos aqui
e me lembrou nesta noite meia noite vazia
que de quando em quando dormia e lembrava
mas quando acordava esquecia
eu vou mais do que posso
e por isso vou evaporar no mar
então resta este ali que é ser
eu vou passar na porta do inferno
e vou sorrir quando te ver

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cassini-saturn-

fomos longe muito mais
até os confins do fim
onde as estrelas são estranhas
fomos longe demais
para ver onde somos
muito mais onde sonhos
fomos onde estamos

fomos muito longe
mais do que aqui

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A cada noite cai
Estrela de cadente
Que risca o mar
Nublado de certezas
Até o sol ver
Dis-sol-ver
E se espantar
Ser essa luz verde
Escarlatina
No meu céu
Na tua vagina
Em cada dia
Em cada uma
Essa palavra
Bruxa
Essa tua
Bruxaria

No teu seio reina o mundo
Que tudo é milagroso

 

Essa volta foi silêncio
Neste círculo sem curvas
Senti o reflexo na água
Eco de cada palavra
Nas formas que desenhava
Vazio branco de pintura
Quando a noite me amanhecia
E o mar me inundava
Quando dormia lembrava
Quando acordava esquecia
Em cada volta que temos
Nas compras sobre a mesa
Sorrimos com os olhos
Sobre aquela
Alguma
Certeza
Agora eu volto neste círculo
Cada dia outro dia
Eu começo e termino
No mesmo outro ponto
Uma nova volta viva
Outra nova que começa
Outra que me sinto vivo
Desde muito pouco tempo
Esse número quase primo
Nesta data de hoje
35

(rascunhos)
Naquele espaço lá onde eu voltei. 35 eu contei. Só eu escuto minha boca fechar. A língua untar um céu de carne. Nada que sentir diz longe vou. Eu acordo todas as noites antes. Para o sol apagar o que soprou. Vi uma carruagem cruzar o céu. O mar anil cinza verde vestido. Vi as dores dela. E o teu sorriso mais bonito. Fechei os olhos para dormir naquela tarde. Aquela fila e as compras. Os pacotes sobre a mesa. Então parei na janela. E deixei aquilo dizer. Nunca mais te vi voltar. Nesta volta, aonde vamos? Quem sabe ainda vai. Quem sabe ainda não começamos. A vida é um círculo sem curvas. Perto era longe de tanto tudo. Pedaços de cada coisa que essa frase diz sobre a outra. No que somos agora. Não tem palavra ou outra coisa. Que esclareça. É que essa linha é uma curva. E a primeira é a última. A gente vive dando voltas ao redor do sol. Falta essa de dizer que eu um dia disse. E agora começo. Volto a ser novo. Outro. Tudo. Completo. Mais uma. Outra. Nova vez.

Entre todas as nossas vidas escolhemos esta pele. Em cada sinal que o mar sopra em nossos olhos. Essa luz que ofusca o sol. Entre todas as escolhas fez a mais antiga do teu ministério. Que a vida começa e termina em cada noite. Quando, quando, quando é hora de apagar as luzes? Quando arrasta um silêncio até despertar por desistir de dormir. Quem te acorda para sonhar? Essa vida se torna um pouco mais antiga a cada nova e clara página. E eu agradeço por envelhecer. Por esse algum motivo escolhemos escrever sem olhar. Sentimos mais. Pensamos menos. Entre todos os dias que lampejam a espera de cada fim. Para ti, Lorenzo. Para recomeçar.

Entre todas as palavras que diz
Que dizer acha que diz?

Não confie em você
Não confie no outro
Não confie muito
Nao confie no olho
Confia em quase nada
Que nada é mesmo tudo
Esse tudo que se deita
Sobre as cinzas de ontem
Sobre o apreço de cada
Eu sei pouco sobre isso
Muito de quase nada
Não acredite no verso
Não se guie por palavra
Deixa cair no precipício
No abismo que não vê
No silêncio que te fala

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Eu me dobrei sobre mim e me coloquei em cima da cama. No frio que me partia. Pela casa que andava. Vazia. Meu corpo nu e inteiro. Daquele sentimento. Daquela alegria. Que me levava ao horizonte. Que me matava. Que me pa-r–t-i–a. É sempre o suave desespero. Uma incerteza absoluta. Ou o fim de todas as coisas. Ali… onde as estrelas são estranhas.

Eu me dobrei sobre ti e te coloquei em cima da cama. 
À tua bruxaria.